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O verdadeiro ensino religioso nas escolas

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

(*)Especial para o JC Cultura

Na grande maioria dos países europeus religião é assunto para pessoas da terceira idade. É impressionante ver nas missas ou nos cultos dominicais a grande minoria de jovens que desejam reunir-se com uma comunidade e celebrar o Deus da Vida. Os jovens europeus não são ateus, mas possuem uma forte aversão à religião institucionalizada.

O primeiro e talvez o único contato que possuem com o tema religião é através da escola. Na Alemanha, por exemplo, os alunos podem optar pelas disciplinas religião ou ética. Os professores são pagos pelo Estado, oferecidos pelas igrejas e formados por uma Faculdade de Teologia. Apesar do excelente trabalho que desenvolvem, muitos aposentam-se com a frustração de ver seus ex-alunos distantes de qualquer pratica religiosa.

O fenômeno religioso, ou seja, a força interior que nos leva à transcender e a nos realizarmos como pessoa, apesar de possuir um caráter íntimo e particular, pode ser vivido de uma forma coletiva. À esta damos o nome de religião. Através da religião pertencemos a uma comunidade de fé que, através de doutrina, normas e culto procura viver de forma coletiva o religio. Cada religião possui sua visão sobre este Ser Superior que chamamos de Deus. Desta visão surge uma ética que deve ser aplicada na vida em sociedade.

Como as visões sobre Deus são diferentes, as éticas também não são iguais. Portanto, é difícil fazer uma afirmação sobre a religião. Dizer, por exemplo, que religião evita a violência é sinal de ignorância histórica. Basta olharmos o conflito entre árabes e judeus ou entre católicos e protestantes na Irlanda.

O problema, na verdade, está na imagem que os religiosos possuem de Deus e nos princípios éticos que surgem de sua fé.

Em uma sociedade pluralista, cada ser humano possui o direito de viver livremente aquilo que acredita. As diversas religiões possuem liberdade de expressão podendo manter até mesmo escolas confessionais nas quais sua doutrina religiosa é integrada à educação dos jovens e crianças.

Neste contexto democrático as escolas públicas devem também respeitar a fé de seus alunos e professores. Porém, tornar a religião disciplina em uma escola pública pode ser o início do desrespeito à liberdade religiosa. Este perigo encontra-se principalmente no chamado ensino religioso não confessional. Neste os alunos devem tomar conhecimento das diversas formas de religião.

O problema é que neutralidade é ilusão. Imaginemos um judeu apresentando o cristianismo ou um cristão evangélico explicando os diversos orixás do Candomblé. Sem dúvida alguma o ensino religioso não confessional pode limitar-se à reflexão sobre direitos humanos, respeito ao outro, solidariedade, sem entrar nas particularidades das diversas religiões.

Neste caso, porém, é preferível a criação da disciplina ética, pois não precisamos falar em Deus para sermos cidadãos honestos. Em se tratando do ensino religioso confessional os problemas não desaparecem. Aqui a questão sobre o conteúdo é resolvida, mas surge o problema da forma como a doutrina religiosa é mediada.

Ao lado da Língua Portuguesa, Matemática, História, a religião torna-se disciplina. Religião, porém, não é conhecimento teórico, mas experiência de vida. Basta lembrarmos da disciplina de Educação Moral e Cívica imposta pela Ditadura Militar que, ao invés de cultivar o amor pelo nosso país, tornou-se mais uma disciplina a ser decorada para a prova.

Se o ensino religioso nas escolas públicas é problemático do ponto de vista religioso, ele não é um tema pacífico para o próprio sistema educacional. Ao ser introduzido, o ensino religioso deverá provocar uma nova alteração na grade curricular. A última alteração já foi bastante infeliz com a diminuindo das aulas de História, Geografia, Educação Artística e Biologia.

Hoje um professor de História, por exemplo, precisa cumprir o seu programa com três aulas no diurno e somente duas aulas no noturno. Não é de se admirar que a escola pública não está conseguindo preparar o aluno para o vestibular, o que faz com que a universidade continue a ser em nosso país um privilégio de poucos.

Seria muito mais produtivo para os nossos jovens se refletíssemos melhor sobre a chamada promoção progressiva, uma política educacional que cumpre a clara função de diminuir - somente no papel - a reprovação no ensino fundamental e médio. Acredito que seria muito mais religioso se os representantes das diversas religiões reunissem-se nas portas das Delegacias de Ensino exigindo melhores salários para os professores, um número maior de aulas por disciplina, melhores bibliotecas e uma ótima estrutura física para nossas escolas. Afinal, nem todo aquele que diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus... (Mt. 7, 21).

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

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