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Tese aponta riscos do tabaco de mascar

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Segundo estudo, o tabaco sem fumaça, nova mania entre os jovens, representa um grave problema de saúde pública

Uma tese defendida e aprovada, na última sexta-feira, na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP) de Bauru, indica uma nova e perigosa tendência entre os jovens da cidade. Imitando os costumes dos caboclos das roças e as cenas celebrizadas pelos cowboys em filmes do Velho Oeste americano, certas tribos, especialmente as country, estão consumindo em grande escala tabaco como bala de mascar.

O produto é oferecido em várias marcas e pode ser adquirido por menos de R$ 20,00 em tabacarias, lojas de importados, de conveniência e até de artigos country e, como não tem fumaça seria considerado inofensivo à saúde. Um pensamento que, conforme a tese, trata-se de um equívoco grosseiro alimentado até mesmo por campanhas antitabagistas.

O trabalho, desenvolvido pela dentista Suzana Luzia Coelho Figliolia com a colaboração da formanda Raquel Huesne (esta na forma de trabalho de iniciação científica) e sob orientação do professor Alberto Consolaro, foi realizado na disciplina de Patologia e a tese defendida no curso de mestrado em Odontologia em Saúde Coletiva da FOB/USP.

Segundo Alberto Consolaro, trata-se de um sério problema de saúde pública. E ele é insidioso, pois ninguém sabe que existe. As campanhas antitabagistas, por exemplo, sempre colocam a fumaça como a grande vilã quando, na verdade, o principal malefício está na formulação do produto.

Ele acrescenta que o chamado tabaco sem fumaça é muito prejudicial à saúde e pode provocar inúmeras formas de câncer, especialmente o bucal. Consolaro explica que entre os componentes deste produto incluem-se os aromatizantes, conservantes, herbicidas, areia, óxido de ferro e nicotina. Tudo de ruim que há no tabaco ele tem, ressalta ele. E continua: O tabaco sem fumaça costuma ser oferecido em sabores, como cereja e morango, com o objetivo de encantar as crianças. A pesquisa avaliou 17 usuários na faixa etária dos 10 aos 14 anos, representando um percentual de 13% do universo abrangido pelo trabalho.

A dentista Suzana complementa revelando que aqueles que não têm condições de adquirir o tabaco nos pontos-de-venda criam uma fórmula caseira. Esta contém uma mistura de nescau, whisky, conhaque e mel, que é curtida na panela e depois acondicionada em embalagens vazias iguais às comercializadas, relata ela.

Um vício

O orientador revela que, nos Estados Unidos, pelo menos 20 milhões de pessoas são viciadas no tabaco sem fumaça. O fato aguçou a curiosidade de Suzana, Alberto e Raquel, que resolveram verificar se existia a tendência de consumo do produto no Brasil, principalmente em Bauru. O que começou como uma curiosidade virou um trabalho de iniciação científica e, posteriormente, uma tese de mestrado, que nós disponibilizaremos para quem se interessar, diz Consolaro.

No início do trabalho, há cerca de três anos, não tínhamos idéia de que o tabaco sem fumaça era vendido até em lojas country e consumido em larga escala por pessoas no Brasil. Queríamos ver a dimensão real do uso no Brasil. Não sei dar um número preciso, mas que são milhões de pessoas não tenho a menor dúvida.

Suzana considera que as propagandas para se vender este tipo de produto destacam o fato do tabaco não ter fumaça e, sendo assim, não traria qualquer malefício à saúde. Elas incentivam o uso enfatizando que o tabaco sem fumaça poderia ser usado em qualquer ambiente justamente pela ausência dessa substância. Entretanto, um usuário desse produto é um tabagista como qualquer outro, pois estará absorvendo todos os componentes nocivos presentes em sua fórmula, afirma ela.

Consolaro explica que a literatura científica sobre o assunto é vasta e foi utilizada como base para a tese. Ele acrescenta explicando que uma pessoa é considerada fumante quando usa o tradicional tabaco com fumaça. Aquele que masca o tabaco é um tabagista e não um fumígero e, por consequência, está sujeito aos mesmos riscos de um fumante. A nicotina, que está presente no tabaco sem fumaça, vicia e usá-lo não é um hábito, mas sim um vício, considera o orientador.

Ele ressalta que o uso do tabaco sem fumaça pode trazer várias e graves implicações à saúde. Mas, confome Consolaro, os efeitos são cumulativos e sentidos após um determinado tempo de uso. As consequências do uso do produto não são imediatas, mas aparecem. Entre os jovens pesquisados para a tese, além da halitose (mau hálito), 8% deles apresentavam dentes escuros, 20% recessão gengival e quase 11% lesões pré-cancerosas, que são o estágio inicial do câncer bucal, frisa ele.

Tomada de posição

Suzana e Consolaro enfatizam que, diante da gravidade do assunto, é necessária uma tomada de posição de todos os órgãos e entidades ligados à saúde em âmbito municipal, estadual e federal. Um dos fatos mais graves é que médicos e dentistas não têm conhecimento desse tipo de produto. Além disso, o Ministério da Saúde, à época em que buscamos informações sobre o tabaco sem fumaça, não sabia nos informar nada sobre ele, pois o considera como um produto não fumígero, afirmam eles. É preciso uma conscientização de secretarias, entidades de classe e Ministério da Saúde em relação ao problema, concluem.

Consolaro coloca o seu e-mail à disposição daqueles que se interessarem sobre o assunto para mais informações: v-afonso@fob.usp.br

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