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Sucesso dos carros começa pelo nome

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 7 min

Muito mais que o design e sua característica mecânica, o nome de um automóvel é o primeiro passo para sua venda decolar no mercado

À primeira vista, dar o nome a um veículo pode parecer uma tarefa simples, daquelas que qualquer um seria capaz. Entretanto, para as montadoras, batizar um novo modelo de automóvel é algo considerado muito complexo. A preocupação se justifica quando entram em cena os milhões de dólares injetados pelos fabricantes no desenvolvimento e lançamento de um carro. Nada poderia ser mais trágico para uma Fiat, Ford, Volkswagen ou General Motors do que condenar um projeto ao fracasso total de vendas ocasionado pelo emprego de uma denominação inadequada ou geradora de apelidos e brincadeiras capiciosas.

Exemplo disso foi o Nova, da General Motors dos Estados Unidos, quando a montadora decidiu exportá-lo para o México. Separadas as sílabas, o nome era lido como no va, que em espanhol significa não vai, isto é, não tem força. O SP-2, lançado pela Volkswagen nos anos 70, também foi outro alvo de piadas. O fraco desempenho levou o público a traduzir a sigla não como Sport-Protótipo, mas como Sem Potência. A Ford também teve de enfrentar surpresas desagradáveis provocadas pelo surgimento, em 1989, do Verona. Um jornalista chegou a ironizar que o nome sugeria sapatão, isto é, um aumentativo de Vera.

Parati foi um dos nomes descartados pela General Motors para batizar a Marajó. Entre os motivos alegados para abandonar o nome, um deles foi que para alguns chegava a lembrar pinga. A mesma Parati quase foi lançada como Angra, nome deixado de lado pela possível associação com a usina nuclear, com algo que pode explodir. Na mesma linha das associações perigosas, a General Motors temeu que o Ascona, nome utilizado pelo Monza na Europa, sugerisse asco aos brasileiros. Da mesma forma, o Kadett nacional quase deu lugar ao Astra, nome usado na versão inglesa da época que foi deixado de escanteio quando se constatou ser uma marca de acessórios sanitários. A Kia, depois de correr o risco de manter no Brasil o nome Besta, optou por chamar de Clarus o sedã que é vendido no exterior como Credus.

Complexidade

A tarefa de escolher o nome para um automóvel mobiliza o trabalho de um verdadeiro batalhão nas montadoras. Os meios para se chegar àquele que será o definitivo começam pelas enciclopédias e pesquisas de opinião com os consumidores. Além disso, também são realizados estudos junto a registros de patentes e análises de marketing. As dificuldades são tão grandes que os fabricantes chegam a utilizar os serviços de profissionais especializados no setor, como o alemão Manfred Gotta, responsável pela criação do nome Vectra, que significa vetor.

Segundo Carlos Henrique Ferreira, assessor de comunicação da Fiat, o nome de um automóvel tem tudo a ver com o seu estilo. Nomes curtos, como Uno e Palio, se associam a veículos pequenos. Já os mais longos estão relacionados a carros maiores, como o Marea, por exemplo, revela ele, para depois acrescentar:

Para se chegar a eles, várias pesquisas de opinião são efetuadas. O nome ideal reúne características como a fácil pronúncia e a rápida assimilação pelo público. Além disso, deve-se levar em consideração a economia globalizada e as perspectivas de atuação das montadoras em vários mercados.

Célio Galvão, responsável pela imprensa da Ford, segue a mesma linha de raciocínio de Ferreira. Ele ressalta que a montadora leva em consideração, primeiramente, nomes que apresentem boa sonoridade. O início do processo de escolha dá-se a partir de uma lista de milhares de nomes, acondicionada em computadores, com boa sonoridade em várias regiões e países, explica o assessor.

Na sequência, complementa Galvão, são realizadas as chamadas clínicas, ou seja, pesquisas de opiniões junto aos consumidores, que são fundamentais na hora da decisão. Como o próprio nome já diz, o Focus, por exemplo, foi idealizado especificamente com o foco no consumidor. Dai a origem de seu nome, diz ele.

Segundo a GM, todos os nomes escolhidos pela montadora são pesquisados. Para isso, é feita uma pesquisa de mercado para analisar se o nome tem aceitação do público e se são facilmente lembrados, declara a assessoria da General Motors.

Inspirações

Na busca pelo nome que irá marcar para sempre a identidade de cada carro, as montadoras se inspiram nos mais variados temas.

