Há um quarto de século, surgia na Inglaterra o estilo que mais revolucionou a música e o comportamento dos jovens depois dos anos 60.
Há 25 anos um terremoto sacudia a Inglaterra. Milhares de jovens desempregados, embalados e inspirados por um rock pesado, despojado e tocado em no máximo três acordes invadiram as ruas de Londres. Com cabelos coloridos e arrepiados, roupas rasgadas e enfeitadas com adereços baratos, como alfinetes para fraldas infantis, aquela geração transformou o verão inglês de 1977 num divisor de águas. A música pop, particularmente o rocknroll, nunca mais seria o mesmo após o levante punk, um fenômeno que mudou não só a cara da música, como o modo de se vestir e comportar da juventude mundial do quarto final do século XX. Hoje, diluído pela industrial cultural, o punk para muitos não passou de uma grande besteira, uma genial jogada comercial ou um engodo. Mas a verdade é que causou um impacto muito grande na música pop (no rocknroll) e no comportamento dos jovens após seu surgimento e isto não há como negar.
O som que inspirava aqueles novos rebeldes vinha se desenvolvendo desde o final dos anos 60 nos Estados Unidos, entretanto, ainda sem a canalização dada pelos punks ingleses.É de consenso que o primeiro disco punk da história foi gravado pelos Stooges, em 1969. Comandados por um tresloucado vocalista chamado Iggy Stooge (mais tarde Iggy Pop), que se cortava nos shows e gritava slogans contradizendo o flower power dominante da época, o primeiro LP da banda (homônimo) contém clássicos como No fun, 1.969 e I wanna be your dog, que seriam regravados por milhares de bandas punks a partir de 1976. Os Stooges lançaram ainda em 1970, o clássico Fun House, praticamente uma continuação do primeiro LP, porém, ainda mais pesado e próximo ao que seria o punk rock. Em 1.973, os Stooges deram o último suspiro, com o pesadíssimo Raw Power, produzido por David Bowie. Mas os problemas com drogas pesadas de Iggy e dos demais integrantes acabaram de vez com a lendária banda. Quem quiser entender o som que viria a ser chamado punk rock não pode deixar de conhecer os três LP dos Stooges.
Na metade dos anos 70, em New York, o som que embalaria o levante punk começava a tomar formas definitivas, basicamente com os Ramones, uma antítese do rock progressivo que então dominava o cenário da música pop. Com músicas de no máximo três minutos, acordes minimalistas, muita distorção e temas adolescentes - hoje até ingênuos - os Ramones lançaram o estilo que predominaria entre os músicos punk. Afinal, qualquer um poderia tocar daquele jeito, bastava ter uma guitarra e um amplificador baratos, aprender dois ou três acordes e ter raiva, muita raiva, para, finalmente, ter uma banda de rock.
Em 1976, os Ramones fizeram uma excursão pelo Reino Unido que transplantou esta atitude para a Europa. A Inglaterra da época era muito diferente de hoje, milhares de jovens desempregados espalhavam-se pelas ruas de Londres. O cenário era perfeito para o que se sucederia. Aos poucos começavam a surgir bandas tocando com o mesmo espírito ods Ramones.
Então, um esperto empresário, chamado Malcom McLaren, que já trabalhara com os New York Dolls, anteviu a oportunidade que esperava. Os punks já haviam iniciado a invasão, mas faltava alguma coisa, uma banda que conseguisse catalisar aquele momento particular da história. E foi exatamente isso que McLaren fez junto com sua maior criação: os Sex Pistols, depois dos Stooges e dos Ramones, a banda mais importante do punk rock. Com Johnny Rotten nos vocais,mais Steve Jones na guitarra, Glen Matlock no baixo e John Cook na bateria os Pistols lançaram zseu primeiro single em 1976 (Anarchy in the U.K.). Ainda no mesmo ano, McLaren conheceu o punk-mór Sid Vicious, baterista do grupo Siouxie & The Banshees e não hesitou em despedir Matlock.
Sid Vicious, ao lado de Johnny Rotten, se tornaria uma espécie de ícone para os punks, tanto pela maneira despojada de tocar, como pelo visual e, principalmente as atitudes. O baixista constantemente se envolvia em todo tipo de brigas e escândalos, vivia chapado de heroína e acabou morrendo de overdose.
A raiva e inconseqüência dos Sex Pistols seriam resumidas em um LP, intitulado Never Mind the Bollocks, que tomou de assalto a Inglaterra, já em 1977. Anarchy in the U.K. se tornaria uma espécie de hino punk da época e daria também título a uma avassaladora tournée, que popularizaria de vez a nova onda. Never Mind não é um LP brilhante, não é uma obra prima, mas contém todo o espírito da época em que foi gravado.
Simultaneamente aos Sex Pistols, surgiam centenas de bandas, por todo o Reino Unido, comporiam a trilha sonora mais revolucionária da história do rock depois dos anos 60. Bandas como The Clash, que trazia letras mais politizadas, assim como os irados irlandeses do Stiff Little Fingers, com seu histórico Inflammable Material fizeram história. Outra pérola punk, lançada em1976 é Im Stranded dos australianos do The Saints. Digno de menção também é o single de 7 do Damned, intitulado New Rose, considerado o primeiro vinil de punk rock da Inglaterra.
Logo após a explosão de 77, o punk teve ainda uma sobrevida até 1979, com bandas como Sham 69, U.K. Subs, The Ruts, The Members, Slaughter & the Dogs e Cockney Rejects, Dead Kennedys, Germs, etc. Estas bandas mantinham o som raivoso e básico, com guitarras distorcidas e músicas de no máximo três acordes. Por outro lado, algumas bandas do levante de 76/77 começavam a guinar para um som mais comercial, aproximando-se da new wave. Aos poucos o furacão foi se enfraquecendo e parecia que se tornaria uma brisa e seria condenado ao esquecimento. Somando-se a uma certa apatia que ameaçava dominar o cenário, a onda disco de 1978/79 parecia que dera um tiro de misericórdia no rocknroll e em seus segmentos (como era o punk à esta altura).
Nos primeiros meses de 1980, começa a surgir por todo o Reino Unido e também nos EUA uma segunda geração punk, que daria os contornos definitivos ao que passaria a ser chamado movimento punk (até então apenas uma atitude). Surgia o hardcore, um som ainda mais rápido e furioso que o dos primeiros punks e com letras extremamente engajadas.
O hardcore foi uma espécie de radicalização do punk rock. A explosão do hardcore pela Europa e pelos EUA, sacramentou uma nova atitude punk, bem mais engajada politicamente. É no início dos anos oitenta que começa a se falar em movimento punk. Até então era tudo apenas uma atitude e uma maneira de ser, pensar e agir. A maioria das bandas hardcore levantavam a bandeira do pacifismo e do antinazismo, atitude que ainda prevalece entre os punks de hoje.
Se em 1977 o boom se concentrou no Reino Unido, desta vez o punk tomava de assalto toda a Europa, EUA, Japão, Brasil (yes!) e Austrália. O grande número de selos independentes que já existia a partir da primeira onda punk certamente contribuiu bastante para isso. O hardcore ganhou força maior nos EUA, país onde se tinha a impressão que havia uma banda em cada esquina. O punk rock atual, se é que existe, é bem mais influenciado por esta segunda geração do que pelos pioneiros do levante de 1.976/77.