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Bolsa-Escola vai deixar muitos de fora

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 3 min

Estimativas extra-oficiais apontam a existência de 48 mil crianças e adolescentes em condições de integrar o programa do Governo Federal, mas somente 5.455 vagas foram disponibilizadas. Os mais pobres entre os pobres serão os contemplados

Desde a última segunda-feira, milhares de pessoas em todo o Brasil estão correndo para se inscrever no Programa Nacional de Bolsa-Escola, uma iniciativa do Ministério da Educação que visa subsidiar financeiramente famílias muito pobres que tenham filhos matriculados no ensino fundamental (1.ª a 8.ª séries). Em Bauru, o primeiro balanço da procura seria realizado anteontem, um dia após o fechamento do JC nos Bairros.

Mesmo sem ter números, já se sabe que a corrida aos 24 postos de inscrição da cidade foi grande, como também já é sabido que as 5.455 vagas do programa serão insuficientes para contemplar todas as crianças que se encaixam nos critérios estabelecidos pelo governo. As requisitos são rígidos: a renda familiar per capita mensal não pode ser maior que R$ 90,00, a freqüência à escola não pode ser menor que 85% e nenhum dado informado pode confrontar com a realidade. Tudo isso para garantir um ganho de R$ 15,00 mensais por filho inscrito - no máximo três por família.

Estimativas extra-oficiais dão conta de que 48 mil crianças e adolescentes vivam em condições de miséria em Bauru, o que, em tese, as credenciaria no critério renda do programa. Não se sabe, porém, quantas delas estariam dentro da faixa etária estabelecida pelo Bolsa-Escola, mas, mesmo assim, os números sugerem que o total de vagas disponibilizadas está muito longe de atender a demanda local. Sandra Scriptore, titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), órgão responsável pelo cadastramento em Bauru, acredita que as vagas poderão ser ampliadas num segundo momento. Por essa razão, a ordem é listar todos os que se encaixam no programa, que também prevê um trabalho sócio-educativo com as famílias dos assistidos.

Esse acompanhamento é imprescindível para o programa não cair no assistencialismo. Teremos que nos desdobrar para cumprir essas ações, mas o resultado compensa. Dar os R$ 15,00 e virar as costas não adianta, porque nem todas as famílias têm estrutura para mandar os filhos à escola. O sucesso do programa depende de um trabalho muito bem articulado, disse a secretária.

Quem se inscreveu, por sua vez, pouco imagina além da possibilidade de ganhar o dinheiro extra, sem dúvida, o grande incentivo do programa. Foi ele que levou a dona de casa Marilene Antônio da Conceição, 38 anos, a procurar, na última quarta-feira, o Núcleo de Apoio Sócio-Familiar do Ferradura Mirim, um dos postos de inscrição. Com o marido desempregado e cinco filhos, Marilene transmite no olhar a dificuldade de sobreviver. Meu marido ficou desempregado e hoje cata papel na rua. Quando ganha muito, consegue tirar R$ 80,00 no mês. O que melhorou a nossa situação foi o emprego do meu filho maior, de 17 anos, que agora comparece com R$ 200,00, conta.

A renda per capita de R$ 40,00 abre caminho para a dona de casa inscrever seus três filhos menores, todos matriculados no ensino fundamental. O dinheiro pode parecer pouco, mas representa um ganho de 16% no orçamento mensal. Se vai ajudar esse dinheiro? Muito, porque eu vou poder pelo menos comprar uma roupa para as crianças, o que é impossível hoje em dia. O pouco sem Deus é muito e o muito sem Deus é nada, não é verdade?

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