Especial para o JC Cultura
Ao entrar em um dos trens do metrô percebi de imediato a presença de um senhor deitado no chão. Nitidamente notava-se que o homem estava alcoolizado. Com roupas extremamente sujas, ele cheirava muito mal. Seu cheiro era percebido em todo o vagão. Enquanto algumas pessoas tentavam ignorar sua presença, outras o observavam com curiosidade e até mesmo riam da reação das pessoas que se surpreendiam com aquele homem no chão. A questão era que todos percebiam sua presença, afinal o cheiro era insuportável, mas ninguém atrevia-se a tomar alguma iniciativa.
Como todos os outros, eu esperava impaciente pela estação onde deveria descer. Em uma das paradas do metrô, um jovem de mais ou menos dezessete anos entrou em nosso vagão. Ele notou imediatamente a presença do homem caído no chão. Como eu estava mais próximo, o jovem perguntou-me o que havia acontecido e por que aquele senhor estava daquele jeito no chão. Expliquei-lhe que não sabia e que ao entrar no trem, o homem já estava lá. Sem hesitar, o jovem dirigiu-se à ele, pegou-o pelos braços e impulsionando-o conseguiu colocá-lo em pé. Sem preocupar-se com os olhares de todos que o observavam, o jovem colocou-o em um dos assentos e sentou-se ao lado dele. Com grande normalidade aquele jovem deu uma lição a todos que estavam presentes.
Talvez muitos ali até tivessem tido a mesma idéia, mas não tiveram a coragem de colocar-se em ação. Eu fiquei incomodado com um sentimento misto de culpa e vergonha. Lembrei-me imediatamente da parábola do Bom Samaritano narrada no Evangelho de Lucas, e também não pude deixar de esquecer que sou um sacerdote e estava à caminho de uma missa.
Na modernidade a expressão amor ao próximo encontra sua tradução na palavra: solidariedade. Tendo sua origem no direito francês, Solidarité possuía a mesma significação que obligatio in solidum do direito romano, ou seja, um vínculo de obrigação entre os membros de um grupo. Com o tempo, a palavra deixou de ser exclusividade do vocabulário jurídico e passou a ser um termo genérico que expressa a cooperação entre os membros de um mesmo grupo.
Assim, solidariedade surge quando nos identificamos com a situação do outro, procuramos imaginar seus sentimentos e compartilhamos de suas tristezas ou alegrias. Neste sentido, solidariedade é uma ação entre pessoas que, por algum motivo, sentem-se iguais. Assim, ela pode existir entre operários, membros de uma família ou moradores de um bairro. Este tipo de solidariedade é, porém, exclusivista e por isso, muitas vezes, contestável.
Os membros da máfia italiana, por exemplo, podem ser chamados de solidários, pois possuem uma união exemplar. Solidariedade também faz parte da relação entre os árabes fundamentalistas que chegam até o ponto de dar a própria vida para ajudar seu grupo a atingir seus objetivos. Solidariedade deixa de ser exclusivista e torna-se sinônimo de amor ao próximo, a partir do momento que ganha um caráter universal.
Sendo ela uma cooperação entre iguais, a solidariedade torna-se ética somente no momento em que este igual não possua outro significado que não seja aquele que está na essência de nossa natureza: o ser pessoa.
Aqui encontramos o significado ético e moderno da expressão solidariedade. Eticamente somos solidários não por sermos moradores de um bairro, torcedores de um time de futebol ou membros de um partido político, mas sim por pertencermos à raça humana. Aqui surge um maravilhoso paradoxo. Ao ver na natureza humana aquilo que nos une, podemos viver a solidariedade com aqueles que são diferentes: com estrangeiros, homens, mulheres, homossexuais, negros, brancos, etc.
Este caráter universal da solidariedade não é novo. Já no século dezenove escrevia Auguste Comte em seu Discours sur LEsprit positif sobre uma união social sem especificação, uma coesão e integração social. O núcleo da solidariedade está no desenvolvimento da responsabilidade que temos em relação à todos os seres humanos, não importando as diferenças ideológicas, sexuais ou religiosas.
Na parábola do Bom Samaritano (Lc. 10, 25-37), um judeu ferido é ajudado por seu inimigo ideológico. Apesar das diferenças os dois são unidos por serem humanos. Imaginemos se os operários metalúrgicos do ABC paulista realizassem uma greve para o aumento de salários dos professores do Estado, se todos os cristãos vivessem a comunhão doando regularmente sangue e fazendo a doação de seus órgãos para depois de sua morte, se os grandes latifundiários resolvessem pressionar o governo para a realização de uma reforma agrária e de uma política que beneficiasse o pequeno proprietário.
Esta solidariedade como princípio ético pode revolucionar a realidade de toda uma sociedade e determinar seu futuro. Afinal, a justiça social não depende de leis e muito menos do perdão da dívida externa, mas sim do grau de solidariedade do povo.
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