O jauense Sílvio Minarelli mantém site sobre o pássaro. Pelo menos 30 internautas visitam a página por dia.
Jaú - Depois de buscas malsucedidas sobre o curió na Internet, o ornitólogo e cirurgião dentista Sílvio Luís Minarelli, de Jaú, resolveu criar ele próprio uma página sobre a ave. O resultado pode ser conferido no endereço www.curiojau.hpg.com.br, que traz informações gerais sobre o passarinho para leigos ou para quem quer conhecer um pouco mais sobre o bicho.
Há dez anos criando curiós, Minarelli conseguiu uma grande quantidade de informações valiosas. Fora isso, desenvolveu um carinho especial pelos bichos, que levam nome e histórias próprias. Eles são parte da família, conta. Escolhi o curió pela beleza do canto, que se assemelha muito ao toque do violino. Ele é um passarinho muito inteligente, consegue uma seqüência de notas exatas, sempre dentro da escala musical, explica o ornitólogo.
Para levar a página ao ar, Minarelli contou com o apoio do webdesigner José Eduardo Carrara, que desenvolveu o site. O responsável técnico e gráfico da página explica que optou pela simplicidade, de modo que o site possa ser visto por quem não tem uma máquina muito potente. O forte da página são as informações. Fiz uma coisa bem simples, de fácil navegação, afirma Carrara.
O webdesigner explica que ao levar a natureza para o mundo digital ele preferiu não lançar mão de muitos recursos tecnológicos. Não quis fazer uma página pesada. Este talvez seja o motivo do sucesso razoável do site, arrisca.
Sem nenhuma divulgação, o site, que está no ar há três meses, recebeu mais de 2,7 mil visitas. A média é de 30 visitas por dia. Preocupado em manter a integridade da página, Minarelli já recusou propostas de patrocínio. Era um anunciante que não tinha a ver com a área. Se tivesse, eu talvez aceitaria. O site é mais para divulgar a criação legal do passarinho. A propaganda poderia descaracterizar, defende. A página, no entanto, tem anúncios da empresa que hospeda o site, que não cobra pelo serviço.
Segundo o ornitólogo, a idéia é atualizar as informações a cada três meses. Um dos destaques da primeira edição é um causo sobre a expressão água que o passarinho não bebe. Também existem informações sobre a criação, doenças, alimentação, dicas, entre outras.
Pássaro registrado
Passarinheiro desde criança, Minarelli sabe da importância da criação consciente e legal. Desde que começou a criar curiós, ele sempre adquiriu aves registradas no Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). O ornitólogo não costuma ter uma grande quantidade de pássaros, o número varia entre 20 e 25 curiós.
Desde pequenos, os curiós de Minarelli são ensinados a cantar. Um timer fica disparando o canto gravado em vinil do amanhecer até a noite. O canto da gravação foi produzido há 30 anos após um estudo e hoje é considerado o dialeto do curió. Entre os pássaros de Minarelli, Guguinha é o mais premiado. Por conta disso, o ornitólogo e o webdesigner vão gravar o canto da ave, digitalizar e disponibilizar na página.
Pessoas de todo Brasil e até de outras parte do mundo, como da Alemanha, já entraram em contato com o ornitólogo após visitar a página. Enquanto atendia à reportagem do Jornal da Cidade, o criador atendeu a uma ligação de um passarinheiro de Caçador-SC. É todo dia assim. O interessante é que vamos criando uma rede de contatos, afirma.
Segundo Minarelli, um dos objetivos da página é levar ao conhecimento das pessoas que a criação legal é uma atividade conservacionista, que reduz a captura e o tráfico ilegal. O curió, que é uma espécie em extinção, costuma ser vendido por valores que variam de R$ 300,00 a R$ 1 mil, segundo o ornitólogo. Claro que isso depende de uma série de fatores. Alguns pássaros não têm preço, explica Minarelli, que é diretor da Sociedade Ornitológica Regional de Bauru. Além disso, o criador preside a Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas (APCD) regional de Jaú.
Pelo orgulho de ser jauense, o ornitólogo fez questão de incluir o nome da cidade na página. É uma homenagem e uma forma de ser encontrado mais facilmente. Se alguém digitar o nome da cidade em um mecanismo de busca chega até nós, comenta.
