Racha automobilístico em plena luz do dia, seqüestros e pichações a bens coletivos indicam que parâmetros sociais se perderam.
São Paulo, 30 de agosto: depois de seqüestrar Patrícia Abravanel, matar dois policiais e protagonizar fuga espetacular, o seqüestrador Fernando Dutra Pinto, 22 anos, permanece por sete horas na casa de Sílvio Santos, até negociar sua rendição à polícia. Bauru, 2 de setembro: dois jovens, em dois carros, disputam o que suspeitou ser um racha na avenida Getúlio Vargas, o qual resulta em um acidente com duas vítimas graves, que trafegavam em uma moto.
Embora tenham sido registradas em cidades diferentes, as duas ocorrências trazem em comum traços de ousadia e ausência de temor à autoridade. Os casos, afirmam pesquisadores e policiais ouvidos pelo JC, não são isolados e refletem a falta de parâmetros em que a sociedade brasileira está inserida atualmente.
Nós estamos numa sociedade cuja cultura é a do sem-limites, no qual o prazer vira adrenalina, tudo é o máximo, é o extremo. Perdendo as fronteiras, o resultado é a confusão entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, e tudo é justificado: se rouba para dar cesta básica e a religião se mistura com a violência, observa o filósofo Clodoaldo Meneghello Cardoso, professor de Filosofia e Ética do curso de Comunicação Social e coordenador do Núcleo pela Tolerância da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Bauru.
Em uma sociedade de extremos, afirma Cardoso, qualquer situação se torna motivo para superar limites. De maneira sucessiva, essa superação leva ao esquecimento dos parâmetros e, conseqüentemente, autoridade, ética e dignidade humana são deixadas de lado. E é neste ponto que a sociedade brasileira se encontra.
A inversão de valores, aponta a psicóloga Vera da Rocha Resende, professora do curso de Psicologia, é resultado de um caldeirão cujos ingredientes incluem desemprego, desigualdades social, corrupção, desrespeito à infância e queda da autoridade, seja institucional ou familiar. Há uma perda muito grande da esperança e quanto mais as pessoas ficam sem expectativa mais elas se desesperam, afirma.
O desespero contribui para a perda de referências, como o de estudar e trabalhar motivado por amor, por afeto. Em vez de paixão, as pessoas trabalham simplesmente por dinheiro. Na medida que isso se perdeu, há 20, 30 anos, a educação foi sendo solapada e, em seu lugar, nas escolas, o valor repassado foi o da competição pura e simples. A mídia está no meio disso como um componente a mais que, computado, colabora para que haja uma explosão de violência, sintetiza a psicóloga Vera, coordenadora do Núcleo de Atenção à Infância e à Adolescência do Centro de Psicologia Aplicada (CPA), da Unesp de Bauru.
O delegado seccional de Bauru, Antônio Ângelo Ciocca, não atribui o perfil atrevido da violência atual ao desrespeito da autoridade, mas a problemas culturais e falhas na legislação. O dia em que a pichação, por exemplo, se tornar um crime mais grave, as pessoas vão pensar duas vezes antes de pichar um bem público ou uma propriedade particular, aposta.
Para o coronel Eliseu Eclair Teixeira Borges, comandante do 4.º Batalhão Policial Militar do Interior (4.º BPM I), a legislação brasileira já está evoluindo, o que dá mais alento à sociedade. A pior coisa para a sociedade é o sentimento de impunidade. Se isto imperar, de nada adianta uma superpolícia, um monte de policiais, mas acho que estamos evoluindo e no caminho certo, avalia.
Na opinião do comandante Eclair, o aumento de ocorrências ousadamente violentas é reflexo de uma fase de ajustes. Penso que a sociedade brasileira passa por um momento que não avalio como negativo, mas oportuno, de descoberta de seus direitos, que inclui saber até onde as autoridades podem ir, qual é o limite de cada uma delas. Para que haja esse processo, nós temos o excesso, que é e será coibido pela lei e deve envolver, também, a família, sustenta.
Quebra de parâmetros começou nos anos 50
Até os anos 50, os parâmetros sociais eram impostos por meio da autoridade e funcionavam tanto como modelos de comportamento como de repressão. Essa construção, no entanto, começou a ruir quando o poder de decisão passou aos jovens.
A quebra desses parâmetros foi interessante porque os limites anteriores não eram fincados na argumentação, mas na tradição, no poder, em suma, eram impostos. O problema é que, ao quebrar os parâmetros, a sociedade deixou de ter limites, como o capitalismo, cuja proposta é o progresso e o consumo infinitos, analisa o filósofo Clodoaldo Meneghello Cardoso.
Bauru, cita o filósofo, é exemplo claro dessa mentalidade da metade do século 20, como aponta o slogan adotado pela cidade: Bauru, cidade sem limites.
Todo mundo elogia esse lema, mas ele traz embutido uma falta total de limites e em tudo. É um município com 300 mil habitantes e 100 mil carros, e isto aponta uma racionalização montada no racionalismo matemático e que caiu no irracionalismo, avalia.
Reflexos
A ausência de limites claros, aponta Cardoso, impediu a construção de novos parâmetros sociais. No caso do Brasil, esse processo levou parcela significativa da sociedade a enxergar a democracia como algo solto, sem freio. E a democracia é, fundamentalmente, uma sociedade com regras, aponta o filósofo.Mas a democracia plena, sustenta, está longe de ser alcançada no Brasil, cuja experiência democrática ainda é residual se comparada aos momentos ditatoriais enfrentados pela população. A democracia sócio-política envolve distribuição de renda e a de parâmetros, essencialmente, inclui política e ética. O processo é intrínseco, afirma Cardoso.