Nem todos os dias a mídia surpreende a opinião pública com informes marcados por impacto, desses que mexem com o coração e os pensamentos humanos. Mas, periodicamente, ela surge com alguma novidade de detonar os cabelos das pessoas, surpreendendo-as de forma descomunal. Na semana passada, contudo, houve o dia em que ela não pode esconder ou omitir acontecimentos fora de série, veiculando uma notícia que não poderia e não pôde deixar de exigir fundas reflexões nos seres humanos. Ocupando espaços privilegiados de seus esquemas, principalmente de primeira página, ela semeou preocupação na opinião pública ao prognosticar que cerca de 60 milhões de pessoas passam fome irreversível no mundo e estão fadados a continuar penosamente com o fenômeno, naturalmente com todos os seus penosos reflexos, não obstante tenha sido a colheita de cereais e de outros tipos de alimentos, no decurso dos últimos três anos, das mais fartas e saudáveis dentre todas as assinaladas pelo amplíssimo sistema agrícola universal, quase todo ele constituído por glebas reconhecidamente férteis e bem cuidadas. A maioria das nações produziu as espécies em quantidade aparentemente suficiente para abastecer todos os povos, com bastante folga, por bom lapso de tempo. Mas a história vem se incumbindo de mudar tudo, pelo que se percebe iniludivelmente, e, por isso, o que era esperado com entusiasmo agora é aguardado desesperadamente.
Infere-se, então, face à atemorizante matéria veiculada por jornais, televisões e rádios, que um futuro bem hostil está nascendo rápido para a grande maioria do Planeta em que se vive, entendendo-se, nas entrelinhas da informação, que épocas algo sombrias estão vindo para a indefesa humanidade, com o infortúnio escondido (explicitamente?) na carência de alimentos para muitos estômagos, através de um problema criado pelas cabeças e pelas mãos descontroladas dos próprios homens destes tempos bicudos, pois, descuidados das exigências naturais de seus abdômens, os seres estão deixando de lhes reservar as comidas que seus organismos impõem sem recuar. Trata-se de um enorme mal, há que se convir, porquanto na somatória incorrigível das condenadas 60 milhões de vidas, a notícia machucou muito ao prognosticar que amplas camadas do volumoso povo que Deus plasmou para uma existência alegre e feliz vai, paradoxalmente, amargando nas escarpadas íngremes de suas pecaminosas incursões, precursoras presumíveis do final dos tempos, se é que um dia, cansado de tanta desobediência humana, venha o Criador do céu e da terra a fechar as portas do grande templo, diante do que, certamente, a inteligência e a força humanas possam não ter tamanho bastante para reabri-las outra vez, na perspectiva alvissareira do surgimento de um mundo novo, de verdes esperanças, no qual as pessoas não chorem face à síndrome da fome nem andem pelas ruas implorando a caridade dos semelhantes tantas vezes negada ou sonegada. E, paralelamente, a mídia que venha a ressurgir da hecatombe possa, então, acionar suas digitadoras e movimentar suas impressoras com notícias boas e positivas. Deus nos livre do desmedido mal. É o que devemos invocar, esperançosamente, agora, antes dos funestos acontecimentos previstos para tão curta distância e tão ampla preocupação dos viventes. É a nossa opinião.
(O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)