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O "vírus" argentino

(*) Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 3 min

A Argentina, a julgar pela insistência do ministro Domingo Cavallo em descartar sistematicamente a desvalorização do peso, está a um passo da dolarização plena, como já fizeram o Equador e o Panamá. Se isso vai ou não acontecer, só o tempo dirá. Se não optar por essa alternativa e, tardiamente, render-se aos fatos, caindo na real, restará então à Argentina desvalorizar sua moeda, fazendo-a flutuar, mais ou menos como o Brasil fez com o real, em janeiro de 1999. Se não adotar nenhuma das duas opções, só restará ao nosso vizinho o défault ou seja, a concordata. Como é fácil deduzir-se, a situação do nosso vizinho é grave. De nada adianta saber, como querem alguns analistas, se a crise portenha é exclusivamente econômica ou política. O que interessa, hoje, para nós, brasileiros, é como evitar o contágio do vírus argentino, que prolifera e ataca preferencialmente as economias dos emergentes.

A dolarização da economia argentina, se vier a ser adotada, acarretará três conseqüências imediatas: o desmantelamento total do Mercosul, a antecipação do cronograma da Alca e a renegociação das dívidas externa e interna do País vizinho, sob a coordenação do FMI. É claro que tudo isso levaria, no mínimo, uns dois anos, ao longo dos quais a rota dos investimentos diretos estrangeiros deslocar-se-ia para os países de menor risco. Na América Latina, escapariam dessa fuga de capitais apenas México e Chile. Essa possibilidade é péssima para o Brasil, porque coincide com a já anunciada crise cambial, prevista para 2002. De um jeito ou de outro, as contas externas deste ano se equilibram, com a entrada prevista de US$ 20 bilhões em investimentos diretos. Mas e no ano que vem? Com a fuga ou, pelo menos, a dispersão do capital de risco externo e os seguidos déficits na balança comercial, ou, na melhor das hipóteses, superávits medíocres, a única saída será fazer novo acordo com o FMI.

Mas o que causa espanto e tristeza em tudo isso é a ausência de rotas alternativas seja para a economia brasileira, seja para o futuro do Mercosul. A questão que se coloca aqui é a seguinte: a capacidade de os países emergentes elaborarem estratégias para previsíveis crises futuras, encurtadas cada vez mais pela ação dos mercados financeiros globalizados, é nenhuma. Em outras palavras, enquanto nos esforçamos internamente para administrar a escassez de energia e a flutuação do real, no âmbito externo a crise argentina escapa do controle. As demais hipóteses (desvalorização do peso e moratória aberta) têm menos possibilidades de ocorrer. A primeira é mais favorável ao Brasil. A segunda é a pior para eles e para nós. De qualquer forma, o melhor a fazer agora é antecipar as negociações para um novo acordo com o FMI para vigorar a partir de 2002, que funcionaria como uma espécie de hedge (seguro) cambial. Isso transmitiria ao mercado externo a idéia de um mínimo de planejamento e de previsibilidade.

Paralelamente a isso, a diplomacia brasileira deveria acelerar os estudos setoriais para a entrada na Alca em 2006 e tentar obter, como fez o México, em 1999, um acordo comercial e de investimentos de longo prazo com a União Européia. No âmbito interno, o governo deveria retomar com seriedade as iniciativas para concluir, até o final de 2002, a mini-reforma tributária para que se criem logo melhores condições de competitividade para as exportações brasileiras. Qualquer coisa fora disso, é o equivalente a tentar gerenciar, com medidas de emergência, uma crise que talvez seja inadministrável!

(*) Miguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM). E-mail: presidencia@advbfbm.org.br.

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