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Dia do Vizinho é festejado há 30 anos

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 4 min

Criado pela poetisa Cora Coralina, o Dia do Vizinho é lembrado em Bauru por sua nora, que segue a tradição

A poetisa, escritora, humanista e pensadora Cora Coralina criou, há 30 anos, o Dia do Vizinho, que é comemorado hoje, dia de seu aniversário. Sua nora, Nize Garcia Bretas, que mora em Bauru, segue a tradição e oferece chá aos vizinhos para comemorar a data.

Cora Coralina faleceu em 1985 com 95 anos e, desde que criou o Dia do Vizinho, a comemoração nunca faltou. Ela era homenageada em Goiás, cidade onde viveu, e fazia questão de receber os vizinhos.

Em 1986, foi aprovada a Lei Municipal nº 2.686 para a comemoração do Dia do Vizinho. A data foi escolhida em homenagem ao dia do nascimento de Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas, a Cora Coralina, dia 20 de agosto de 1889.

De acordo com Nize, nora de Cora Coralina, ela sempre quis que o seu aniversário não fosse apenas uma data comemorativa para ela. Ela, que era uma mulher inteligente e muito boa, sempre valorizou muito a figura do vizinho, aquele que sempre está pronto para prestar uma ajuda numa emergência, já que a família, na maioria dos casos não está perto, disse.

Nize vive com o marido, o coronel Cantídio Bretas Filho, filho de Cora Coralina, e os dois não têm parentes em Bauru, portanto, os vizinhos são os amigos de todas as horas.

Cora Coralina começou a escrever aos 14 anos e tinha o dom da oratória como poucas pessoas. Sua convicção na importância do vizinho na vida das pessoas a levou até a fazer várias poesias sobre o tema.

Ela acreditava que o vizinho está sempre ali nas horas das grandes dificuldades e achava que deveria haver um dia para se comemorar isso, contou Nize. A nora da poetisa afirmou que a intenção na criação de uma data era promover uma confraternização especial entre os vizinhos pelo menos uma vez por ano. A confraternização deve existir sempre mas hoje é dia de trocar uma palavra, um abraço, para comemorar essa amizade tão importante.

Para comemorar, Nize, que afirmou ter um ótimo relacionamento com todos os seus vizinhos, ofereceu um chá a eles no último sábado. Ela escolheu o fim de semana porque como o dia correto, hoje, é uma segunda-feira, impossibilitaria alguns vizinhos de participar da reunião devido ao trabalho.

Nize, orgulhosa de sua sogra, faz questão de lembrar que Cora Coralina recebeu vários títulos e, entre eles, o título de Doutor Honoris Causa, o título de intelectual do ano e foi indicada como a personalidade do século.

Poesias de Cora Coralina sobre os vizinhos

Quem jamais deixou de ter em algum tempo o seu bom vizinho? Quem na idade adulta deixará de se recordar de um bom vizinho da casa paterna e dos folguedos com os meninos da vizinhança? Quem jamais deixou de se valer de seus préstimos em horas atribuladas? Ou não?

Vizinhos de paredes meias. Vizinhas de esquina. Vizinhos de frente, vizinhos do lado-de-cá e de-lá da rua. Vizinhos de apartamento...

O vizinho é sempre pronto, solícito e prestativo. É ele que no silêncio da noite, na tranquilidade do seu repouso interrompe o seu sono ouvindo um movimento inesperado na casa pegada. Nem espera pelo chamado. Já está de pé, mal ajeitado, calças sobre o pijama. Procura saber o que é preciso. Doença súbita imprevista, mal estar inesperado, e vai bater na casa do médico, na porta da farmácia, chamar uma assistência, acompanhar esse doente no pronto-socorro, o que leva muitas vezes o médico a perguntar: O senhor é parente do doente? Não, doutor, sou apenas o vizinho. Nada mais expressivo para definir o bom vizinho. Que Deus o ponha sempre perto de nós! (Cora Coralina)

Vizinhos de apartamento... desconfiados, fechados, inibidos, isolados uns dos outros. Encontros ocasionais nos corredores, comprimento frio, inaudível, convencional nos elevadores.

Alheiamento. Quanta ocasião irrecuperada para um convívio amistoso!!! Cada qual fechado na sua carapaça de gelo, percebendo o melhor da vida que é a boa e fácil convivência mesmo nos encontros rápidos e ocasionais. Por que nos fecharmos tão hermeticamente na nossa rudeza individual se a vida nos põe sempre juntos em encontros freqüentes e cotidianos e se temos tanto para dar de nós e tanto para receber dos outros?... (Cora Coralina)

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