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Vale-transporte dificulta as contratações

Redação
| Tempo de leitura: 4 min

As chances de emprego para uma pessoa que mora em pontos muito periféricos e, conseqüentemente, necessita de quatro passes diários são mínimas, até nulas quando existe a concorrência

Morar nas zonas mais periféricas de Bauru é um ponto desfavorável na busca de emprego. Esse aspecto foi superficialmente abordado na edição do JC nos Bairros de domingo passado, quando o caderno tratou sobre a discriminação decorrente do endereço, mas volta à tona hoje, de forma mais ampla, na discussão sobre o desemprego. O presidente da Comissão Municipal de Emprego, Domingos Malandrino, confirmou o que já havia sido dito por organismos públicos e privados que recrutam trabalhadores desocupados: o empregador pretere candidatos que necessitam de mais de dois vales-transporte diários.

Malandrino não fez a afirmação em nome da comissão, mas como empresário que avalia as conveniências de contratar ou não um novo empregado. Segundo ele, as chances de quem reside muito distante do Centro ou do trabalho que pretende conquistar são mínimas, nulas quando na concorrência está um candidato geograficamente melhor localizado.

O pior da questão é que esse entrave acaba prejudicando justamente a mão-de-obra menos qualificada, parcela que, em tese, já amarga outras situações desfavoráveis em termos de qualidade de vida. Os trabalhadores mais atingidos são aqueles que pleiteiam vagas de caseiros, empregada doméstica, jardineiros, enfim, categorias sem pisos salariais e bastante vulneráveis às exigências do empregador. O patrão pode até pagar os quatro passes, mas com certeza irá negociar um salário menor do que pagaria se não precisasse arcar com a despesa. Por fim, o trabalhador é quem acaba pagando pelo transporte. Olhando o lado do patrão, há que se considerar que o vale-transporte realmente pesa no orçamento final. Quatro passes podem significar mais de R$ 100,00 dependendo do mês, ponderou o presidente da comissão, criada em 1997 com caráter consultivo.

O valor do passe, na opinião de Malandrino, pode até mesmo ser um empecilho na hora de procurar trabalho. Um desempregado, ainda que esteja fazendo um bico ou fazendo jus ao dinheiro do seguro-desemprego, raramente teria condições financeiras de bater à porta de vários locais num mesmo dia ou semana. Quatro, cinco ou dez reais para quem está sem renda fixa significa muito. Dependendo do dia, pode render a feira de uma semana inteira num sacolão. E não é só com relação às empresas e comércio que as dificuldades existem. A própria secretaria do governo que cuida das questões de emprego (ele refere-se à Secretaria de Emprego e Relações de Trabalho) está mal localizada em relação aos moradores da periferia (a sede do órgão fica no Altos da Cidade), observou.

Duas propostas colocadas informalmente por Malandrino - mas que ele deseja que sejam abraçadas pela comissão - poderiam, se não resolver, pelo menos abrandar o problema enfrentado pelas pessoas carentes e desempregadas do município. A primeira delas e bastante ousada sugere a instalação de um terminal de integração para os ônibus coletivos urbanos - um assunto que vem sendo debatidos há anos, mas sem desfecho até o momento - no atual prédio da Rodoviária de Bauru, que deveria ser transferido para um ponto mais distante, talvez nas imediações das rodovias que cortam a cidade. Dessa forma, dois passes seriam suficientes para as pessoas se locomoverem, ida e volta, de qualquer ponto da cidade, explica, reiterando o benefício já exposto em ocasiões anteriores.

A segunda idéia seria a concessão gratuita de passes para quem está à procura de emprego. O programa atenderia os trabalhadores desempregados há mais de 60 dias. Estes teriam passes gratuitos durante 15 dias, mas, obviamente, seriam obrigados a prestar contas do uso devido do benefício, que também seria restrito às pessoas pobres. Vou propor isso à comissão, mas como não temos poder deliberativo, é algo para Executivo, Legislativo e empresas de ônibus decidirem, transferiu.

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