Geral

Desfavelização depende da promoção humana

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 5 min

Mais do que receber alimentos e donativos em geral, a população pobre precisa aprender a ser cidadã para fazer valer seus direitos. Valorizar-se enquanto ser humano também é receita para um futuro melhor

O socorro emergencial prestado à população carente, notadamente àquela que reside em favelas, não é o caminho mais adequado para se chegar à melhora das perspectivas de vida. Cestas básicas, dinheiro, agasalhos e remédios resolvem o problema de imediato e, por muitas vezes, são necessários sim, mas pouco interferem na mudança de consciência, imprescindível para mostrar a essas pessoas seus direitos enquanto cidadãos, seus valores enquanto seres humanos.

São as ações voltadas à promoção social que vêm conseguindo mudar o perfil de algumas comunidades pobres em Bauru. Os Núcleos de Apoio Sócio-Familiar (NAFs), por exemplo, vêm trabalhando com moradores das regiões dos parques Jaraguá e Júlio Nóbrega e colhendo avanços. Implementados em parceria entre Prefeitura, através da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), instituições de ensino, como ITE e USC, e empresas privadas, os NAFs buscam entender as pessoas dentro do contexto familiar, levantando os problemas e as aflições e incentivando o resgate da auto-estima.

As pessoas muito pobres, principalmente quando vivem em condições subumanas, tendem ao conformismo - quando não se revoltam - e julgam-se incapazes de melhorar de vida. É por essa razão que a ajuda material momentânea não vai além do efeito paliativo. A pessoa que é acostumada a ganhar as coisas geralmente não luta por mudanças. Ela fica sempre na esperança de que alguém faça alguma coisa por ela, e é esse sentimento de acomodação e incapacidade que acaba mantendo tudo na mesma, observa o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito. É a chamada cultura do conformismo, aquela que prega Se Deus quis assim, que seja, reforça Luiz Carlos Duarte de Souza, coordenador de Projetos Sociais da Universidade do Sagrado Coração (USC).

De acordo com Souza, as ações sócio-educativas atingem resultados a longo prazo, particularmente junto ao público infanto-juvenil, que tem a inerente característica de aceitar mudanças e sonhar com dias melhores. Com os adultos, porém, os resultados não são tão abrangentes, na medida em que a desesperança já está enraizada nos mais profundos sentimentos. Ele contou, por exemplo, que são poucos os adultos que se abrem às chances oferecidas. No projeto Criança 2000, nós convidamos as mães a participarem através do aprendizado de alguns ofícios, como corte e costura, mas a maioria não se interessa, lamenta, apesar de julgar compreensível tal comportamento.

O projeto Criança 2000 é um dos bons exemplos que Bauru tem a mostrar em termos de assistência social. Desenvolvido desde 1996, ele atende crianças de 5.ª a 8.ª séries, oferecendo uma série de atividades sócio-educativas extra curriculares. Atualmente, 150 meninos e meninas residentes no Jaraguá, Ferradura Mirim e Jardim Nicéia integram o programa. Diariamente, após o período de aula formal, eles recebem alimentação balanceada e depois partem para atividades recreativas, esportivas e pré-profissionalizantes, esta última objetivo precípuo do projeto.

Através do Criança 2000, crianças fadadas ao mesmo futuro dos pais estão tendo novas perspectivas de vida e oportunidades até então inimagináveis, como o contato com a informática. Segundo Souza, o programa, viabilizado em parceria com a Sebes, Tiro de Guerra, Banco do Brasil e USC - além de muitos colaboradores de retaguarda -, busca a formação do cidadão, que, independente da condição econômica, sabe defender seus interesses, lutar pelos direitos e ter a visão crítica do mundo. Simultaneamente às lições de caráter humano, as crianças passam por várias oficinas de ensino pré-profissionalizante, como marcenaria, horticultura, confeitaria, entre outras. Não estamos sugerindo a exploração do trabalho infantil, mas ensinando algo que pode lhes garantir o sustento, uma vida digna. Também desenvolvemos o trabalho de evangelização. Não para pregarmos os preceitos da Igreja Católica, mas para também fortalecer o espírito e promover o ser humano, frisou o coordenador.

Ação Voluntária

A médica dermatologista Mônica Ferraz Costa Fanini, 36 anos, é uma das muitas pessoas que trabalham voluntariamente com a população miserável de Bauru. Há quatro anos, ela comparece semanal e religiosamente à favela do Jardim Nicéia para prestar atendimento médico aos moradores. A estrutura do espaço que dispõe para os atendimentos pouco mudou nesses anos - apenas uma mesa, uma cadeira, dois armários e uma maca -, mas os resultados junto à população são imensuráveis.

Com ajuda de colegas de profissão, representantes de laboratórios e farmácias de manipulação, a médica mantém uma pequena farmácia com amostras grátis de medicamentos. Remédios básicos para tratamentos básicos, mas uma grande coisa para uma pequena população cujo núcleo de saúde de referência fica a quilômetros de distância, do outro lado da rodovia - muitos moradores do local já morreram na travessia. É um problema quando falta algum medicamento aqui, porque, mesmo se eu receitar, o posto de saúde não aceita. A unidade só recebe receituário de médicos do SUS e eu não possuo esse vínculo. Quando eles precisam de um remédio que não tem na farmacinha, são obrigados a passar pela consulta na unidade de saúde, explicou a voluntária, lembrando que alguns exames são obtidos graciosamente no laboratório da USC.

Quando Mônica iniciou o trabalho, o estado de saúde dos moradores do Nicéia era bem diferente. Segundo ela, a grande maioria apresentava quadros de verminose, anemia e escabiose (sarna), males hoje quase inexistentes na favela. Chegamos a preparar baldes de remédios contra a sarna, lembrou, revelando a dimensão do problema na época.

Além de indicar e acompanhar os tratamentos, Mônica dedicou-se também ao trabalho de orientação, principalmente às mães de recém-nascidos. Ensinamos noções de higiene e procedimentos com o bebê. A situação deles também melhorou, tanto que, segundo a pesagem realizada pela Pastoral da Criança, o índice de desnutrição no Nicéia é bastante baixo, comemora.

O contato que a médica tem hoje com os moradores nem sempre foi estreito. Segundo ela, foi muito difícil conquistar a confiança dos moradores no começo. Eles têm lá suas razões para agir assim, porque muita gente promete fazer muita coisa, mas não prossegue com nada. Quando eles percebem que você está ali para ajudar mesmo e não por interesses outros, a confiabilidade se estabelece, disse Mônica, lançando um apelo aos colegas que desejam colaborar como voluntários. Precisamos de mais gente e, quem quiser, pode começar por aqui mesmo, convidou. Mônica chega a atender 25 pacientes nas manhãs de quarta-feira, as quais dedica à favela do Jardim Nicéia.

Leia mais..

Comentários

Comentários