Há uma década, com o colapso da União Soviética, as promessas (nos Estados Unidos e na Europa) eram muito felizes. Era, para usar o tópico de Fukuyama, o fim da história. Na realidade, acreditava-se que haviam terminado as ideologias que atormentavam o mundo no século passado, que se fechava com uma década de antecipação. A globalização, por seu lado, se prestava a tomar posições num planeta feliz, presidido pelo livre comércio e pela bondade de democracia liberal. Era, em suma, um mundo idílico.
Acontece que quase todos os fantasmas do passado resistiam em abandonar a cena. Alguns dos Cavaleiros do Apocalipse saíam das cloacas, onde aparentemente haviam se refugiado, pelo menos no chamado mundo ocidental, diante da tenaz resistência do sistema graças ao guarda-chuva nuclear da Otan e à proteção da modesta, mas eficaz, Comunidade Européia.
Huntington e seu pretenso choque de civilizações não eram levados a sério. Sua tese era vista, não sem razão, como uma desculpa do chamado complexo industrial-militar para engrossar os cofres das companhias às ordens do Pentágono. E chegou a tragédia. A dimensão do trauma ultrapassa todo o imaginável e, daí, ser virtualmente impossível prever as conseqüências, mas é preciso tentar. Entre o possível, destaca-se o endurecimento do sistema de proteção estatal, com a conseguinte erosão dos direitos civis. Não estão descartados nem os registros domiciliares nem as escutas telefônicas. Naturalmente, o uso da Internet sofrerá uma drástica regulamentação. O múltiplo atentado dará sustentação aos defensores do sistema antimísseis para seguirem adiante. As desconfianças diante da imigração descontrolada vão obscurecer o ambiente.
A longo prazo, o mundo, em geral, deve receber o golpe como sendo contra seus próprios interesses e não cometer o erro terrível de acreditar que isto é um ataque seletivo contra os EUA. É contra todas as normas civilizadas. O mundo compreenderá o peso da púrpura do governo e do povo norte-americanos, desgraçada e erroneamente identificados como inimigos da humanidade. Por fim, a médio prazo, espera-se que a sensatez se imponha e as forças internas da sociedade norte-americana saibam equilibrar-se entre a histeria e o sangue frio. Paradoxalmente, o famoso artigo 5 do tratado da Otan agora se mostra eficaz: um ataque contra um Estado-membro deve ser interpretado como lançado contra todos. E este não é um atentado apenas contra os Estados Unidos, por mais simbolismo que Wall Street e o Pentágono tenham no imaginário mundial. É a hora da ação coordenada. Aí se revelará a verdadeira altura dos dirigentes. Os norte-americanos deverão agir com energia e calma; no exterior, deverá haver apoio sem fissuras. (*) O autor, Joaquín Roy, é catedrático de Relações Internacionais da Universidade de Miami