No início dos anos 60, o Brasil fazia um teatro politizado. Um pouco dessa história e dessas mudanças serão mostradas a partir deste mês de julho, no Colégio Seta, dentro da Oficina de Teatro por mim coordenada.
O projeto leva o nome de A/C e D/C (Antes da Censura e Depois da Censura). Durante quatro terças-feiras um elenco fixo de atores, atrizes e diretores de teatro irá ler e comentar os textos teatrais representativos antes e depois da censura.
A partir de 1964 por conta do golpe militar a dramaturgia brasileira mudou de rumo. Sufocado pela censura, o teatro nacional começou a se desvincular da realidade, passou a recorrer a metáforas para falar dos problemas sociais e, em seguida, entrou num processo que, para muitos críticos, era de alienação.
Um pouco de história
A idéia surgiu quando, lecionando História do Brasil e Atualidades para os alunos do 3.º colegial, explicando a música popular brasileira e o cinema novo, da década de 60 e 70, falávamos da falta de oportunidade e do conhecimento desta geração dos textos dessa época. Queria trocar idéias com esses alunos e o projeto apareceu, fruto também da disponibilidade e da intenção dos mesmos em querer saber. Isto é importante! Amarrei o projeto e vamos começar a trabalhar em julho.
A pesquisa fixou seu foco no período que antecede 1964 - o golpe - e vai até depois da promulgação do Ato Institucional n.º 5. Diante das peças que marcaram o auge do teatro brasileiro, e já preparando dois novos espetáculos para o segundo semestre no Colégio Seta, Achados & Perdidos e Bailei na Curva, existe uma falta de textos que retratem o Brasil de hoje.
Falta sopro de vida
Tenho corrido atrás dos clássicos e procuro conversar com diretores e atores, que não têm vaidade e preocupação de fazer carreira na TV. Dificilmente encontro um sopro de vida na dramaturgia brasileira. Quais os dois grandes espetáculos que estão em cartaz em São Paulo? Os Lusíadas e Os Miseráveis, aí está a realidade! A propaganda ideológica durante 30 anos fez com que o Brasil não merecesse aparecer nos palcos. Parece que o País não tem mais situações dramáticas e nem cômicas suficientes para falar. A televisão contribuiu muito neste processo. Tanto que deve ter mais gente interessada em escrever uma novela do que mostrar suas angústias e os problemas sociais do País no palco, afirma o Coordenador Paulo Neves.
O projeto A/C e D/C vai ter a participação de atores e diretores bauruenses. O objetivo final do Projeto é mostrar que a censura deixou sequelas e que, sem terapia, elas poderão nos aleijar para sempre.
Um espetáculo de aborrecentes
Nem crianças nem adultos, os jovens entre 12 e 18 anos estão passando no Colégio Seta por experiências próprias do desenvolvimento. Na busca por uma forma de expressão e identificação, o teatro pode contribuir colocando suas dúvidas e angústias sob os refletores.
O Colégio Seta trabalha há um ano comigo, dentro de um projeto voltado para os adolescentes, mesmo sabendo que as produções voltadas para jovens são de número diminuto: a maioria dos textos cai no ultrapassado clichê sexo, drogas e rocknroll, e as abordagens ainda insistem em passar uma lição de moral.
Adolescente tem pavor disso. Existem trabalhos muito bons com adolescentes, mas precisamos ter cuidado para que essa geração não exclua o teatro de sua agenda, preferindo o cinema, shopping, barzinhos ou boates.A maioria dos textos fica sempre preso a uma única forma de olhar os jovens, os adolescentes. Acredito que o mercado publicitário rotulou o jovem. É um erro tratar o jovem da mesma forma, principalmente se for da mesma faixa etária, pois adolescência, e isso não pode ser ignorado, é uma fase de comportamentos, preferências das classes sociais, uma fase de mudanças. Cada trabalho é um trabalho diferente, e o jovem precisa ser respeitado no seu espaço e na sua individualidade.
Como trabalhar com o adolescente? A resposta não é tão difícil, mas não é fácil: você tem que dar liberdade ao jovem dizer o que quer e fazer a coisa que tiver vontade. O jovem é audacioso e quer mudanças, é só uma questão de mostrar como fazer. Alguns não têm parâmetros, mas aí está o trabalho do diretor, mostrar a eles que podem fazer um espetáculo bem feito e que o público na certa aplaudirá. Quando falo de liberdade ao jovem, não estou falando de liberdade anárquica, estou falando de liberdade com responsabilidade, o jovem quer isso; limites e colocando isso nas mãos deles, tudo saí tranqüilo. O jovem é muito inteligente!
Oportunidade rara
Há um ano o Colégio Seta desenvolve oficina de artes cênicas. Neste ano, dois grupos preparam-se para estrear espetáculos em outubro. Os primeiros resultados foram colhidos no ano passado com a peça Namoro. Para este ano, vou remontar Achados & Perdidos, espetáculo montado em 1980 com um grupo de 40 alunos da Escola Estadual Christino Cabral e que foi apresentado 26 vezes na cidade, ganhando vários prêmios no Festival de Tatuí. Um espetáculo sempre atual e muito ideológico.
Os alunos-atores já começaram a pesquisar a poesia brasileira de Vinícius de Morais, Thiago de Melo, Ferreira Gullar, passando por Carlos Drumond de Andrade e chegando em Cecília Meireles e Mário Quintana. Agora é esperar os resultados...
(*) O autor é jornalista, professor e diretor teatral.
(*) Especial para o JC Cultura