A Fiat apoiou-se em uma tradição medieval para batizar o Palio, líder de vendas da marca. Uma disputa entre cavalos, que se originou durante a Idade Média e realizada até hoje em cidades italianas, é a base do nome. Nela, cavaleiros defendem brasões de famílias tradicionais, que participam regularmente da competição. Ao final, o vencedor leva como prêmio um estandarte chamado de Palio, garantindo à família que ele defendeu o direito de ostentá-lo até a promoção da disputa do próximo ano, conta o assessor de imprensa da Fiat. E continua:

Não foi por acaso que outro lançamento da Fiat levou o nome de Siena, pois é nesta cidade italiana onde acontece o mais tradicional Palio do país.

O exemplo da preocupação dos fabricantes em colocarem seus produtos em diferentes mercados está no Ford Mondeo, cujo nome significa mundo. Ele é considerado um carro mundial, produzido em vários países sob a mesma plataforma, explica Galvão.

Há também os nomes ligados à astrologia, astronomia e à mitologia. São os casos do Astra, Mercury, Taurus, Polara e Eclipse, referentes às duas primeiras, e o Apollo, deus grego da beleza, Clio, uma de suas musas, e o Ka, um deus egípcio. A Volkswagen usou vários nomes ligados a esportes: Polo, Golf e o clássico Gol. Também batizou diversos modelos com nomes de ventos: Scirocco (vento do deserto), Passat (sopra no norte da Europa) e Santana (um vento quente da Califórnia).

Aproveitando a onda nacionalista que tomou conta do país nas décadas de 60 e 70, a Volkswagen aproveitou para lançar carros que se identificassem com as raízes brasileiras, como a Brasília.

Já os Honda têm ligação com a música: Accord, Prelude, Concerto. A italiana Lancia prefere letras do alfabeto grego, como Beta, Delta, Kappa ou Zeta, assim como a GM fez com o Omega.

Nomes de lugares são comuns: Monza, Parati, Interlagos (esportivo da Willys), Brasília, Verona, Ipanema, Versailles, Monte Carlo (da GM americana), Pampa, Marajó, Elba, Dakota, além dos Seat Marbella, Ibiza, Cordoba e Toledo.

Animais sempre são lembrados, como o Viper (víbora); Jaguar; Miúra (touro feroz); Cobra, da AC inglesa; Impala (mamífero africano), da GM; Colt (potro), da Mitsubishi; e Puma. A Ford adotou vários deles: Mustang, Corcel, Falcon e Cougar (puma).

Há espaço para nomes de armas, como Dart (dardo), da Dodge; Tracer (uma bala luminosa), da Mercury; ou LeSabre, da Buick. De aviões, como Stealth (o caça invisível aos radares), Mirage ou Concorde, todos da Chrysler. De embarcações, como Saveiro, da VW, e Jangada, da Simca. E militares, como Kadett e Kapitan, da Opel; Patrol, da Nissan; Trooper, da Isuzu; ou Ranger (soldado de tropa de choque), da Ford.

Há nomes aristocráticos, como Del Rey, da Ford; Diplomata, da GM; Prince (príncipe), da Daewoo; Crown (coroa), da Toyota; Consul, da Ford; Imperial, da Chrysler; e Itamaraty, da Willys. Indígenas, como Carajás e Xavante, da Gurgel; Cherokee, da Jeep; e Pontiac (chefe de uma tribo americana, neste caso denominando toda uma marca e não apenas um modelo).

Os esportivos expressam agressividade: Prowler (o que fica à espreita), da Plymouth; Talon (garra), da Eagle; Diablo, da Lamborghini; Syclone e Storm (tempestade), da GM.

Já num utilitário deve-se evocar aventura, como os nomes em inglês Explorer e Expedition, da Ford; Discovery (descobrimento), da Land Rover; Montaineer (alpinista) e Villager (habitante de aldeia), ambos da Mercury; e Pathfinder (o que acha o caminho), da Nissan.

A Opel usava Kadett em seu modelo médio desde antes da Segunda Guerra, quando convinha homenagear os militares na Alemanha.

Civic, da Honda, e Corolla, da Toyota, vêm desde os anos 60. E a Ford européia ressuscitou nomes de antigos modelos norte-americanos para denominar o van Galaxy - com pequena alteração na grafia - e o utilitário Maverick.

Muitas marcas optam por siglas, números e códigos para identificar seus modelos. É assim com Mercedes, BMW, Ferrari, Audi, Peugeot e Saab, entre outras. Isso poupa tempo e dinheiro, mas não evita problemas: a Alfa Romeo teve de rebatizar o 164 para vendê-lo em Cingapura, pois na numerologia local 164 significa morte no decorrer de uma viagem. Trocou o número por 168, que indica prosperidade durante toda a viagem.

Outra tendência é a de palavras geradas em computador, sem significado, como Jetta (Golf nos EUA) e Lexus (divisão de luxo da Toyota).

Fontes: (Fabrício Samahá - editor do Best Cars Web Site - e assessorias de imprensa da Volkswagen, Ford, GM e Fiat)

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