A busca pela qualidade de vida está levando o homem de volta às origens no campo. A agropecuária orgânica, uma modalidade que existe há mais de um século, mas que só agora está ganhando forças no Brasil, é a mais nova alternativa de produção para o agricultor.
Utilização de técnicas naturais e produtos recicláveis em favor do desenvolvimento da pecuária e da agricultura. Essa é a melhor definição para o termo orgânico, um modo de produzir alimentos no campo sem agredir a natureza e de maneira saudável e livre de agrotóxico.
De acordo com o engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), José Augusto Maiorano, membro do Colegiado Estadual da Agricultura Orgânica, essa atividade pode ser considerada uma revolução no campo, já que é um novo modelo de desenvolvimento que tende a ser a saída para o futuro do planeta. Durante séculos o homem usou e abusou dos recursos naturais sem se preocupar em proteger a terra, o ar e os recursos hídricos. Chegou uma hora na qual a natureza deu o alerta e mostrou que tudo pode ser finito, salientou.
Preocupado com isso, o Ministério da Agricultura e Abastecimento criou, em maio de 1999, a Instrução Normativa n.º 007, que dispõe sobre as normas para a produção de alimentos orgânicos de origem animal e vegetal. Através dela, foram criadas regras para disciplinar a produção, tipificação, processamento, envase, distribuição, identificação e certificação dos produtos. Maiorano explicou que isso é necessário para que o consumidor tenha uma garantia da procedência desse material. Nesse caso, não se pode apenas levar em consideração a palavra. A produção orgânica exige uma preocupação ecológica muito grande e dá um certo trabalho. Se não tiver certificação, qualquer um vai qualificar seu material como orgânico e colocar no mercado para vender, disse.
Saudável
Em primeiro plano, a produção orgânica aponta para uma necessidade pessoal do ser humano. Preocupadas com a qualidade de vida, as pessoas estão optando por tudo o que possa ser considerado extremamente natural, livre de recursos sintéticos e poluentes.
No entanto, Maiorano salienta que a agricultura ou a pecuária orgânica tem um objetivo muito mais amplo. Isso devido à sua maneira ecologicamente correta de ser cultivada. A proibição do uso de agrotóxicos e anabolizantes já é um primeiro passo para garantir a preservação ambiental.
A Instrução Normativa que oficializou a produção orgânica é clara ao apresentar proibições, permissões e indicações do que pode ser utilizado na atividade. Nela está especificado, por exemplo, que até as máquinas e equipamentos utilizados no cultivo devem estar livres de resíduos contaminantes.
Maiorano diz que é perfeitamente possível obter uma produtividade grande de alimentos utilizando as técnicas orgânicas. A produção ecológica começou pelas hortas, que são sistemas que possuem um ciclo mais rápido de cultivo. Mas, qualquer atividade pode ser feita de maneira orgânica, desde a plantação de laranja até a criação de galinhas, ressaltou.
Aliás, o engenheiro agrônomo lembrou que muita gente ainda acredita que produto orgânico é aquele que é tratado com adubo orgânico. Vai muito além disso. A produção orgânica vem de organismo. Todo o sistema deve estar livre da contaminação por agentes externos, disse. Dessa maneira, se uma propriedade obtiver a certificação de orgânica, isso significa que todo e qualquer produto que for cultivado ou criado ali será ecologicamente correto.
Conscientização
Maiorano acredita que, para esse processo obter sucesso e conquistar espaço junto à agricultura do País, primeiro é preciso se efetuar um trabalho de conscientização junto aos consumidores. Isso tem que começar pela escola. As crianças têm que saber a importância de se consumir produtos extremamente saudáveis, livre de impurezas, disse.
Ele salientou que já existem experiências em algumas comunidades nas quais um grupo de pessoas se une e fecha uma parceria com o produtor rural para que ele cultive apenas produtos orgânicos. É uma forma de incentivar o produtor e de ter certeza de se estar consumindo um produto orgânico, disse.
Para ampliar essa fronteira da atividade, já que nem sempre o consumidor pode acompanhar de perto o cultivo, existem entidades certificadoras, que dão a garantia de que aquele produto é realmente orgânico. Seis delas estão em processo de aprovação pelo Colegiado, mas já estão trabalhando normalmente. São elas: Associação de Agricultura Orgânica (AAO); Asssociação dos Produtores de Agricultura Natural (Apan); Instituto Biodinâmico (IBD); Fundação Mokiti Okada (MOA), Associação de Agricultura Natural de Campinas e Região (ANC) e Fundação Terra e Saúde - Centro de Pesquisa de Agricultura.
Organização
Os produtores da região começam a se movimentar em busca do desenvolvimento da agricultura orgânica. Há cerca de cinco anos, eles criaram a Associação dos Produtores Rurais e Orgânicos do Centro Oeste Paulista (Aprocop). Mas, a entidade acabou atuando muito pouco, já que o número de sócios ainda era pequeno. Foi aí que entrou o Sistema Agroindustrial Integrado (SAI). A Agente de Desenvolvimento da entidade, Luciana Piva Miranda de Almeida do Prado, explicou que foram feitas várias reuniões com os integrantes da Associação com o objetivo de otimizar o trabalho dos produtores ligados à ela. Conseguimos a filiação, até agora, de mais nove sócios e estamos planejando as ações que visem inserir o grupo no mercado, disse.
Os irmãos Lúcia Helena Gaio Martins, Silvana Gaio de Oliveira e Marcelo Gaio já alcançaram o primeiro degrau para o sucesso. Eles estão cultivando hortaliças orgânicas desde setembro do ano passado e montaram uma empresa com o nome Ecorgânico. Em menos de um ano, já conseguiram selar um acordo com uma grande rede de supermercados da cidade, que está incentivando os produtores a aumentar e diversificar a produção. Estamos fazendo tudo compassadamente. A agricultura orgânica depende muito da natureza e não temos como aumentar a produção de uma hora para outra. Planejamos cada detalhe para que possamos manter a continuidade do trabalho, disse Lúcia.
Os produtos da Ecorgânico estão certificados pela Fundação Mokiti Okada. Temos que seguir uma série de normas para obtermos um produto livre de contaminação, salientou Silvana.
Com o apoio de um agrônomo da Fundação, os irmãos Gaio conheceram todas as técnicas naturais para livrar a cultura de pragas e protegê-la de intempéries da natureza. Eles utilizam estufa e capim para isolar as plantas do vento forte e da chuva e desenvolvem um biofertilizante, com sais minerais, esterco, leite de soja e açúcar mascavo.
Lúcia lembra que muitas pessoas confundem a produção orgânica com hidroponia. Uma coisa é totalmente diferente da outra. Os produtos hidropônicos são cultivados em soluções líquidas, mas utilizam adubo químico solúvel, o que o descaracteriza como produto orgânico, disse.
Um ponto que ainda faz com que os produtos orgânicos sejam considerados elitizados é o preço, um pouco mais elevado do que o da agricultura convencional.
O agrônomo Maiorano, da Cati, ressalta que isso é questão de tempo. É a lei da oferta e da procura. Por enquanto, são poucos os produtos orgânicos no mercado. Quando isso começar a acontecer em larga escala, a tendência é de uma queda nos valores, disse.
Serviço
Telefones para contato - SAI/Aprocop: (14) 3281-3464; Ecorgânico: (14) 234-6458; Colegiado Estadual de Agricultura Orgânica: (11) 284-6344.