Geral

Universos diferentes no teatro

(*) Paulo Neves
| Tempo de leitura: 3 min

Diretor de teatro Paulo Neves escreve sobre espetáculos que entram em cartaz em Bauru este mês, no Teatro Municipal

Bauru assiste, neste mês de junho, a três espetáculos teatrais da melhor qualidade: Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, dias 16 e 17 de junho, às 21 horas; A Falecida e Vestido de Noiva (Cia. Teatral Fábrica, de São Paulo), ambas de Nélson Rodrigues, a primeira dias 23 e 24 de junho, às 21 horas e a segunda, dia 28 de junho, às 20 horas.

Um bom momento para o bauruense, que gosta de teatro, analisar os dois universos bem brasileiros: cáustico e mórbido, de Nélson Rodrigues e outro solitário e político, de Marcelo Rubens Paiva.

Três espetáculos de qualidade

O universo de Marcelo Rubens Paiva é o de um brasileiro, solitário, tetraplégico e, acima de tudo, político. Feliz Ano Velho conta a história do próprio Marcelo Rubens Paiva que, vítima de um acidente num mergulho (num lago raso), fica tetraplégico. Ambientada num espaço circense, a peça alterna a imobilidade do jovem acidentado com as lembranças de sua vida universitária, o desaparecimento de seu pai, o deputado socialista Rubens Paiva, e a luta de sua mãe, Eunice, procurando os assassinos de seu pai. Uma viagem profunda dentro da política brasileira nos últimos 25 anos.

Em A Falecida é mostrado um retrato impiedoso da vida carioca no subúrbio e ganhou de Robert McCrea uma adaptação radical. Sem cortar uma linha da peça, ele distribui para quatro atores e dezenas de papéis necessários a peça. E adotou a linha do teatro físico para a montagem. Não há cenários. E os objetivos imprescindíveis da ação são figurados pelo corpo dos atores, que podem servir de mesa de sofá ou de vaso sanitário.

Um dos textos mais importantes do teatro brasileiro, Vestido de Noiva começa com o atropelamento de uma mulher, Alaíde. A partir daí, Nelson Rodrigues constrói uma história fragmentada, distribuída por três planos: realidade, alucinação e memória.

No primeiro (na montagem do Grupo Jatobá, do Núcleo de Artes Cênicas do Sesi, de Araraquara), no chão, surge a realidade do hospital, onde os médicos tentam salvar a vida da mulher, inconsciente e aparecem os repórteres, que ordenam cronologicamente a história.

No plano alucinação (o mais alto do palco), Alaíde encontra madame Clessi, que foi assassinada por um jovem amante. Na infância, Alaíde teria morado com os pais na casa que pertencera à Clessi, autora de um diário deixado no sótão e cuja leitura impressionara a adolescente educada sob os rígidos padrões morais da época. No plano da memória (abaixo de alucinação), flashes da disputa de Alaíde e sua irmã Lúcia, pelo amor de Pedro, no dia do casamento da primeira.

Serviço

Feliz Ano Velho, dias 16 e 17, 21h; A Falecida, dias 23 e 24, 21h; Vestido de Noiva, dia 28, 20 h. Preços não divulgados. Teatro Municipal, av. Nações Unidas, 8-9. Informações: 235-1072.

(*) Especial para o JC

Cia. Fábrica dá workshop

A Cia. Teatral Fábrica, além de apresentar os espetáculos A Falecida e Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, ministra um workshop gratuito para atores, no Teatro Municipal, dia 20, das 14 às 18 horas. Os espetáculos e a oficina estão inseridos no projeto Cena Aberta, da Secretaria de Cultural.

No workshop, intitulado O Conceito da Verdade Cênica no Trabalho de Interpretação, o grupo propõe uma reflexão, por meio de jogos e improvisações, sobre como o ator lida com o depoimento pessoal no trabalho de interpretação, utilizando seu próprio conteúdo físico-emocional.

Os interessados devem se inscrever no Centro Cultural, nos dias 11, 12 e 13 de junho, em horário comercial, apresentando currículo sintetizado em disquete e carta de interesse. Esse material será enviado aos orientadores do workshop para fins de seleção.

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