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DIG/Garra recorre a técnica avançada

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

A Delegacia de Investigações Gerais/Grupo Armado de Represão a Roubos e Assaltos (Dig/Garra) de Bauru recorreu a uma das técnicas mais avançadas, recurso usado somente pela Delegacia de Homicídios da Capital, para convencer a Justiça de que um adolescente de 17 anos seria o autor da morte da mototaxista, Patrícia Moraes Lima, 30 anos, ocorrido no mês de abril. A recognição visuográfica permitiu que o juiz Ubirajara Maintinguer visualizasse melhor a situação e decretasse a internação do menor. O acusado nunca confessou o crime, mas admitiu ter usado os serviços da profissional no dia de seu desaparecimento. Uma empresa privada de Bauru auxiliou a polícia na confecção da prova.

O delegado titular, José Jorge Cardia esclarece que as investigações desse caso foram uma das mais difíceis de sua carreira policial. E a mais técnica. Um dos motivos é que a vítima se relacionava com muitas pessoas por motivo de trabalho e outros. Outra dificuldade é que o único suspeito nega a autoria do crime.

Cardia acredita que o caso esteja esclarecido e aposta na versão da polícia. Tenho convicção de que a versão da polícia está correta. Fizemos inúmeras diligências, até fora de Bauru. Nenhuma delas positivou. Todas elas levaram ao envolvimento desse menor.

Para ele, a recognição visuográfica é uma prova convincente, uma vez que consegue ligar os pontos chaves do quebra-cabeça que foi esse caso. O adolescente foi visto por uma testemunha na garupa da moto, como passageiro da vítima. O trajeto que ele aponta para sua versão é o mesmo que o levou até onde o corpo foi encontrado.

De acordo com o delegado, o menor planejou muito bem o crime . Ele já havia solicitado os serviços da mototaxista, antes do crime, talvez para despertar a confiança dela. Tivemos conhecimento disso em função do rastreamento feito no telefone da oficina que ele trabalhava.

Pela recognição é possível ligar alguns pontos chaves, diz o delegado. Depois do crime, quando ele retornava pela Rondon, deixou cair o celular que era usado pela mototaxista. O aparelho foi encontrado por um trabalhador, na mesma rodovia, antes do posto da polícia Rodoviária. Fato que confirma a versão apresentada pela polícia de que o adolescente teria evitado trajetos que o obrigasse a passar pelo posto policial, uma vez que não era habilitado.

Outro item que faz com que a polícia acredite na autoria do menor é quanto à arma usada para matar a vítima. A faca é uma arma usada por mulheres e adolescentes. Marginais mais experientes usam arma de fogo. As mulheres e os menores usam faca porque é mais fácil de adquirir e seu preço é acessível.

Sonho

Na opinião de Cardia, o crime foi motivado pelo sonho que o adolescente nutria em possuir uma moto 550 cilindradas. Ele queria uma moto. Foi a moto que despertou o adolescente para o crime. Ele achou fácil pegar a da Patrícia porque ela era mulher.

O delegado acredita que o autor do crime achou que nunca seria descoberto. As pessoas acreditam que podem cometer um crime perfeito. Ele nunca confessou o crime e isso é um direito dele. O nosso papel é arrecadar provas e isso nós fizemos. A arma não foi encontrada.

Montando o quebra-cabeça

Fazer uma investigação policial é um exercício que pode ser comparado à montagem de um quebra-cabeça. Nós começamos as investigações tentando saber com quem a vítima havia mantido os últimos contatos. Como ela tinha muitos relacionamentos, tivemos que desenvolver várias diligências.

Uma pessoa do relacionamento da mototaxista foi localizada fora de Bauru, mas depois de ouvida, foi dispensada. Ouvimos inúmeras pessoas. A vítima praticava esporte em uma academia e tivemos que ouvir alguns desportistas para descobrir quem teria motivos para matá-la. Todas essas investigações resultaram negativas.

O caso só começou a ser esclarecido a partir da apreensão da moto, no Parque São Geraldo, segundo o delegado. A moto que era cinza estava sendo pintada com as cores da bandeira brasileira. Encontramos o veículo no quintal da casa do acusado. Ele teria dito para a família que havia adquirido o veículo e seus parentes acreditaram.

Primeira enganação

Acompanhados de seus responsáveis e por um representante da Vara de Infância e Juventude, o adolescente acusado foi ouvido na delegacia. Um outro menor que suspeitava-se estar envolvido no caso, foi ouvido e, dias depois dispensado, uma vez que não havia provas de sua participação direta no crime, explica o delegado. Ele estava ajudando o outro a pintar a moto, mas não havia participado dos demais fatos.

A primeira versão apresentada pelo adolescente acusado de ser o autor do crime foi tão infantil que não convenceu nem ele mesmo, tanto que dias depois, ele apresentou a segunda. Pela história apresentada por ele como primeira versão, tudo aconteceu como num sonho.

Ele estava transitando com sua bicicleta pelo bairro Vista Alegre e um desconhecido o abordou para saber quem é que havia feito a pintura da bandeira em sua bike. Ele teria dito que a arte era dele. O rapaz que estava com a moto o contratou para fazer o mesmo em sua moto, a 500 cilindradas. Teria pago R$ 80,00 para que ele comprasse a tinta e se comprometido a pagar mais R$ 120,00 pelo serviço de pintura.

Mesmo sem saber quem ele era, o dono da moto teria deixado o veículo com ele, prometendo voltar ao estacionamento de um supermercado para pegar o veículo de volta, em determinado dia. A história não convenceu, até porque ninguém em sã consciência deixaria uma moto, estimada em R$ 10 mil, para pintar com um adolescente, desconhecido.

Dias depois de apresentar essa versão, o acusado foi ouvido novamente, oportunidade que a polícia já tinha o resultado do rastreamento dos telefones da vítima. Descobrimos que a mototaxista havia falado com ele no dia anterior. Só então ele confessou ter solicitado os serviços profissionais dela.

Verdade em doses homeopáticas

Na segunda versão apresentada pelo acusado, no dia do crime, Patrícia o apanhou na oficina e foi direto para o Terminal Rodoviário. Ali ela teria dado a moto para ele e pedido que ele desaparecesse com o veículo, já que ela iria (desaparecer do mapa).

Ele teria retornado com a moto para a sua casa. O trajeto apontado por ele e confirmado por testemunhas seria o mesmo, tanto ele deixando o Terminal Rodoviário como retornando de Pederneiras, fato que pode ser visto pela recognição visuográfica. Mesmo percebendo que a polícia conseguiu demonstrar que foi ele o autor do crime, o adolescente nunca confessou a autoria da morte. Ele continua na Febem de São Paulo.

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