A Área de Livre Comércio das Américas (Alca) deve ser antecipada, pois quanto mais tempo o setor produtivo brasileiro demorar para entrar no jogo pesado da competição internacional com os países do bloco, menos qualificação terá. A opinião é de Fernando José Martha de Pinho, economista, mestre em Administração de Empresas pela Universidade do Mackenzie e especialista em mercado internacional, para quem, diante da Alca, o Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul) acabou virando uma piada de salão, porque, segundo ele, menos com menos só dá mais na Matemática, numa ironia sobre o acordo entre os países pobres que compõem o bloco econômico.
Com a língua afiada ao falar do Brasil, Pinho diz que existe um grande mérito da equipe do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), mas se vendeu muita ilusão, para um prazo de tempo que só Jesus Cristo poderia fazer alguma coisa. Ele critica, ainda a indicação do embaixador Sérgio Amaral para o Ministério da Indústria e Comércio.
Sobre a Argentina, o economista diz que não haverá um final feliz para o sistema de courency board (sistema de caixa de conversão). Para ele, pode haver uma quebradeira em massa, pois deve haver uma moratória interna e, depois, uma externa, uma tentativa de acordo, porque é um jogo não vai haver ganhador ou perdedor, vão morrer todos. Leia os principais trechos da entrevista concedida ao Jornal da Cidade, nesta semana.
Jornal da Cidade A crise da Argentina pode acabar destruindo o Mercosul?Fernando José Martha de Pinho Na verdade, quando se falou em formar a Alca, o Mercosul acabou virando uma piada de salão, porque menos com menos só dá mais na Matemática, ou seja, pobre com pobre não vão fazer um mercado vitorioso. Sem nenhum desdém às as classes menos favorecidas. O que podemos trocar com argentinos, paraguaios e uruguaios, realmente, em termos de benefícios, geração de emprego? Muito pouco!
Temos um Mercado Comum Europeu. Temos os Estados Unidos, México e Canadá, que já são um mundo sozinhos os três. Temos o Mercosul aqui embaixo. Muito países que estão no meio da América Latina não têm nenhum interesse em fazer parte do Mercosul. Estão ao lado do México, que é fronteira seca com os Estados Unidos. Para que viriam aqui para baixo?
JC Mas, o Brasil tem uma certa força...Pinho O Brasil é o maior expoente da América Latina. Porém, isso é um fator negativo, de fraqueza. É forte porque integra um bloco onde é o maior. A partir do momento que esse bloco não existir mais, não adianta ser o primeiro, o melhor, num campeonato onde está jogando sozinho, porque ninguém vai te dar valor nenhum.
Então, não podemos fazer parceria com gente que não pode agregar nada para nós.
JC Pelo que entendi, o senhor é a favor da antecipação da Alca?Pinho Sou, totalmente. Mesmo com todos os problemas. O que vamos agregar vendendo para o Paraguai, Argentina e Uruguai, em termos de PIB brasileiro? Muito pouco. Até porque esses países têm capacidade limitada de acumulação de divisas para poder pagar exportações. O Brasil também tem.
JC Os nacionalistas, como o presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, acreditam que a implantação da Alca, agora, pode destruir o setor produtivo nacional. Isso não ocorreria?Pinho Riscos existem, sempre. Mas, isso é, mais ou menos, como um pai e uma mãe que esperam o filho completar 30 anos para sair de casa a primeira vez. Quanto mais tempo se demorar para entrar no jogo pesado, menos qualificação vai ter para entrar nesse jogo.
Vai esperar o que? Uma reforma tributária? Ajuda na diminuição do custo de capital. Mas, precisa ver o seguinte, será que há disposição do empresariado brasileiro para ir competir lá fora? O novo ministro da Indústria e Comércio, Sérgio Amaral, fez um discurso maravilhoso, mas não é afinado com o comércio exterior, nunca trabalhou em comércio exterior.
JC O senhor parece não aprovar a escolha...Pinho Achei que foi uma indicação absolutamente fora de propósito. Sem demérito ao diplomata, mas acho que ele não tem traquejo. Tirou-se o Alcides Tápias por absoluta falta de bom-senso, se tirou uma máquina de produzir resultados, que foi vice-presidente do Bradesco que sob a gestão dele teve um dos períodos mais produtivos para a empresa em termos de lucro e participação no mercado, e se colocou um diplomata de carreira.
Pergunto, que compromisso ele tem com o País de produzir alguma coisa, se ele não é do meio? Se fracassar, vai estar totalmente desculpado, pois não é do meio e foi colocado lá como pára-quedista. O Tápias saiu porque cansou de conversar com gente surda. Ficou muito claro isso.
JC Como o senhor vê o cenário econômico argentino?Pinho A Argentina virou prisioneira daquele sistema de caixa de conversão que em inglês é chamado de courency board, que não é uma dolarização total da economia, ou seja, existem duas moedas, o peso argentino e o dólar, como de curso corrente, que têm uma equivalência de um para um. Teoricamente, isso deveria dar certo. Só que existe uma série de problemas em se utilizar uma moeda de um país desenvolvido (Estados Unidos), num país emergente ou dito subdesenvolvido, entre os quais a perda da capacidade de fazer política monetária - quando se perde o controle de sobre a taxa de juros.
O sistema de caixa de conversão, e esse é o calcanhar de Aquiles dos argentinos, precisa para seu funcionamento de uma condição indispensável, que é a manutenção de um nível de reservas cambiais alto. Se o país usa suas reservas internacionais como parte do meio circulante, teoricamente, tem que ter um montante de reservas superior, e muito, à sua base monetária.
JC Mas, se isso não ocorrer?Pinho - Se isso não ocorrer, quando tiver que fazer um grande pagamento externo ou houver uma corrida aos depósitos, como está acontecendo na Argentina, das pessoas que têm peso na mão quererem trocar por dólares, porque existe a lei da livre conversibilidade, começa a faltar dólares para os compromissos internacionais.
A partir dessa falta de dólares, o risco de default risco de inadimplência é muito alto.
JC Mas, não deveria funcionar muito bem esse sistema? Pinho É um sistema que deveria funcionar bem se o sistema de manutenção de reservas fosse de tranqüilidade. Mas, numa situação que existe uma grande desconfiança, tanto nacional quanto internacional na capacidade ou incapacidade do Governo honrar os compromissos, tanto internamente quando externamente, não há como manter uma grande quantidade de reservas em moeda estrangeira para fazer lastro ao courency board. Então, esse é o calcanhar de Aquiles do sistema. Deveria funcionar se o país (Argentina) fosse confiável.
JC O senhor acredita, então, que a paridade deve ser quebrada logo?Pinho É só uma questão de tempo. Só há duas formas de sair do sistema de courency board institucional e reconhecimento pelo mercado de que não há paridade -, e as duas são catastróficas. Quando a lei da conversibilidade foi colocada pelo Domingo Cavallo, no governo de Carlos Menem, havia garantia constitucional de que qualquer cidadão ou estrangeiro que tivesse pesos poderia converter para dólares, ou vice-versa. Então, muitas pessoas que tinham a moeda argentina resolveram fazer a conversão para a moeda norte-americana e deixaram o dinheiro aplicado nos bancos. Assim, o governo começou, também, a se endividar em dólares, pois começou a tomar esses recursos que foram depositados em dólar.
Então, o Governo tem receitas em dólar, mas também tem despesas em dólar. O problema é que a quantidade de despesas em dólar é muito maior do que as receitas na moeda norte-americana. Muitas províncias argentinas recebem impostos em pesos, mas têm compromissos externos em dólares. A conta não fecha.
Hoje, existe uma estimativa do Banco Central argentino de que, basicamente, 94% da dívida pública daquele país está dólar, enquanto 96% dos depósitos privados em bancos também estão em dólares. A iniciativa privada tem um montante de dívidas equivalente a 86% em dólar.
JC O que pode provocar esse quadro?Pinho Pode acontecer uma quebradeira em massa. Se o Governo não vai pagar ninguém, também não vai receber de ninguém. O que sobra? Se tenho iniciativa privada quebrada e Governo quebrado, não tem mais saída, porque quem vai pagar quem? Ou vai haver uma moratória interna e, depois, uma externa, uma tentativa de acordo, porque é um jogo não vai haver ganhador ou perdedor, vão morrer todos. Não há como! A quebra da paridade ou vai ser feita via institucional, por imposição, como já ocorreu no Brasil com a URV (Unidade de Valor Referencial implantada pelo governo Itamar Franco para converter a moeda para o real) ou, então, pelo simples reconhecimento do mercado que a paridade foi quebrada, independente do Governo dizer, ou não, pela simples observação do montante de reservas internacionais versus o montante de pesos que deveriam lastrear essas reservas.
JC Qual seria o lastro ideal?Pinho Se tenho uma base monetária de US$ 30 bilhões em pesos e um montante de reservas de US$ 20 bilhões em moeda americana, a paridade está quebrada. A teoria econômica do courency board coloca como número confortável um montante de reservas de 20% a 30% maior do que a base do mercado.
JC A Argentina tem quanto?Pinho - A Argentina tem hoje 10% a 12%, o que é um perigo. Porque 10% para quem está com U$S 25 bilhões é nada, é só US$ 2,5 bilhões.
Os US$ 8 bilhões que estão para ser aportados lá pelo FMI não vão servir para nada, US$ 2,5 bilhões significam muito para eles. Uma perda de reservas nessa ordem pode quebrar o sistema de paridade. Com US$ 8 bilhões não vão conseguir repor o sistema de paridade, porque os credores podem não aceitar uma situação assim.
JC Tem saída para isso?Pinho O tão combatido e competente Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, já dizia que não há final feliz para saída do courency board, não existe na história do capitalismo mundial saída feliz.
JC Então, é só questão de tempo para quebrar a paridade?Pinho Não sou catastrofista, mas é um problema técnico de um lado e puramente emocional de outro, pois depende da confiança. O Brasil está muito atrelado a isso, hoje. Dentro de um contexto internacional, há alguns anos, se acontecesse uma crise como essa da Argentina, o impacto seria muito menor.
Atualmente, apesar do Brasil estar muito melhor do que a Argentina está sofrendo muito mais.
JC Quais os reflexos para o Brasil dessa quebra do courency board na Argentina?Pinho Não temos variáveis macroeconômica muito concretas para analisar. Basicamente, o mal maior de uma quebra do sistema de caixa de conversão naquele pais, não vai ser a inadimplência de importador argentino. Os grandes problemas já estão acontecendo, que é o encarecimento de linhas de crédito para o Brasil, tanto para iniciativa privada quanto para o Governo Federal e a alteração do risco (rating) pelas grandes agências classificadoras, pois o risco Argentina é incorporado ao risco Brasil. Isso é muito lógico para os investidores internacionais.
JC Como assim?Pinho Existe uma mística de que o Brasil é um mercado muito importante no mundo. É, na América Latina. Mas, em termos de mundo, não é. A participação no comércio internacional é de 0,4% ou 0,5% do montante mundial transacionado. É muito pouco. Então, não podemos querer, com a massa de comércio exterior que temos, achar que somos mais importantes do que o rei.
JC O que mais influencia?Pinho Aos olhos do mercado internacional, existe hoje uma outra coisa que preocupa bastante, em termos políticos, que é a continuidade. Esse governo tem mais um ano e meio pela frente e muito do que foi prometido não foi feito. Simplesmente está colocando anabolizantes nos braços da oposição, que está sendo fortalecida, porque as coisas não andaram. Existe um grande mérito da equipe do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), mas se vendeu muita ilusão, para um prazo de tempo que só Jesus Cristo poderia fazer alguma coisa. Ficou esse viés, esse gosto de fim de festa muito ruim. Não é a preocupação do que vai acontecer com o Brasil aqui dentro, mas o que um possível governante que tenha um viés antimercado vai fazer se houver problema daqui a dois ou três anos. Vai fechar o mercado? Vai virar uma Albânia?
E, você vê, hoje, dentro da oposição, as propostas são para lá risíveis. Sem tirar os problemas e asneiras que vêm acontecendo no Brasil, como a reforma tributária que não sai, as classes sociais menos favorecidas continuam apanhando sem ter culpa nenhuma, o contribuinte é sempre chamado a pagar uma conta que não fez, entre outras coisas. Então, um sujeito que está em Nova York ou na Europa não consegue saber o que está acontecendo dentro do Brasil que pode ser atribuído ao Governo brasileiro e o que pode ser atribuído ao que está acontecendo na Argentina. Não temos o direito de exigir isso dele.
JC O quadro é complicado...Pinho E, tem mais um agravante. O presidente dos Estados Unidos, George W. Busch, ao contrário de seu antecessor, Bill Clinton, não quer nem ouvir falar em capitalizar o FMI para que o Fundo possa ter mais caixa para fazer frente a problemas de distúrbios financeiros, corridas a bancos e coisas desse tipo, como socorro a países que não fizeram sua lição de casa.
Isso é bom porque vai acabar com aquela história do vamos deixar quebrar porque o FMI socorre e tiramos o nosso de lá. Não vejo vontade do governo norte-americano em ajudar. Até agora, não vi talão de cheques em cima da mesa. Fala em conversar, que precisa melhorar, mas, dinheiro, eu não vi até agora. É bem provável que, se vier, venha a conta-gotas. E, a conta-gotas, o dinheiro não servirá para nada para a Argentina.
Porém, por pior que seja a bobagem que possa acontecer na Argentina, por pior que seja o desfecho, não vai chegar a afetar o Brasil ao ponto de termos uma catástrofe econômica.