Sucesso depende do criador
No site sobre o curió, o ornitólogo jauense explica que: A grande responsabilidade no sucesso da formação de um curió de alta qualidade, depende do criador. A base do futuro canto são aprendidas principalmente até o vigésimo oitavo dia de vida. O restante divide-se entre a hereditariedade e saúde. Nesta fase, ouvir as fêmeas solteiras, outros filhotes, pequenos defeitos em qualquer cantada do pai ou qualquer outro curió, mesmo que, ao mesmo tempo esteja ouvindo a fita ou disco, ou CD para o aprendizado, poderá influenciar o filhote de forma negativa e irreversível por toda vida. Quem quiser criar curiós de alta qualidade deve contar com, no mínimo, quatro ambientes suficientemente distantes ou isolados acusticamente:
a 1. Um ambiente para o macho galador, podendo ter nesse ambiente, caixas individuais, isoladas acusticamente para poder deixar mais de um macho no mesmo local, impossibilitando que um escute outro, devendo sempre levar a fêmea para galar nesse ambiente. Nunca o macho no local das fêmeas com filhotes.
a 2. Outro ambiente paras as fêmeas solteiras (muitas fêmeas não galadas cantam e mesmo as que parecem não cantar, costumam fazê-lo), pois o canto das fêmeas poderá afetar e influenciar o canto do filhote.
a 3. Outro ambiente onde ficarão as fêmeas galadas, chocando e criando os filhotes.
a 4. Outro ambiente para os filhotes desmamados.
Em todos esses ambientes não devemos deixar de passar o canto com som baixo, sempre da preferência do criador.
O grande sucesso de uma criação está nas mãos do criador, pois nada adianta ter excepcionais machos e fêmeas, de altíssima linhagem, de renomados criadores, se faltar muito capricho com esses detalhes, que é fundamental. Um filhote não deve nunca escutar seu pai, outras fêmeas, filhotes de idades diferentes. Devemos ficar atentos com relação a quantidade de filhotes criados, a extensividade leva sempre ao descuido, o insucesso é implacável, as possibilidades serão maiores.
Prefira casais que sejam descendentes, ascendentes, irmãos ou irmãs de curiós que tenham se destacado. Comece com fêmeas de criadores sérios, que levem suas criações no maior capricho e só assim, no decorrer dos anos, você terá uma linhagem definida, não obstante casais que não tenham nenhum padrão genético reproduzam bons filhotes, isto é exceção. Há caso de relatos de fêmeas excelentes criadoras, de até 4 ovos, variando os machos, que passaram toda sua vida reprodutiva e não conseguiram tirar um curió com canto razoável. O filho de um excelente curió pode aprender a cantar um canto defeituoso, bem como o filho de um curió, com canto defeituoso, pode aprender a cantar com perfeição desde que, ele nunca ouça o pai ou outro canto defeituoso. Lembre-se de que os pássaros ouvem cerca de 10 vezes mais do que nós e, dependendo do local, são capazes de ouvir outro curió a mais de 100 metros de distância, por isso, todos os cuidados são poucos.
Sempre prefira fêmeas filhas de pais repetidores comprovados, com voz, andamento de canto, melodia, e sempre evite filhos e filhas de pais que ainda tenham abertura de canto, mesmo o criador certificando que nunca escutou seus respectivos pães. Opte para exemplares com porte. Sempre na venda de filhotes, o belo sempre prevalecerá. A idoneidade do criador é muito importante; tenha sempre referências.
Água que passarinho não bebe...
(texto: Sr. José Maurício Murgel - Jahu - SP)
Há muitos anos morava, em Jahu, um senhor de nome Tio Geraldo. Boa pessoa, suas manias eram a criação de curió e, às vezes uma boa cachaça. Seu maior prazer era escutar um Curió, de nome Realejo, canto praia, muito bom, criado e feito por ele, admirado e cobiçado por todos os passarinheiros da região. Ofertas não faltavam, mas o Curió não tinha preço; era considerado, até, como membro da família. Este Curió também é gente, amigo mesmo, dizia...
Num domingo, depois de um lauto almoço, onde a cachaça servira de couvert e de sobremesa, embora os pássaros ainda não tivessem sido tratados, nosso herói só estava a fim de uma cama. Sobrou para sua esposa, Dona Odai, que, num descuido, pegou a garrafa de cachaça pensando ser de água. Não deu outra, o Curió começou a cantar completamente desafinado, fato que despertou o Tio Geraldo. Preocupado, foi verificar o que havia e, chegando perto da gaiola, já sentiu o cheiro vindo do bebedouro. Ainda sonolento reclamou: - Odai, você deu ao Realejo a água que passarinho não bebe.
A expressão pegou, hoje é usada para definir uma boa cachaça...
Beba com moderação
Fonte: www.curiojau.hpg.com.br