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Mães, filhos e namorados

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Ela é mãe, mas não tem mais nenhum vínculo afetivo com o pai do seu filho. Um dia se interessa por outro homem, solteiro e sem filhos. Os dois começam a namorar. A situação descrita é cada vez mais comum atualmente, quando os casamentos já não duram mais como no passado e os filhos nem sempre vêm planejados como fruto de uma união estável. Mas apesar de comum, raramente uma relação assim não gera conflitos ou dúvidas sobre como as partes podem e devem se relacionar. As perguntas são muitas, por exemplo: como a mãe deve apresentar o namorado ao filho? A criança deve ser incentivada a ver o novo namorado da mãe como um substituto do pai? E o namorado, que não tinha planos de ser pai tão cedo, como deve tratar o filho da namorada?

Na opinião da psicóloga Maria Regina Côrrea Lopes Vanin, a situação é delicada e exige muita maturidade dos adultos para que nenhuma das partes, principalmente a criança, saia magoada. A mãe deve pensar muito em que tipo de pessoa ela vai escolher para colocar na sua vida e na vida do seu filho, não pode ser um homem imaturo. A relação tem que valer a pena, afirma. A primeira prova de maturidade que o namorado pode dar é não entrar em conflito com a criança por causa do tempo que ela exige da mãe. Ou seja, não começar a competir com o filho por causa da mãe, já que a mulher, apesar de ser sua namorada, não pode deixar de atender as necessidades do filho, mesmo que isso lhe tome muito tempo. Ele tem que ser bem-resolvido o suficiente para perceber isso e saber respeitar, diz a psicóloga.

Mas isso nem sempre acontece. Existem homens que entram em relacionamentos como esse e já começam a interagir como se fossem o pai da criança, lembra o psicólogo José Luís Cremonesi. Tudo depende de que tipo de homem ele é, por isso a escolha da mãe é importante.

Toda a delicadeza dessa situação, para Maria Regina Vanin, tem até explicações culturais. Ainda existe um certo preconceito em relação as mulheres solteiras com filhos, diz. Não é uma situação fácil para a mãe dizer para um futuro pretendente que tem um filho. Às vezes, quando a mulher apresenta o filho logo de cara para o namorado, ele assusta, diz José Luís Cremonesi. O choque até se justifica porque, em grande parte dos casos, o namorado ainda não está preparado para se tornar pai, mesmo que por substituição. O pai natural está acostumado com o filho desde que ele é pequeno, o viu crescer. O namorado, logo que conhece a criança, ainda não tem um laço afetivo, ainda não sabe como desempenhar o papel de pai, explica a psicóloga.

Distância

Segundo José Luís Cremonesi, o ideal, quando uma mulher que já tem um filho encontra um novo namorado, é não forçar uma aproximação de ambos logo no início da relação. Ao contrário, ele recomenda até uma certa distância no começo. O motivo é a segurança da criança, com certeza a parte mais frágil na história. A criança pode começar a pegar vínculos com namorado da mãe. Se o namoro acaba, ela vai ter problemas. Por isso seria interessante que não houvesse muito envolvimento enquanto a relação não se consolidasse de verdade, diz. Isso quer dizer que não existe um prazo para que essa convivência seja estabelecida. Criar um vínculo afetivo exige tempo, um namoro sério exige tempo, lembra o psicólogo.

A preocupação com as emoções da criança devem ser ainda maiores se ela for pequena, tiver menos de 3 anos, afirma José Luís Cremonesi. Quanto menor for a criança, mais a relação dela com o namorado da mãe vai ser importante, diz. Por isso uma troca constante de namorados por parte da mãe seria prejudicial para o filho. Até os 3 anos, a criança está formando a base da sua personalidade e isso prossegue, mais ou menos, até os 7 anos. Tudo o que acontece nessa fase fica marcado para ela. Quando o filho é mais velho, os problemas são menores mas a escolha da mãe não deixa de ser importante. Por isso, a aposta de que as crianças de hoje são mais espertas e aceitam melhores as mudanças à sua volta nem sempre valem.

Cremonesi lembra que o que interessa é o que a criança acha do namorado da mãe, o seu sentimento. Se ele o acha um chato, talvez não se incomode se a mãe terminar o relacionamento, por outro lado, se ele for o pai que a criança sempre quis, ela vai sofrer muito, afirma. Um detalhe importante, segundo o psicólogo, é que a mãe nunca tente transformar o novo namorado em pai do seu filho. Ela deve deixar sempre muito claro quem é quem e dizer que aquele homem é o namorado dela e que a criança tem um pai biológico, explica. Isso impede que a criança comece a confundir os dois e até a causar algum mal-estar rejeitando o próprio pai por preferir o namorado da mãe, por exemplo. O pai biológico sempre continuará a ser o pai da criança, mesmo que ela veja essa figura em outra pessoa e quando separa bem essa condição, a mãe determina quem é que vai fazer papel de que na história.

Situação gratificante

Para Maria Regina Vanin, nos casos nos quais o homem consegue se relacionar bem com o filho da namorada é possível que ele descubra o quanto pode amar uma criança mesmo sem ser pai dela. É uma grande descoberta quando ele percebe que não precisa ter o mesmo sangue para amar uma pessoa, quando isso acontece é gratificante para todo mundo, diz. A partir desse momento de aceitação mútua, a relação pai-filho pode se estabelecer da mesma maneira que acontece quando há um laço biológico entre os dois. Vai ser normal perder a paciência de vez em quando, por exemplo, mas isso acontece com todo mundo, mesmo com os pais de verdade. O importante é ser sincero com os seus sentimentos, define a psicóloga.

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