A pessoa liberal aspira à liberdade de ação política, econômica, social e individual, mesmo que isto se oponha a instituições tradicionais, a intenções de governos ou de facções, a usos e costumes estamentais. Nos países ditos atrasados ou em desenvolvimento, o liberal se opõe, por exemplo, a costumes tribais que impedem a afirmação de autonomia individual; nos países desenvolvidos e industrializados, opõe-se às distinções e privilégios como os de classe, sexo e raça; em toda parte, opõe-se a monopólios - sejam eles de quem forem - na economia, na informação e na organização política. Um liberal não deve, por princípio, opor-se a mudanças que permitam ampliar a liberdade e a autonomia individuais; não deve também favorecer ações que restrinjam o livre acesso ao mercado e à competição.
Historicamente, os inimigos do capitalismo moderno e do liberalismo têm sido os defensores dos valores e costumes das sociedades tradicionais, consagrados pelo mercantilismo monopolista, ou pelo Estado oligárquico e patrimonialista (cujas regras não se baseiam nas leis, mas na tradição, na amizade, no clientelismo...), ou pelos escravagistas, em suma, pelos que temem o reconhecimento dos legítimos direitos do homem e apegam-se ao que de mais retrógrado e autoritário está enraizado em suas mentes.
No plano individual, o liberal é, essencialmente, aberto e disponível para o mundo, isto é, sem preconceitos e dogmas que o impeçam de ter as suas convicções. As escolhas são atitudes humanas não apenas instintivas e, portanto, a liberade como direito do homem, deve conduzir sua obra e seus pensamentos, visando a uma igualdade efetiva no terreno das relações sociais, cuja linha mestra é o tratamento desigual para os desiguais. A igualdade consiste na dotação inicial de equanimidade de acesso ao conhecimento, à defesa da vida, do direito à prosperidade e, sobretudo, da própria liberdade da justiça e não uma condição de simetria, fictícia e demagógica. No plano coletivo, o liberal almeja a paz social, através do equilíbrio de poder entre os grupos sociais e as nações. O liberalismo sempre foi uma ideologia da paz; não se deve confundir a visão liberal de mundo com a história do capitalismo, nem das guerras e conflitos terríveis. É fato que hoje os líderes mundiais parecem estar mais convencidos das vantagens da paz sobre as da guerra. Nem sempre foi assim.
Os liberais sentem-se solidários com os avanços da liberdade em todo o mundo; defendem a autodeterminação política dos povos, as soluções negociadas entre as nações, desenvolvidas no respeito a interesses mútuos e claramente enunciados. São também, contrários a qualquer tipo de exportação liberal a outros países, seja pela guerra, seja por meio de pressões econômicas (que só fazem atrasar os processos de democratização internos). O inimigo número 1 da liberdade, em todo mundo, é a miséria, a grande geradora de desespero e fanatismo.
Em linhas gerais, o Liberalismo se opõe a todo tipo de censura às artes, já que a livre circulação de criações artísticas é fundamental para a liberdade política e para o exercício da cidadania. O Estado liberal tem, certamente, o direito e o dever de defender-se (até com a polícia) daqueles que tentam derrubá-lo por meios ilegais, revoluções ou golpes de Estado. Mas não pode, sob pena de deixar de ser um Estado liberal, impedir a liberdade de expressão e criação artística, mesmo de seus inimigos visíveis. Essa necessidade, que os fascistas, comunistas e autoritários sempre chamaram de imbecilidade liberal é, no fundo e de longe, sua grandeza.
Isso não significa que os liberais devam calar-se diante da propaganda dos fascistas, comunistas, fundamentalistas religiosos ou racistas. Devem, pelo contrário, desmascará-la por meio de uma propaganda ativa em favor das liberdades políticas, sociais, religiosas e individuais, entre as quais se inclui a de criação e desfrute artísticos. As idéias devem ser combatidas com idéias e - as armas dirigidas contra as liberdades, com armas empregadas em favor do Estado de Direito. Nada prejudica mais os liberais no poder, do que serem acusados de hipocrisia por usarem contra seus inimigos os meios prediletos destes, como a censura. A liberdade só pode ser defendida pelo exemplo permanente de respeito à liberdade dos outros, por mais desagradável que seja a nós mesmos. (*) Gilberto Kassab é deputado federal, vice- presidente do diretório do partido no Estado de São Paulo e Secretário Nacional do PFL e Rodrigo Garcia é deputado estadual, presidente da Comissão de Comunicação e Transportes e Líder do PFL na a Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo)