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Agentes tornam-se amigos dos assistidos

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 6 min

Inicialmente, eles sofreram resistência, mas a relação estabelecida hoje entre agentes de saúde e pacientes é de plena confiabilidade. Assistidos duvidavam da boa-fé gratuita.

Quando iniciaram as visitas domiciliares, há mais de um ano, os 22 agentes comunitários de saúde que atuam no Parque Jaraguá e Jardim Godoy enfrentaram resistências de toda a espécie. Ou eram comparados aos agentes vetores - aqueles que de vez em quando batem à porta para o controle da dengue - ou confundidos com assessores de políticos em busca de votos mediante oferta de vantagens. Hoje, no entanto, são considerados amigos dos assistidos, quando não promovidos a membros da família.

No Jardim Godoy, onde o PAC detectou uma quantidade expressiva de moradores idosos vivendo sozinhos ou em famílias com poucas condições financeiras, os agentes chegam a ser chamados de filhos. Na prática, o papel que vêm desempenhando é esse mesmo: o do filho que auxilia, conforta e dá atenção. Já no Jaraguá, onde o trabalho tem-se concentrado junto às mães e aos adolescentes, as agentes comunitárias (todas são mulheres) são vistas como amigas.

Quando batem à porta, os agentes são recebidos com largos sorrisos, beijos carinhosos no rosto e cumprimentos que deixam clara a intimidade existente na relação. Achei que você viesse ontem, Você me deu um balão, hein? ou Você não sabe o que aconteceu! foram algumas frases pinçadas no início de algumas das visitas domiciliares que o JC nos Bairros acompanhou. Posteriormente, nos diálogos, mais mostras dos laços estabelecidos, principalmente com os assistidos contando novidades sobre os parentes - tudo pelo nome.

A relação de confiança, por sinal, é imprescindível para o sucesso do programa, pois é com base nela que os agentes conseguem persuadir os assistidos a procurarem os núcleos de saúde de forma preventiva e manter a saúde em dia. Foi assim, por exemplo, que o agente Samuel Crispim da Silva, 21 anos, convenceu a dona de casa Odila Pires Campos, de 63 anos, a retomar os tratamentos contra o diabete e hipertensão no núcleo de saúde do Jardim Godoy. Ela foi vítima de um AVC (acidente vascular cerebral) e o quadro de saúde estava ruim mesmo. Quase sem enxergar e dependendo de cadeira de rodas, ela havia abandonado os tratamentos. Hoje é diferente. As doenças são periodicamente controladas e, quando necessário, providencio agendamento para ela ser atendida no núcleo, conta Silva, um dos maiores entusiastas do programa.

Com a saúde sob controle, as visitas do agente à casa de dona Odila cumprem mais um ritual de amizade do que um frio cronograma prestabelecido. Ele consegue tirar a gente da angústia e faz parte da família. Tenho parente que não é tão próximo que nem ele. Antes, eu era relaxada com a saúde porque não tinha orientação, mas agora faço tudo que nem ele diz, declarou Odila.

Na verdade, as visitas são mensais, mas eu sempre acabo dando uma passadinha aqui e ali para ver como o pessoal está passando. Se passo reto, eles reclamam de eu não ter entrado. Na verdade, muitos não sofrem de doença, mas de falta de atenção. Eu conheço um monte de pessoas que sofrem de problemas emocionais. Então, ouvir o que eles têm a dizer ou falar uma palavra amiga resolvem mais do que qualquer remédio. É uma coisa que eles só têm com os agentes, porque os médicos que atendem no núcleo não costumam dar esse tipo de atenção. Uma vez, tinha uma mulher que havia perdido a mãe e dizia estar tendo visões com a finada. Se tivesse procurado um médico, talvez estivesse até hoje sendo tratada com calmantes, mas, nesse caso, um pouco de psicologia foi o suficiente. Sabia que ela era muito religiosa e fiz com que usasse a própria fé para afastar as tais visões. Funcionou e ela está ótima até hoje, testemunhou.

A conversa também é a base das visitas que Silva faz à aposentada Corina Maria de Jesus Arruda, 75 anos. Com uma firmeza e lucidez de causar inveja, a setuagenária é quem parece ter cativado o agente. Ela é ótima, define ele. Na verdade, o alvo inicial de Silva era Geraldina, irmã de dona Corina, e vítima de uma grave úlcera na perna. Quando o programa começou, o agente descobriu a idosa em situação de abandono, com a ferida quase separando a perna do pé. Ela não tinha condições de andar, mas se negava a receber tratamento. Com muito esforço, a convenci e passei a fazer eu próprio, junto com outra agente que faz curso de enfermagem, os curativos nela. A úlcera regrediu, mas, por outros motivos, ela morreu. Já a dona Corina goza de uma saúde perfeita, mas eu continuou fazendo as visitas, tanto porque um dia ela pode precisar quanto porque me sinto gratificado ao ouvir as histórias que ela tem para contar. Sei que isso faz bem para ela, afirma o agente.

Confidentes

A conversa amiga também se faz presente entre agentes de saúde e famílias cadastradas do Parque Jaraguá. Por trabalharem com uma população mais jovem, os agentes do bairro têm uma relação mais de amizade e chegam à condição de ouvintes confidentes. No começo, não passávamos do portão, mas hoje somos recebidos com alegria dentro das casas, conta Aparecida Oliveira, 38 anos, que demonstra intimidade até mesmo com os animais das residências pelas quais é responsável. O pessoal daqui é muito desconfiado e demorou para acreditar que nossa missão era gratuita. Hoje em dia, aliás, quem é que não desconfia de alguém que aparece na porta de sua casa oferecendo ajuda? Éramos muito confundidas com assessores de políticos que oferecem cesta básica, remédios e outras vantagens materiais. Para falar a verdade, muita gente fechou a porta para nós quando descobriu que não tínhamos coisas para oferecer. Hoje é muito diferente. Quando passamos nas ruas, as crianças nos apontam, ficam contentes com a nossa presença, descreve.

Foi a relação de confiabilidade que fez a dona de casa Tereza Paulino Henrique, 34 anos, aceitar as orientações da agente. Depois que eu tive os gêmeos, nunca mais tinha ido ao ginecologista. Foram as agentes que me conscientizaram dessa necessidade e hoje faço regularmente os exames preventivos, contou.

Embora pareça fácil, o trabalho dos agentes comunitários de saúde exige uma determinação muito grande, além de uma superdose de paciência. A gente tem que estar disposto a ouvir essas pessoas, a se comprometer verdadeiramente com elas. Não é uma atividade burocrática, na qual o cumprimento de técnicas e horários. Antes de qualquer coisa, é preciso estar profundamente comprometido com o papel de cidadão. Eu me sinto extremamente gratificada quando vejo que fiz bem a uma pessoa. Acho que tenho vocação para isso, confessa Aparecida, que abriu mão da vaga conquistada no serviço público municipal para dedicar-se ao programa, cujas contratações são temporárias e passíveis de não-renovação. Os salários dos agentes, incluindo benefícios adicionais e as garantias trabalhista, não chegam a R$ 450,00.

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