Problemas de produção na Europa e boato de infecção pela doença da vaca louca. Dois fatores que surtiram efeitos positivos para a pecuária brasileira. Do início do ano para cá, o volume de venda para o mercado externo tem crescido consideravelmente e as perspectivas são das melhores no setor.
O mercado externo está mais receptivo à carne brasileira. Do início do ano para cá, o Brasil exportou 20% a mais do que no mesmo período do ano passado, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes Industrializadas (Abiec). A estimativa é de que, até o final do ano, saiam do País 700 mil toneladas, contra 580 mil toneladas comercializadas no ano passado.
Esse crescimento, de acordo com o diretor executivo da Associação, Ênio Marques, deve-se aos problemas de produção na Europa. Os clientes da carne européia, que é o Norte do continente e o Oriente Médio, buscaram outras fontes para o consumo. O Brasil foi uma delas, disse.
Outro fator que pode ter contribuído para este aumento nas vendas foi o marketing direto feito pelo governo canadense no início deste ano. Na ocasião, o País do norte da América suspendeu a importação de carne brasileira. A alegação foi de que o rebanho do Brasil poderia estar contaminado com encefalopatia espongiforme bovina, também conhecida como BSE ou mal da vaca louca.
Inicialmente, a notícia teve um reflexo negativo para a economia brasileira. Muitos países consumidores suspenderam provisoriamente os pedidos e passaram a olhar com desconfiança para o gado nacional.
Para acabar com as dúvidas, técnicos canadenses desembarcaram no Brasil e visitaram criações e frigoríficos, com o intuito de conhecer as reais condições da carne produzida no Brasil.
O resultado não poderia ter sido melhor. Comprovou-se a qualidade do produto, o que valeu como um selo de garantia lá fora.
Para o presidente do Frigorífico Mondelli, Genaro Mondelli, esse fator contribuiu de forma muito positiva para a pecuária brasileira. Apagou-se aquela má impressão que havia sido criada pelo Canadá e o Brasil ganhou um certificado de qualidade, salientou.
Sua empresa sentiu os efeitos disso. O frigorífico aumentou em 30% as exportações e está pronto para participar de um dos maiores eventos do setor, a Feira Internacional de Alimentos e Processamento de Alimentos e Bebidas (Anuga), a ser realizada no mês de outubro, na Alemanha. É uma excelente vitrine para o mercado brasileiro, disse.
Cenário positivo
O diretor executivo do Fundo de Desenvolvimento da Pecuária (Fundepec), João Gilberto Bento, também acredita que o boato do mal da vaca louca foi uma excelente propaganda para o Brasil no exterior.
No entanto, ele lembra que as perspectivas apontavam para um crescimento nas exportações para este ano. O Brasil já estava com preços bastante competitivos e existia uma cenário favorável para as vendas externas. Mas, não há como negar que saímos favorecidos daquele episódio com o Canadá, ressaltou Bento.
De acordo com ele, a missão canadense acabou dando o aval que a carne brasileira precisava, atestando que o País está livre do mal da vaca louca e da febre aftosa, embora tenha surgido alguns focos desta última no Sul do País. Os Estados de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul foram beneficiados pelos últimos acontecimentos, disse.
O superintendente do Frigorífico Frigodias, localizado na cidade de Promissão, Gustavo Goyen, disse que a tendência é o Brasil se tornar cada vez mais conhecido mundialmente no que diz respeito à sua pecuária. Tanto que sua empresa está investindo alto no segmento de exportação. Estamos construindo um novo frigorífico com o intuito de reforçar nossas vendas externas, salientou.
Ele vê com otimismo o final deste ano para o setor de carnes do Brasil. O País está consolidando-se cada vez mais como um nome forte lá fora, disse.
Política de incentivo
Para o diretor executivo da Abiec, Ênio Marques, ainda falta um programa de desenvolvimento da pecuária brasileira visando o mercado externo. Em termos de política de incentivos, o Brasil é muito pobre, salientou.
De acordo com ele, o País acaba mandando para fora as sobras do mercado interno, sem se preocupar com os critérios exigidos pelos países importadores.
João Gilberto Bento, do Fundepec, concorda com Marques. Ele explicou que não existe uma segmentação visando a exportação. A qualidade dos animais tem evoluído, mas ainda não há essa preocupação em direcionar a produção para o mercado externo, disse.
O criador de gado Simental, Rubens Alves de Oliveira Neto, proprietário da Estância Ribeirão Bonito, salienta que grande parte dos produtores já pensa em vendas para o mercado externo. Os pecuaristas já sentiram no bolso os problemas que as barreiras ao produto brasileiro podem causar. Por isso, estão ficando mais precavidos e investindo no plantel, disse.
Para ele, são três os segmentos que estão recebendo atenção especial: manejo sanitário, melhoramento genético e nutricional. Não adianta ter livre acesso aos mercados externos se não se tem produto de qualidade para vender, ressaltou.
A procura pelas vacinas de melhor qualidade, o investimento em controle nutricional e em pesquisas genéticas já fazem parte do vocabulário dos criadores de boi espalhados pelo Brasil.