A idéia que a volatilidade das taxas de câmbio deve ser combatida com a alta de juros é, no mínimo, duvidosa. Não se produziu ainda nenhuma prova robusta que a elevação dos juros seja capaz de deter um ataque à moeda. Em alguns casos a alta de juros funcionou, em outros não, de forma que não há nenhuma garantia que isso funciona. No caso atual, do Brasil, então, ela não faz o menor sentido. No meu entender, a insistência em elevar os juros provém de um grave erro de diagnóstico. Em primeiro lugar porque não estamos diante de um ataque à moeda brasileira e, em segundo lugar, não se trata de uma bolha especulativa, já que o Banco Central tentou furá-la e nada aconteceu. Se não é um ataque à moeda, nem uma bolha, de que se trata, então?
A resposta é que estamos vivendo um processo alimentado pela insegurança, pela incerteza dos portadores de títulos e de dívidas em dólares que não têm a convicção que o Brasil vai poder honrá-los nos próximos dois anos. À medida em que foi se criando o receio de que poderemos ter problemas de pagamentos num futuro próximo, essas pessoas e instituições que têm débitos em dólares passaram a procurar cobertura cambial. Da mesma forma, aqueles que têm seus capitais em dólares também procuram se cobrir, resultando no aumento das operações de hedge. A elevação da taxa de câmbio acontece porque falta liquidez no mercado brasileiro. Essa liquidez não será suprida por uma elevação das taxas de juros.
O caso brasileiro resulta de uma legítima procura por hedge, por cobertura: o gerente de uma empresa estrangeira que está vendo a cotação do dólar subir sabe que, medido em dólares, seu patrimônio está sendo reduzido. A queda desse patrimônio afeta o patrimônio de sua matriz no exterior e se reflete no preço das ações nas Bolsas de Nova Iorque, em Frankfurt, em Madri. O administrador aqui no Brasil passa a procurar hedge de qualquer forma porque, ou ele se protege ou será solenemente dispensado quando as coisas maturarem...
Não estamos, portanto, diante de um ataque à moeda e muito menos às voltas com uma bolha especulativa. O que acontece é que aumentou a desconfiança sobre a eficácia da política econômica. Não é preciso especular muito sobre os motivos dessa queda de credibilidade: as exportações não crescem com o vigor necessário para inverter os saldos da balança comercial e reduzir as necessidades de financiamento dos déficits em conta corrente; e a tardia descoberta da crise de energia produziu um efeito devastador na crença da capacidade do governo de enfrentar os problemas da economia, dentre os quais a administração dos pagamentos externos.
(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br