E pensei que sabia o que era uma subida, mas aprendi rápido que, no Brasil, a gente só tem lombada. Subida é aquilo lá...
Um momento especial foi quando chegamos à entrada do Sagarmatha National Park, onde estão as maiores montanhas do mundo.Guardadas as proporções, era nossa bilheteria da Disneyworld... só que tudo ali era de verdade. E não tinha ninguém cuidando da gente.
Outros ícones aparecem: as pontes suspensas. Algumas dão um frio na barriga, mas a maioria está muito bem cuidada. São fantásticas.
No meio do caminho, numa curva estratégica, a gente tem a primeira visão do Everest. Cheguei nesse ponto arrastando a língua no chão. O pessoal me chamou pra ver o Everest e eu me recusei. Não tinha condições físicas de apreciar coisa nenhuma... Esperei o fôlego retornar e só então fui olhar.
Entre as árvores, lá estava ele outra vez. Muito mais perto. Majestoso. A pluma de cristais... Só aquela visão valeu a viagem.
Aí, numa curva, aparece Namche Bazaar. Era a primeira visão de uma vila que, pelo menos na minha cabeça, tinha um sentido místico. Era a Capital sherpa da região do Khumbu. Todos os livros que li sobre o Everest mencionavam Namche. A geografia da cidade é típica: construída na encosta da montanha, é um sobe-desce interminável. Lojinhas para todo lado, milhares de produtos sendo oferecidos. Correio, telefone, internet.
Namche tem personalidade. Tem um quê de internacional misturado com a cultura sherpa. Uma vila que vive dos turistas. Gente do mundo todo, todo tipo de idioma, todo mundo ali indo ou vindo de algum lugar... Por todas as paredes, sinais de expedições, de sonhos, de conquistas... Namche é Namche. Não tem nada igual. Ficamos ali duas noites, como parte de nosso trabalho de aclimatização.
Descer até a padaria era uma festa. Subir de volta para as barracas, um martírio. A cada passo, a respiração ofegante buscando mais ar. Tudo em câmera lenta.
Minha diferença com o Himalaia foram os toilets. Eu tenho um lance cultural de usar o toilete para meditar, para ler, para passar um tempo agradável comigo. Confortavelmente iluminado, limpo... Aí comecei a encarar aqueles toilets Brasil 1950 da região. Quando eram bons, tinham uma peça de louça no chão, daquelas onde a gente agacha e manda ver. E do lado, um balde com água e uma canequinha. Como é que os caras usam isso, eu nem quis saber. Só sei que limpam-se com a mão esquerda e por isso essa mão é considerada impura. Não estenda-a a ninguém, não entregue nada segurando com essa mão.
Mas a maioria dos toilets não tem nem essa peça de louça. É um buraco mesmo. E em volta dele um monte de mato seco que os caras jogam por cima da obra. Mas se você pensa que esse buraco é um buraco negro, com tudo escuro lá embaixo, está enganado. A maioria é um buraco aberto. Iluminado pelo sol. Você olha e vê tudo lá embaixo. Em detalhes. Cada vez que eu olhava, tinha impressão que o monte me chamava: Vem, Luciano, vem... .
E aí vêm as histórias do trekker que entrou no toilet no escuro, não viu direito e enterrou a perna até a virilha na merda. Eu mandava cortar fora!
A continuação da trilha nos levava para o mosteiro de Tengboche. Foi neste trecho que comecei a compreender a dinâmica da caminhada e acabei encontrando meu ritmo.
Quando havia uma subida, eu olhava para o chão, direcionando meu olhar para o calcanhar do sherpa que ia à frente. Aí eu limpava a mente e me transformava numa máquina de andar. Um passo de cada vez. Curto.
E a respiração em sintonia: Aspira. Pé direito à frente. Expira. Pé esquerdo à frente.
Cada passo no ritmo exato da respiração.Isso tinha o dom mágico de me colocar numa reduzida e eu abatia todas as subidas. Foi quando notei que comecei a me destacar do grupo. A caminhar na frente, a deixar todo mundo para trás. E passei a acionar esse modo reduzido a cada subida, alternando com uma postura mais relaxada nas retas e nas descidas, quando eu aproveitava para apreciar as paisagens maravilhosas. Encontrei meu ritmo e invariavelmente passei a chegar a nossos destinos ainda com energia para queimar. Foi uma descoberta.
A chegada ao mosteiro deTengboche é muito bonita. Ele foi destruído por um incêndio em 1989 e ainda está em reconstrução e é impressionante. A riqueza de cores, de sons, os monges rezando em voz alta, as imagens dos deuses....aquilo tudo te transporta para outra dimensão. Desculpem-me, mas meu referencial só pode ser a Disneyworld. Com a diferença de que no Himalaia tudo é real. Não tem um luminoso escrito EXIT, não tem brigada de incêndio, não tem fila organizada, não tem bilheteria... você está à mercê dos acontecimentos.
