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A globalização contra pobreza

Gro Harlem Brundtland
| Tempo de leitura: 3 min

Há duas forças extremamente importantes que estão modelando o mundo atual: a revolução na informação e na biotecnologia e o crescente impulso da globalização. As duas forças têm um imenso potencial para o bem. Entretanto, também representam riscos. No mundo moderno, as bactérias e os vírus viajam quase tão rápido quanto o dinheiro. Não existem santuários sanitários. E não são apenas as doenças infecciosas as que se propagam com a globalização. Mais que tudo, o fumo está açoitando o planeta à medida que é entrecruzado pelas forças do mercado. Se o aumento do número de fumantes continuar sem restrições, o número de mortes relacionadas ao fumo quase triplicará e passará dos atuais quatro milhões por ano para dez milhões anuais nos próximos 30 anos.

As diferenças na situação sanitária ilustram dramaticamente a distância entre ricos e pobres no mundo atual. Os pobres - aqueles que vivem com menos de US$ 2 por dia - sofrem desporporcionalmente devido aos estragos provocados pelas enfermidades contagiosas. Em 1998, as doenças transmissíveis foram responsáveis por cerca de 34% da carga total da enfermidade no mundo, mas aproximadamente o dobro - 64% - ocorreram em países com as menores rendas per capita, onde vive um quinto da população global.

Apesar do que possam dizer os críticos, não é inevitável que a globalização conduza à injustiça. O que faz falta é uma forte liderança política que impulsione os governos, a sociedade civil e o setor privado no sentido de trabalhar em conjunto. Os países pobres não podem reduzir o peso das doenças associadas à pobreza se apenas estão em condições de gastar anualmente com saúde entre US$ 5 e US$ 10 por pessoa.

Para alcançar os resultados em matéria de saúde que mais importam às pessoas pobres deve-se aumentar sua possibilidade de acesso ao cuidado essencial com a saúde. Há mecanismos e intervenções com a efetividade requerida que ajudam todas as pessoas a alcançarem seu potencial completo.

No ano passado, propus que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considere a crescente preocupação internacional com os aspectos negativos da globalização. Sustento a necessidade de um programa estratégico dedicado a investir num futuro igual para todos os seres humanos. Isto significa dar muito mais peso do que antes a questões tais como boa saúde e educação, bem como examinar sua distribuição na sociedade.

O acesso à biotecnologia representa inúmeros desafios. Não importa onde estejam as pessoas infectadas pelo HIV sabem que agora existem medicamentos à disposição que podem efetivamente prolongar suas vidas. Também sabem, graças à globalização das informações, que apenas os mais privilegiados dentre eles podem permitir-se comprar tais remédios.

Esse difundido conhecimento da situação muda radicalmente o contexto social e econômico dentro do qual esses medicamentos são produzidos e vendidos. Para sustentar os esforços destinados a reduzir o sofrimento humano e promover um desenvolvimento equitativo, necessitaremos das melhores ferramentas que a ciência possa oferecer - novas vacinas, novos medicamentos e diagnósticos - com preços que atendam às exigências sanitárias dos países mais pobres.

Se não atuarmos positivamente, com coragem e recursos, aumentará a distância entre os três bilhões de seres que vivem com menos de US$ 2 por dia e o resto da humanidade, o que significará uma ameaça para o desenvolvimento econômico de diversas partes do mundo, afetando tanto a prosperidade quanto a estabilidade política e militar de todo o planeta. (IPS).

( * ) Gro Harlem Brundtland é diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS))

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