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APAIXONADO POR UM PRÉDIO

Joaquim Eliseo Mendes
| Tempo de leitura: 3 min

Não é fato comum alguém apaixonar-se por algo material, principalmente por um prédio. Talvez o meu seja um caso único, mas a verdade é que estou ou sou apaixonado por um prédio. Pois é um prédio especialíssimo. Em minhas caminhadas recomendadas e necessárias, de madrugada, ainda no escuro, muitas vezes desço a 1.º de Agosto e na praça Machado de Melo, obrigatoriamente e por questão de fidelidade tenho que vê-lo e render-lhe o meu preito de admiração. Fico extasiado em admirar o seu porte altivo, majestoso, único, de linhas arquitetônicas simples mas arrojadas, mentalizo o burburinho de vozes, pessoas, suor, expectativas, alegrias e também desencantos que deve ter havido no tempo de sua construção. Será que algum dos seus construtores está vivo ainda? Recordo-me das incontáveis vezes em que passei por ele; das baldeações feitas, pois chegando de Garça pela maria-fumaça, olhando pela janela vislumbrava estacionado na plataforma o trem de luxo à espera dos passageiros em trânsito e dos que aqui iniciariam a viagem para São Paulo. E que prazer sentia em ver as famílias que permaneciam na plataforma, as moças bonitas que já naqueles tempos davam fama a Bauru. Que prazer e sensação sentia em passar pelos túneis que ligavam as plataformas. Não havia pressa em guardar lugar no luxo porque as poltronas eram numeradas. Tomar aquele trem dava-me e a todos, status.

Antes do embarque no luxo ia-se ao belíssimo restaurante da estação para tomar uma sopa e dificilmente chegava-se ao seu fim devido à quentura. Após a partida era costume dar-se uma olhada nos carros para ver gente bonita e depois ir ao restaurante em que era obrigatório o uso de paletó e gravata, para um guaraná. Nesta cidade de Bauru, no estado, país e mesmo em outras partes do mundo, tenho absoluta certeza de que existem milhares de pessoas, bauruenses ou não, que passaram por este histórico prédio. Pouquíssimas estações ferroviárias, no mundo, têm sua grandiosidade em todos os sentidos.

E, todas as vezes em que passo por ele entristeço-me; em ver seus vidros quebrados, o matagal que nasce no meio dos seus trilhos, enfim, sua visível deterioração; em verificar que, se nada for feito, o seu destino, pela ação do tempo, está selado.

Com a privatização das ferrovias, não sei a quem pertence em primeira instância, porque em última e definitivamente pertence à história e ao povo. Nada sei dos entraves burocráticos e mesmo financeiros que possam atrapalhar sua transferência ou compra pelo poder público. O único fato que sei e que o povo bauruense também sabe é de que ainda há tempo para protegê-lo e resguardá-lo. Porque se não for definido e decidido logo o inclemente tempo se encarregará de dar-lhe o destino que nós não queremos. Que não aconteça com ele o que aconteceu com nossos cinemas e o que vem acontecendo com outras estações ferroviárias do País. Sou de opinião que o poder público deve constituir uma comissão de pessoas bem-intencionadas para estudarem a destinação de sua propriedade e de seu aproveitamento. Que seja aproveitado dignamente, pois, pelo seu passado e pelo que poderá oferecer no futuro, que tenha um destino, não triste, mas glorioso. (Joaquim Eliseo Mendes - RG: 2.783.300)

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