Inúmeros mutuários do maior núcleo do País poderão ter pago, no final dos 25 anos de financiamento, cinco vezes o valor de mercado do imóvel
Excluídos do programa de quitação do governo, que beneficiou somente os núcleos habitacionais construídos até 1987, os mutuários do Mary Dota enfrentam um pesadelo que parece não ter fim: um saldo devedor impagável. O problema teria menos peso não fosse o fato de o núcleo ter 3.638 contratos, envolvendo uma população de mais de 10 mil pessoas.
Quem conhece o Mary Dota sabe bem que o lugar perdeu há muito tempo o padrão de núcleo habitacional popular. Grande parte das casas já passou por reformas, mas nada que tenha valorizado as moradias na proporção do financiamento. Uma casa crua vale R$ 6 mil, chegando a R$ 10 mil com reforma, avaliou Paulo Ferreira, presidente da Associação de Mutuários, Moradores e Amigos do Mary Dota.
Existem casos e mais casos que podem exemplificar a discrepância nos valores, para não dizer o roubo velado. Numa das aberrações, o mutuário já pagou 124 parcelas no valor atual de R$ 241,89, tendo pela frente ainda um saldo devedor de R$ 19.219,91. Num cálculo grosseiro, significa dizer que, ao final dos 25 anos de financiamento, essa pessoa terá pago o valor de cinco imóveis reformados. O montante total, de quase R$ 50 mil, seria suficiente para a aquisição de um imóvel com padrão e localização melhores.
Segundo Paulo Ferreira, o assalto que se verifica nos saldos devedores é fruto da combinação de alguns antigos fatores, como a inexistência de recálculos para os inadimplentes e a falta de informação dos mutuários quanto aos seus direitos. Entre 1990, ano que o núcleo foi entregue, e 1994, a inflação era altíssima, o que elevava muito o valor das prestações. O mutuário ficava sem condição de pagar e, quando solicitava o recálculo, não era atendido porque estava devendo. Foi uma bola de neve, deixando pior aquilo que já estava ruim, recordou o representante do bairro.
Atualmente, o valor médio das prestações dos mutuários do Mary Dota é de R$ 180,00, o que representa 45% do salário médio daquela população, hoje estimado em R$ 400,00. Além do salário baixo, o desemprego e a separação de casais - a mulher fica sozinha para manter a casa e os filhos - também despontam como causas reais da inadimplência verificada no bairro. Na minha opinião, o maior problema é o salário, porque por mais que se façam revisões, a dificuldade de pagar permanece. Seria necessário reduzir muito a prestação para normalizar o pagamento. R$ 80,00 seria um valor justo, fixou Ferreira, ressalvando que essa também não seria a solução efetiva para o problema habitacional em Bauru. Outros núcleos e mutuários enfrentam dificuldades, o que coloca a necessidade de um debate envolvendo toda a sociedade. Temos que ter em mente que todos esses inadimplentes poderiam estar aumentando as favelas se os agentes cumprissem o processo de retomada de imóveis com rigor, agravou.
A Companhia de Habitação Popular (Cohab) de Bauru tem outra visão quanto aos motivos da inadimplência. 5% dos devedores são casos sociais (doenças, desemprego), 15% por conta de transferências e transações irregulares como os contratos de gaveta, e 80% efetivamente não levam a sério o pagamento da casa própria. Nossa assistência social comprovou isso percorrendo a casa dos mutuários. Eles têm TV nova, todos bens de consumo e carro zero na garagem, mas devem a prestação do imóvel, segregou Constante Mogioni, presidente da Cohab.