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Homens de ciência sem consciência

(*) Jayme Vita Roso
| Tempo de leitura: 3 min

Estamos, cada vez mais, nos distanciando de nossas verdadeiras origens. O endeusamento do mercado, hoje em dia, reduziu a dimensão humana ao que tem de mais vil, porque se sustenta tão só no transitório. O dinheiro, a riqueza, o poder, o gozo dos sentidos é tônica predominante da maioria dos homens.

Mas, no século passado, com o surgimento do nazismo, as atividades dos cientistas passaram a ser regidas pela ideologia da raça pura. Para conseguir esse infame desiderato, a partir de 1939, o carrasco Himmler encarregou seus subordinados de raptar nos países ocupados e, sobretudo, no Leste da Europa, crianças que se aproximassem do modelo criado por cientistas encarregados de construir uma raça geneticamente pura. Também mulheres, com aparência ariana, o eram, para serem fecundadas nos tristemente célebres Lebensborn: maternidades a que eram levadas as mulheres férteis para serem engravidadas pelos soldados da SS. E Hitler, galhofamente, chama essas crianças oriundas dessa abominável fecundação de Kinder SS. Esse é o relato impressionante, mas verídico, que Nadine Trintignant, conhecida cineasta francesa, romanceou há pouco tempo.

Dificilmente não nos sentimos aviltados quando temos conhecimento dos bastidores com que foi inventada a bomba atômica, em Los Alamos, EUA, durante a guerra. Os top cientistas se permitiram ser reclusos por meses para produzir a fusão nuclear, antes que os nazistas o fizessem, segundo a versão oficial, com a qual concorda Richard P. Feynman, prêmio Nobel de Física em 1965.

Ainda que se possa imaginar, lendo Feynman, naquela obra, na verdade de ensaios e palestras, que estivesse de boa fé, assim como Oppenheimer ou Fermi, diante da ameaça nazista. Por isso, construíram conscientemente a bomba, sem se importar que, pronta, Hitler já estava derrotado. O papel do cientista e seu orgulho, aliado à vaidade desenfreada, deram-lhe cegueira diante dos fatos. Poucos se rebelaram contra o uso, no Japão, das bombas atômicas.

Passaram os anos e, meio século depois, a revista The Economist, com veemência, dá nova versão, quiçá pós-moderna, do degradante comportamento dos cientistas. Desta vez, são os que recebem dinheiro, presentes, homenagens, viagens e outras benesses para atender aos interesses de empresas. Escrevem artigos em revistas de renome para sustentar que um produto é benfazejo à saúde. Às vezes, estando na direção de centros de pesquisas universitárias, a eles são conferidas doação (com abatimento como despesas) para projetos de pesquisas. E houve, ainda, o recente caso do British American Tobacco que doou quase seis milhões de dólares à Universidade de Nottingham, Inglaterra, para financiar um centro de pesquisa sobre ética nos negócios. A Universidade aceitou. E outros, e outros casos foram narrados, apontando o flagrante conflito de interesse ético nessas doações ou subvenções, tanto que a revista intitula a matéria como Ultrajante fortuna, a que é amealhada dessa forma pelos cientistas. Eles próprios que, pertencentes ao quadro do McDonalds - Centro de Pesquisa da Obesidade, sugeriram que, comendo um hambúrguer diariamente, o colesterol é reduzido.

Pois é, recordando Jules Barbey DAmevilly, autor do célebre romance Les diaboliques: Os crimes da extrema civilização são certamente mais atrozes que os da extrema barbárie.

(*) Jayme Vita Roso, advogado, é conselheiro do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), da Federação Interamericana de Advogados (FIA) e da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB). E-mail: vitaroso@dialdata.com.br

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