Estefan é o nome de um pequeno garoto que conheci há algumas semanas atrás. O que mais me chamou atenção neste garoto de nove anos foi sua alegria e humor. Muito comunicativo e atento ao que acontece, Estefan nos faz esquecer, muitas vezes, de sua maior dificuldade: a cegueira. Em uma de nossas conversas, resolvi provocá-lo e perguntei a este alemãozinho esperto o que significava para ele a beleza. Estefan franziu a testa e depois de um pequeno silêncio respondeu: Verde! O que eu acho mais belo no mundo é a cor verde. Então seu rosto se iluminou com um sorriso e continuou explicando-me que os campos e as planícies são verdes e que ele pede sempre à sua mãe para vesti-lo com roupas de cor verde. Apesar de não poder enxergar, a cor verde é para Estefan uma realidade. Talvez o seu verde não seja igual às diversas tonalidades de verdes que podemos ver, mas o verde de Estefan é pura realidade presente nos diversos campos e planícies que este alemãozinho não pode enxergar, mas vê com certeza. O universo, no qual vivemos, pode ser percebido, entendido e compreendido de formas e perspectivas diferentes. A realidade é composta por uma grande diversidade de seres que relacionam-se dinamicamente em um contínuo processo de transformação. A vida de um cego, de um estudante, de um trabalhador,daquele que sofre de mongolismo, de um racionalista, de um religioso, de um intelectual, de uma mulher ou de um homem são realidades diversas que convivem e completam uma única e infinita realidade.
A realidade com a qual tomamos contato possui, ao mesmo tempo, uma estrutura objetiva e subjetiva. A realidade é um fato, pois ela, independente de nossa vontade, existe a partir do momento que as coisas, pessoas e situações começam a fazer parte do mundo. Dentro desta realidade nós nascemos e com ela nos relacionamos. A realidade, porém, é essencialmente subjetiva, pois ela é reconhecida e interpretada de acordo com nosso ponto de vista, de acordo com nossa visão de mundo. Cada pessoa possui sua forma particular de ver as coisas e sentir o mundo e o universo que a rodeia.
Esta subjetividade faz com que a nossa experiência de mundo seja rica e faz-nos descobrir sempre novos aspectos deste único universo que temos.
Outra característica da realidade é a sua diversidade. Como afirma Pitágoras O universo é uma harmonia de contrários. Basta sermos um pouco mais atentos para percebermos o óbvio que muitas vezes nos passa despercebido. A nossa realidade não é uniforme: homens e mulheres, pessoas com diversas personalidades, inúmeros estilos de vida, diversas estruturas familiares, diversas Religiões] e, dentro destas, diferentes formas de religiosidade, climas variados, etc.
Esta diversidade de realidades, situações e formas de vida oferece ao mundo um colorido e uma multiplicidade saudável ao ser humano. Isso vivenciamos em nosso dia-a-dia: depois do trabalho é necessário o descanso, depois da chuva o sol, depois de um trabalho intelectual uma atividade física, depois do conflito a reconciliação. Estas diversas realidades vivem em uma constante relação (conflitiva ou harmoniosa) fazendo surgir novas realidades. Apesar esta diversidade de nosso universo, possuímos em nós a tendência autoritária da uniformidade. É difícil aceitar o pensamento contrário, um estilo diferente de vida, uma crença religiosa que não seja a nossa. Mas se pararmos para pensar, a diversidade não só faz parte de nossa natureza, como também faz com que tornemo-nos completos e sábios. O símbolo oriental do Yin e Yang expressa justamente esta harmonia da diversidade. O Yin, de cor negra, simboliza o feminino, o outono e o inverno, a flexibilidade, os números pares. Yang, de cor branca, é o masculino, a primavera e o verão, a força, os números ímpares.
Estes dois símbolos estão sempre juntos formando a unidade em um circulo perfeito. Cada parte possui um pequeno circulo da cor da outra, ou seja, cada força possui a semente da outra em si. Yin e Yang expressam a realidade humana que vive de uma constante troca, relação e comunicação dos contrários. Somente em uma relação aberta com o outro, somos capazes de transformar e re-criar nossa realidade. Apesar de muitas vezes ser dolorido, somente através da convivência dos contrários podemos alcançar nossa felicidade: Não há fronteiras entre o abstrato e o concreto, entre o universo que chamamos de fantasia e o mundo que denominamos de realidade. Todo movimento do imaginário tem seu efeito físico, toca a realidade, como todo ato real desencadeia uma revolução no universo da fantasia. O que há, na verdade, é apenas um único universo, um imenso e profundo cosmos, campo de um relacionamento espiritual e erótico entre o que existe.
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