Racionamento começa no dia 4 de junho e prevê cortes de fornecimento a partir de julho
A falta de planejamento do sistema energético pelo Governo Federal é apontada por especialistas como a principal causa do racionamento que a população brasileira começará a enfrentar a partir de 4 de junho.
Soma-se a isso o fato do modelo energético ser baseado em hidroelétricas, o declínio do nível dos reservatórios das usinas e uma mal sucedida experiência de privatização do setor elétrico, que prevê a destinação de 60% da cobrança de tarifa para a distribuição e o restante para a geração e transmissão de energia.
O processo de privatização foi muito ruim, porque o distribuidor não tinha nenhum compromisso de gerar energia, então, ele só compra. Ele está numa posição confortável, comprando e ganhando 60% da tarifa, sem precisar investir na geração e transmissão de energia, que deveria receber o investimento mais pesado, aponta o engenheiro eletricista José Angelo Cagnon, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Bauru.
Além do modelo de privatização, os especialistas criticam a falta de transparência na condução da crise energética. Sem o anúncio claro do que será feito efetivamente e de qual é a dimensão exata do problema se torna difícil eliminar o clima de apreensão do mercado, opina o economista Reinaldo Caffeo. Para reverter a apreensão é preciso, acima de tudo, que o cenário interno seja de calmaria, possibilitando, entre outras coisas, que o Banco Central comece a intervir um pouco mais forte na redução da taxa de câmbio e pare com a escalada de alta de juros, afirma Caffeo.
Se isso ocorrer, o economista acredita que haverá uma acomodação do mercado dentro de 60 dias, afastando as previsões pessimistas para o segundo semestre. Entre essas previsões, estão a diminuição de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), o déficit da balança comercial e a redução de 800 mil postos de trabalho, como aponta estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Essas possibilidades têm trazido bastante apreensão aos setores industrial e da construção civil da região de Bauru. Os empresários temem que a crise energética possa afetar o crescimento das empresas e indústrias, implicando, inclusive, na redução de empregados, diz José Luiz Miranda Simonelli, diretor regional do Centro de Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), em Bauru.
Para Simonelli, a Câmara de Gestão da crise energética não está atenta o bastante para o setor industrial. Nossa impressão é que o governo está desnorteado, perdido, não sabe o que está acontecendo realmente, o que indica falta de responsabilidade gravíssima, critica.
A avaliação do diretor regional do Ciesp é que, caso o governo não defina diretrizes claras para o setor industrial ao longo do racionamento, o número de ações de lucro cessante contra a União será constante. Não queremos benefícios, mas avaliação correta da participação industrial na economia brasileira e nesse processo todo, conclui Simonelli.