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Jovens expressam identidade em "tribos"

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 5 min

Sociólogo diz que o fenômeno é cultural e mostra valores e o relacionamento do jovem com as cidades

Um passeio pela cidade à noite revela a diversidade dos grupos de jovens. Organizados com roupas e vocabulário próprios, os jovens adotam tribos para expressar a sua identidade. Para o sociólogo Augusto Caccia-Bava, da Unesp de Araraquara, especialista na formação cultural de jovens, trata-se de um fenômeno de cultura.

É cultural no sentido amplo do termo. É a forma deles (os jovens) se relacionarem com todos os aspectos e valores presentes na cidade onde eles vivem. É uma forma deles expressarem como eles estão vendo a cidade, afirma.

Segundo ele, a idéia de tribo, emprestada das sociedades indígenas, está ligada com a afirmação de uma referência cultural comum, valores e princípios. Tribo é um nome dado a grupos de jovens que tem como maior característica a manifestação de uma identidade expressa. Quer dizer, você ver a identidade pela roupa, pela forma de vestir, de falar, explica.

Para ele, o processo passa longe de ser uma alienação, apesar de não ter carga política, revela um posicionamento do jovem. Existem muitas explicações quanto a formação destes grupos. Originalmente, uma primeira interpretação era que isso seria uma forma de manifestação de resistência a uma determinada ordem dominante estabelecida, diz o pesquisador. Segundo Caccia-Bava, a segunda explicação refere-se a uma tentativa de difundir um tipo de padrão de comportamento entre os jovens ocidentais.

Procuro andar com quem pensa parecido. É até uma forma de combater o preconceito, afirma o skatista Átila Cervantes. Ligado na cultura hip-hop, ele atribui à identificação entre os integrantes do grupo o fator que determina o surgimento de uma tribo.

Para o tatuador e aplicador de body piercing Marcel Eduardo Paro, o Gordo, 27 anos, as tribos têm relação com o social. Tudo depende do lugar onde a pessoa nasce. É inevitável, quem nasce na periferia vai para um lado e quem é bem-nascido para outro, simplifica.

Segundo ele, apesar de ser uma marca da nova geração, o piercing já é aceito entre todas as tribos. É uma questão estética, não existe ideologia envolvida. O pessoal quer buscar um diferencial no corpo, quer mudar, não quer ser igual ao pai, a mãe, o tio, teoriza.

Ex-punk e metaleiro, Gordo diz que com a idade foi ficando mais maleável. Seu irmão, o também tatuador Marcelo Paro, 28 anos, concorda: Quando você é adolescente fica bitolado em uma coisa só. Depois amadurece e vê que existe alguma coisa além daquilo, explica. O pesquisador da Unesp concorda. Para ele, as tribos são fenômenos tipicamente adolescentes.

Mas nem sempre, aos 28 anos Fábio Luiz Rodrigues Mendes, o Binho Journey não pensa em mudar seus hábitos de vestir preto. A indumentária é característica dos fãs de Slayer, Iron Maiden, Sepultura e por aí vai. A música influenciou, mas desde pequeno eu gosto de preto. Quando eu tinha seis anos eu pintava os desenhos tudo de preto na escolinha, conta.

Como ele, Jessé Henrique não tira a roupa preta do corpo, faça frio ou calor. A maioria das pessoas que curte rock pesado gosta de andar de preto. Começo por causa do som, depois eu adotei, afirma o fã de black metal.

Paz e amor Eles queriam ter nascido um pouquinho antes e sentem saudade do que não viveram. Os entusiastas da contra-cultura dos anos 70 convivem com o preconceito de todos os lados. O pessoal acha que era só droga, mas é uma filosofia afirma Manuela Pereira Saggioro, 19 anos. A garota, que é talvez a maior fã de Janis Joplin de Bauru, aprendeu a conviver com olhares desconfiados. Quando eu saio eu gosto de me produzir assim (à maneira hippie), mas eu sei que não preciso da roupa, está na alma, afirma.

Para ela, mesmo com a mudança dos tempos, os anos 60/70 ficaram marcados pela expressão do sentimento de gente como Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison. Ela sabe, no entanto, que a conjunção de fatores que levou àqueles anos explosivos se foram. De qualquer forma, muitos como Maurício Martins Leite Neto, guitarrista do Black Sabbath Cover, admitem que gostariam de ter vivido na época.

Gosto da roupa, não vou falar que quero voltar no tempo. Não tenho tribo, afirma a também simpatizante dos hippies Cristina Valéria Carreira Improta. Ela diz que estudou a época para entender o contexto em que se desenharam os anos de Woodstock. Enfática, uma jovem que não quis se identificar, atacou o conceito de tribo. Isso é estereótipo, um rótulo. Só isso. Não tenho tribo, disse.

Patricinhas e clubbers

Difícil é encontrar alguém que admita ser patricinha ou mauricinho. As pessoas que se encaixam no perfil de bem-nascidos, bem vestidos (mas nem sempre) e prontos para o clique da máquina fotográfica direto para a coluna social, preferem dizer apenas que não são largados.

Os dois casais de namorados Fabiano Lopes, 23 anos, e Gabriela Comegno, 15 anos, e Vinícius Aidar, 18 anos, e Karen Massad, 16 anos, dizem que seus pares são patricinhas e mauricinhos. A única que admite, mas não no sentido de fresca, ser patricinha é Karen Massad.

Contrariando a moda paulistana, em que as patricinhas vestem roupas cada vez mais ousadas, tipo Britney Spears, e foram até batizadas como new patricinhas, as bauruenses fazem mais um estilo Sandy, boazinhas e comportadas.

Não sou patricinha, tenho um estilo. Minhas amigas dizem que sou eclética, afirma uma patricinha evidente na pista de dança de uma casa noturna da moda.

Super assumidos, no entanto, são os clubbers, a mais nova tribo entre as aqui retratadas nesta reportagem. O sucesso deste grupo pode ser conferido nesta mesma casa noturna da moda e abriu um espaço onde toca a música que parece vir dos subterrâneos de Londres, Paris e Nova Yorque. Estou adorando esta abertura. Antes, só as boates GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) tocavam tecno, afirma Mateus Paschoal da Costa. Eu sou clubber e tenho um monte de amigo clubber, revela.

Para o DJ Leco, responsável pelo tecno, trance, drumnbass que estoura na pista, o futuro já chegou a Bauru. Foi um sacrifício, mas conseguimos, comemora.

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