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Racionamento revolta produtores da região

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

A meta de reduzir em 10% o consumo de energia, imposta pelo Governo Federal aos proprietários rurais, virou um verdadeiro transtorno. Muitos não têm idéia do que fazer para cumprir a ordem e já pensam em apelar até para o presidente da República para tentar uma revisão desse cálculo.

Os setores de avicultura e suinocultura estão entre os mais prejudicados com esta medida. Praticamente todo o sistema de produção depende do uso de energia elétrica e, diminuir em 10% o consumo, significa forçar uma drástica redução da produção. Prejuízo na certa, dizem os produtores.

Em uma granja, tudo está relacionado ao uso de energia elétrica. Desde o aquecimento dos pintinhos - que precisam receber calor, gerado por um aquecedor, nos primeiros 10 dias de vida - até a seleção e embalagem dos ovos, tudo feito automaticamente, através de equipamentos de alta tecnologia.

O presidente da Associação dos Produtores de Ovos do Estado de São Paulo (Apoesp), Edmir Donine, que também é avicultor, está revoltado com esta medida do governo. Se for preciso, vou mandar uma carta para o (presidente) Fernando Henrique Cardoso, pedindo uma solução para o problema, desabafou.

Em sua propriedade, localizada na cidade de Guararapes, Donine disse que já fez o que era possível para cortar o consumo de energia. Trocou as 900 lâmpadas de 60W que utiliza na granja por outras de 40W. Com isso, consigo economizar um terço do que era gasto com iluminação. Mas, é uma medida paliativa, explicou.

De acordo com ele, a granja precisa ser iluminada 17 horas por dia. Quando o sol vai embora, a luz artificial entra em ação. Não tem como apagar a luz, pois as aves só se alimentam no claro. E elas dependem da ração para produzir, salientou.

Mas, os entraves não param aí. Todo o sistema de produção é automatizado ou depende diretamente do uso da energia elétrica. Como é o caso dos pintinhos, que precisam permanecer numa temperatura de 35 graus nos primeiros 10 dias de vida. Para isso, é utilizado um aquecedor. A produção de ração, a alimentação, a seleção e embalagem dos ovos, tudo pode ser prejudicado com a redução do consumo energético.

Artesanal

Mesmo os sistemas mais artesanais de produção de ovos estão propensos a sofrer com o corte de energia. A Granja YY, localizada em Agudos, possui um sistema diferenciado de criação de aves e produção de ovos. Praticamente todo o processo é manual. As galinhas não ficam em gaiolas e não são alimentadas através de equipamentos sofisticados. A maioria dos cuidados com a ave fica sob a responsabilidade dos trabalhadores rurais, até mesmo a seleção e embalagem dos ovos. No entanto, o administrador da propriedade, Marcos Yaginuma, não está tranqüilo. Nosso grande problema é a iluminação, já que as aves precisam de luz 15 horas por dia para se alimentar. Estamos analisando qual a melhor forma de solucionar isso, disse.

Embora não seja o mais indicado, Yaginuma está estudando a possibilidade de trocar as lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes. Porém, terá que adaptar as aves a essa nova forma de iluminação. Talvez tenhamos que mudar a tonalidade da luz produzida pela lâmpada, deixando-a mais amarelada para que as aves não estranhem tanto essa mudança, salientou.

Outro setor que deverá ser afetado na Granja é a produção de ração. Yaginuma disse que as máquinas trituradoras dependem da energia para funcionar. Dessa maneira, ele otimizou a utilização dos motores, para que haja redução de consumo.

No caso dele, a meta imposta pelo governo veio a calhar. A Granja está passando por uma reformulação com o objetivo de melhorar o desempenho. A redução de gastos fazia parte dos planos e, a economia de energia impulsionou esse projeto.

Suinocultura

O setor de suínos também está sofrendo para se adequar às metas de economia de energia impostas pelo Governo Federal. Paulo Rangel Filho, proprietário da Suinogen Genética e Reprodução, empresa que tem três unidades entre o distrito de Tibiriçá e Agudos, disse que não tem como cumprir o que foi ditado pela CPFL. Eu não tenho excedente no consumo de energia. Tudo o que eu gasto já está no limite do que seria necessário. Então, como vou cortar consumo?, questionou.

De acordo com ele, que trabalha com cria e engorda de matrizes e produção de sêmen de reprodutores, para conseguir atingir a redução exigida seria necessário fazer um alto investimento para mudar todo o processo utilizado nas suas propriedades. Desde a captação de água para os animais, até a conservação de sêmen e vacinas, tudo necessita de energia. Não tem condições de diminuir o consumo, salientou.

Rangel Filho destacou, ainda, que a atividade não permite essa brusca mudança no processo de trabalho. Não teríamos como adquirir um gerador, por exemplo. É inviável, disse.

Metas erradas

Além do transtorno de ter que reavaliar a produção para economizar energia, os produtores estão com outro problema. A média de consumo enviada pela CPFL não condiz com a realidade em alguns casos.

O presidente da Apoesp, Edmir Donine, disse que, dos sete medidores que tem na granja, apenas um apresenta número correto. Não sei de onde eles tiraram esse consumo. Dos meus medidores é que não foi. Nada está batendo, reclamou.

Ele ressaltou que está tentando questionar a CPFL, mas não consegue se comunicar com a companhia. O telefone da empresa só dá ocupado e não existe escritório dela na minha região, disse.

Paulo Rangel Filho também está enfrentando problemas semelhantes. Ele contou que a meta de economia enviada pela companhia para suas três propriedades foi a mesma. No entanto, cada qual tem uma característica de consumo diferente. A média foi igual para as três, mas elas têm perfis diferentes. Se fosse cumprir o que a CPFL determinou teria que aumentar o consumo em uma delas e reduzir em cerca de 60% na outra, disse.

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