Geral

Para professor, Bush foi imprudente

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 5 min

Na opinião do professor Sebastião Clementino, o governo Bush, nos últimos oito meses, cometeu coisas catastróficas.

Avaliando a atuação do presidente George W. Bush, o professor de geopolítica da Universidade do Sagrado Coração de Bauru, Sebastião Clementino da Silva, diz que Bush assumiu um governo com minoria popular. Ele só ganhou na Flórida em função dos juízes na última contagem. Segundo o professor, Bush cometeu coisas catastróficas. Ou seja, foi uma eleição conturbada, jamais vista na história americana. Logo que ele assume, cria os escudos antimísseis, ou seja, querendo reviver a guerra fria. Em seguida, temos o fato da questão do avião na China que ele foi obrigado a pedir perdão. Logo em seguida ele não assina o tratado de Kioto. Os EUA poluem com mais de 22% do mundo, mas o que, para ele não era do interesse americano, jamais assinaria. Diminui o imposto de renda da classe mais abastada, conseqüentemente deixa de investir na questão social. O processo de paz que o Clinton vinha desenvolvendo no Oriente Médio, ele cessa e não dá a mínima para isso. Ele deveria pelo menos continuar essa relação de paz, e não o fez. A intolerância na África do Sul quando ele se retira falando que não reconhecia a escravidão como um crime contra a humanidade e concomitante se retira também Israel, logo em seguida, começam os atentados.

Jornal da Cidade - O senhor acha que esse fato na África do Sul pode estar relacionado com os atentados?Macalé - Se você analisar historicamente, em questões de semanas, começam os atentados. Então, o que será que estava se passando na cabeça do mundo árabe? Os americanos apoiando Israel por uma questão estratégica, saindo incondicionalmente dessa questão racista da África do Sul, deixando o mundo a mercê, mas por felicidade os países que lá estavam selaram o acordo dizendo que era um crime, mesmo o americano deixando de assinar. Então eu acho que esses dois fatores reforçaram o apoio americano a Israel contra o Oriente, então parece uma guerra de civilizações. Tudo isso leva a gente a uma incógnita, trabalhando no campo da suposição, das idéias, da dimensão que poderá causar, estrategicamente é difícil determinar o que vai causar.

Jornal da Cidade - Por que as pessoas acreditam na hipótese da terceira guerra?Macalé - Quando o ataque ocorreu nos EUA, o mundo ficou perplexo, mas quando os judeus mataram os palestinos ou quando os homens bombas mataram civis do Oriente-Médio ou quando a ex-URSS invadiu o Afeganistão durante dez anos não era guerra, agora quando os EUA sofre um ataque repentino pode acontecer a terceira guerra.

Jornal da Cidade - Na sua opinião, podemos estar próximos da terceira guerra?Macalé - A terceira guerra já está acontecendo com uma diferenciação, é uma guerra de guerrilha, de fundamentação filosófica, de exclusão. Terceira guerra como aprendemos, na minha opinião, acho que não acontecerá. Essa questão de terceira guerra ficou na nossa cabeça, a concepção de guerras convencionais que causaria destruições, mas se olharmos que o mundo tem hoje mais de seis bilhões de habitantes e que dois terços dessa população vive miseravelmente, e que está matando mais do que as guerras tecnológicas, temos que rever o conceito de guerra. A exclusão já é uma guerra, quando você não permite um diferente participar da economia, você está provocando uma guerra, então o conceito de guerra deve ser revisto na concepção que aprendemos. Eu não acredito numa guerra total, é a destruição do homem, é a destruição da humanidade, elas vão acontecer localizadas, num território, mas sem ter a dimensão da guerra convencional.

Jornal da Cidade - E como ficam os EUA nesse tipo de guerra?Macalé - Os americanos terão que perceber que eles não têm mais o poder que eles imaginavam que tinham. Sabe quando se imagina e nunca ninguém te questionou e você sempre esteve no ápice da pirâmide e chega um dia, alguém te questiona, até que ponto sua hegemonia é tão forte assim? Então os americanos começaram a cair na real. Será que realmente éramos uma potência? Será que éramos o espelho geopolítico do mundo, ou construímos um castelo de areia que nunca havia sido questionado? Todas as guerras sempre aconteceram fora do território americano, então eles não tinham a concepção do que seria uma guerra e de repente eles foram acordados com uma guerra que eles não sabiam de onde vinha. Americano correndo para todos os lados sem ter noção do que estava acontecendo.

Jornal da Cidade - Como o senhor vê a reação dos americanos diante desse desespero?Macalé - Se analisarmos o período em que o primeiro avião atacou, às 8h45, até o quarto avião que atacou o Pentágono, às 9h45, em uma hora, eles poderiam ter feito o rastreamento do espaço e detectado a tempo. Isso não aconteceu, então causou uma perplexidade muito grande. Os americanos ficaram perdidos, sem saber como agir. Acho que o choque foi tão grande que eles ficaram paralisados, sem saber o que fazer naquele momento.

Jornal da Cidade - Quais as conseqüências desses ataques para o mundo?Macalé - Alguns estudiosos colocam que esse terceiro milênio está provocando a diferença da espacialidade do mundo, Ocidente contra o Oriente. Porque antes víamos o mundo na ótica européia e agora temos que ver o mundo em toda a sua dimensão, não posso mais ver o mundo a partir da Europa ou dos EUA, então é aquilo que os historiadores falaram, que nós teríamos uma guerra de civilização entre o Ocidente e o Oriente. Essa guerra de coalizão que o Bush está prevendo é a coalizão entre a Europa mais os EUA contra o Oriente que tem uma outra dimensão do mundo. Eu acho que está na hora de rever os conceitos.

Jornal da Cidade - Quem mais sofre com esses acontecimentos?Macalé - As nações emergentes sofrerão com isso porque a economia dessas nações sempre foram pautadas no incentivo externo e não preocupadas com a poupança interna. O Brasil, principalmente, vive da economia externa. A priori teremos um abalo inimaginável.

Comentários

Comentários