Aí veio o por do Sol. Pra mim, se a viagem acabasse ali, eu estava mais do que satisfeito.
Do meu diário, tiro o seguinte texto: Quanto tempo eu passei imaginando este momento... que é especial. Ouvindo a trilha do filme Everest e assistindo aos raios de sol mudando a cor da montanha. De branca já passou para alaranjada. É só um pedaço de pedra... mas deixa todo mundo hipnotizado. Olho pra trás e está todo mundo em pé, assistindo em silêncio. E para ficar melhor, surgiu agora de trás das nuvens a Lua cheia... dentro de alguns minutos as nuvens vão cobrir tudo e o Sol vai baixar completamente.Este momento valeu a viagem toda! A temperatura começa a baixar bastante. Minúsculos flocos de neve caem sobre a gente. Agora o Sol baixou e a única montanha iluminada é o Everest.
Estou morto de cansaço, com dores pelo corpo todo, sujo, nariz entupido, saudades dos meus...mas nada disso impede que eu me deslumbre aos pés do Ama Dablam.
Enquanto observávamos o por do Sol, o Blake apontou uma montanha baixinha que ele escalou no ano passado. Trata-se do Island Peak.Tem 6.000 metros! Tem praticamente o dobro da altura do ponto mais alto do Brasil e parece um morrinho perto do Everest... É aí que cai a ficha. Estou noutro planeta!
No dia seguinte, logo cedo, caímos na trilha. No caminho paramos num mosteiro de freiras. Pequeno, simples e pobre. Entramos e ficamos lá sentados assistindo as rezas de quatro religiosas. A reza é hipnotizante, e quando os instrumentos entram, enchendo o ambiente com a música característica, é emocionante.
Depois de uma caminhada de quase três horas, paramos em Shumari para almoçar. Eu não podia nem sentir o cheiro da comida....pensei que ia vomitar. Perdi completamente o apetite. O guia acha que é a altitude. Eu acho que é a combinação de falta de ir ao banheiro com não aceitação da comida.
A comida é legal, vem limpa (embora a gente questione a limpeza, considerando as condições em que o cozinheiro trabalha), mas parece que tem algo no tempero, no óleo, que acaba comigo.Vou indo só de sopinha e de um ou outro ovo aqui e ali. É duro. E os gringos comendo que nem cavalo....
Quando ultrapassamos os 4 mil metros, a paisagem mudou radicalmente. Acabaram-se as árvores, a vegetação. Agora ficou tudo marrom e cinza. E pedras. Muuiiitas pedras. Eu não imaginava que caminharia tanto sobre pedras. E isto era só o começo.
O cenário é de desolação total. Seria deprimente se não fossem as montanhas em volta, com suas neves eternas. Não canso de me deslumbrar com a beleza delas.
Chegamos a Dingboche. Eu pensei que era o fim do mundo.
O lugar me deprimiu muito. Principalmente pela poeira e aridez. A gente com as barracas montadas ali e aquele poeirão horroroso. E um frio de lascar. Conforme a gente vai subindo, acaba a vegetação. Lenha é artigo raríssimo. Então o pessoal pega bosta de yaks e bota prá secar. E vai empilhando. Aquilo será o combustível usado para cozinhar, para aquecer. A bosta trazendo energia. Mas a fumaceira que faz é algo impossível de agüentar. E é nessa atmosfera esfumaçada, de frio e poeira que esse pessoal leva a vida. Como é que pode?
Tive a oportunidade de conhecer um dos lodges - alojamentos - por dentro. São as casas dos sherpas, com alguns quartos a mais para alugar. Eles tem a cozinha, que é a área onde está o fogão e aquecedor principal, onde reúnem-se para conversar.
Aí tem um quarto. Com todas as camas alinhadas na parede. Todo mundo dorme ali. 5, 8, 12 pessoas. Lembrou muito a vida dos esquimós. E são gentilíssimos.
Sherpas
Tem um lance interessante sobre os sherpas. Eles migraram do Tibet uns 500 anos atrás. E foram morar nas montanhas do Nepal. A população do país é composta de castas, e os sherpas são uma das castas nobres. Como o Nepal é uma das únicas nações do mundo que jamais foi dominada por outra nação, eles têm uma relação interessante com os estrangeiros. Não são servis, nem tem aquela humildade que chega a ser humilhação de outras nações acostumadas a viver sob o jugo dos sahibs .Eles entendem os estrangeiros como alguém que vem trazer novidades, histórias do outro lado do mundo, dinheiro e cultura. Não como os dominadores. Então tem o maior prazer em nos servir, e encaram esse servir como sua obrigação. Não entendem quando a gente agradece por algo bem feito. Acham natural fazer bem aquilo que é seu serviço. E desdobram-se em nos dar todo o conforto. São encantadores em seu comportamento gentil e verdadeiro. E a gente acaba entrando na deles. É impossível não gostar dessa turma.