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"Malditas mentiras e estatísticas"

(*) José Almodova
| Tempo de leitura: 3 min

Curioso artigo - nos despertou atenção gerando interesse - produzido por Milton Gamez, intitulado MALDITAS MENTIRAS E ESTATÍSTICAS, sobre a referência: Escritor americano derruba os mitos forjados por vistosos algarismos. Uma publicação recente, com o anexo de Valor EU&, 31 de agosto e fim de semana, 1 e 2 de setembro... Assunto que na nossa visão -aos 36 anos de magistério superior, com formação de economista e estatístico (este, com 3 livros publicados), e jornalista, colaborador do JC desde 13/3/978- evidencia que o artigo nos mereça uma análise profissional, calcada de seriedade e bom senso, visando demonstrar que nem sempre as estatísticas merecem ser amaldiçoadas. Ao contrário, do que as mentiras, quando associadas à estatística, razão porque - em especial - os pesquisadores servindo-se dela, buscam estudá-la, como pesquisa séria, jamais camuflada. Entretanto, havendo as malditas mentiras, estas não devem ser debitadas às estatísticas (como explicita o título em questão), mas aos procedimentos de falsos mercadores profissionais embusteiros, nunca um especialista de competência ilibada.

É assim que, aos prezados leitores que nos agüentam (mas que felizmente nos lêem), há que esclarecer que não pretendemos de maneira alguma, bombardear o artigo que vimos respeitosamente analisando. Muito ao contrário, aproveitamos as salutares e bem-colocadas tiradas jocosas do autor, inseridas na primeira parte do escrito, onde ele se liberta, lembrando uma antiga piadinha: Estatística é assim mesmo. Tire um s e vira esta titica. Quanto a nós, com toda certeza de quem já tem pouco mais de 75 anos de vida (ao invés de perdermos tempo analisando e patinando num terreno lúbrico), ainda estamos recolhendo conhecimentos. Como diziam nossos ancestrais espanhóis: muriendo y aprendiendo.

É bem verdade, porém, que - em tudo o que se faz ou se produz, corre-se risco- estamos todos sujeitos a nos envolver num inesperado imbróglio. Assim, ainda que o profissional trabalhe sério na colheita dos números da pesquisa, os resultados finais - estão sujeitos a alterações, maquiados por interesses outros - tal como, por exemplo, os que geralmente ocorrem nas pesquisas de interesses de resultados políticos. É aí, que comumente residem as malditas mentiras (mencionadas pelo colunista); que certamente não reflete, em nenhuma circunstância, a culpa da estatística. Conclusões obtidas em clientelas sujeitas à manipulação de dados escamoteados, significa mentira, falsidade e... etc., portanto não se trata de estatística, mas sim, das citadas malditas mentiras encimadas pelo nobre articulista.

O autor, utiliza-se de curioso argumento alheio: Dizem que os números não mentem. Mas eles são como as armas de fogo, que não matam. Quem aperta o gatilho são os homens. As estatísticas, assim como os economistas e os comediantes, podem ser boas ou ruins. Podem servir propósitos nobres ou vis. Podem ser honestas ou manipuladas. Que me perdoe o autor se contesto, a parte final das conclusões inseridas no parágrafo anterior. Embora, contudo, concorde que os números não mentem por si só, mas quando sujeitos às dificuldades de obtê-los precisamente. Ou sujeitos a motivos de força maior como equipamentos impróprios ao trabalho do pesquisador, dificuldades nos períodos e locais das pesquisas, no que diz respeito ao relaxo do pesquisador inconseqüente ou incapaz, ou ainda, por motivos ou interesses geralmente políticos.

De qualquer forma, em certas circunstâncias não se avança sem alguma certeza amparada nos números. Tome-se por referência os cidadãos americanos - obcecados que são por números estatísticos em todos os segmentos possíveis e imagináveis - especialmente no que diz respeito à atividade econômica, vivenciam desde o famoso café da manhã, o suntuoso breakfast, almoçam, jantam (ou ceiam) e dormem números estatísticos. Percebe-se que o articulista, na tentativa de dar mão à palmatória, mostra a honestidade dos seus pensamentos. Assim, de nossa parte, não somos donos da verdade.

(*) José Almodova é professor universitário-Mestre em Projeto, Arte e Sociedade pela Unesp/Bauru. É jornalista e colaborador do JC. Escreve às quintas-feiras na coluna. E-mail: almodova@ig.com.br

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