As igrejas evangélicas, no cenário periférico da cidade, aparecem como consultórios, enquanto que os pastores figuram como verdadeiros terapeutas, ouvindo e aconselhando, só que sempre direcionando para Deus o poder de cura ou de solução do problema que aflige aquele irmão.
As palavras bonitas ditas por uma pessoa com status dentro da igreja chegam a ter mais poder curativo do que medicamentos receitados por profissionais médicos, tamanha é a fé que os menos favorecidos depositam naqueles que dirigem a Igreja e professam o Evangelho.
Os quadros apresentados em programas populares como os do Ratinho e Leão funcionam como opções de lazer e terapia. Neles, essa parcela da população encontra um retrato da sua realidade e a solução para os problemas que enfrenta - os espectadores se transportam no imaginário como se fosse a pendenga deles que estivesse sendo resolvida. A esperança incondicional, aliás, é uma característica dessa sofrida população.
Na periferia, os vizinhos também exercem papel muito importante na solução de problemas. Ao contrário das classes média e alta, que mal cumprimentam aqueles que moram ao seu lado, os menos favorecidos fazem do vizinho um amigo. Verdadeiros padres a ouvir confissões, eles participam dos problemas exercendo vários papéis. Nos casos de doença, se juntam para comprar o remédio - fazem as famosas vaquinhas. Se for para fazer uma visita, seja na cadeia ou no hospital, sempre há um vizinho disposto a acompanhar. As traições amorosas são compartilhadas, assim como os problemas de alcoolismo e drogas. É dessa maneira simples que os pobres desabafam e amenizam suas crises, com o vizinho, é claro, funcionando como um terapeuta sem direito a honorários.
Afastamento do trabalho
A depressão da zeladora Tereza Alves da Silva, 47 anos, chegou de mansinho vestida de pavor e medo. De repente, comecei a sentir medo de sair de casa, até para trabalhar. No começo, achei que era um medo normal que em poucos dias passaria, mas não passou, ao contrário, foi aumentando. Entrei em pânico. Tinha medo de tudo. Pensava que ia cair, que ia morrer e que se saísse na rua poderia acontecer alguma coisa de ruim, relembrou.
Para superar a crise de depressão, com indícios de síndrome do pânico, a zeladora procurou a ajuda de um médico. Fui ao núcleo de saúde e fiquei sabendo que estava com essa doença. O médico explicou que era acúmulo de nervoso. Eu perdi um filho com um ano e não consegui superar. Vivia amaldiçoando Deus por ter me tirado o filho, confidenciou.
A depressão afastou a zeladora do trabalho, que ainda está sob tratamento médico. Para ela, a doença também foi sinônimo de perturbação na família. Fiquei doente e minha filha teve que sair do emprego para cuidar de mim. Estou tomando remédios muito fortes e durmo demais. As visitas à Igreja têm valido a pena, porque hoje estou bem mais compreensiva. Eu não brigo mais com Deus e aceito melhor a perda do meu filho, salientou.
Morador no Jardim Nicéia, dona Tereza não é a única que sofre de depressão. Marta Regina do Prado, 24 anos, também vive uma crise de depressão. Há pouco mais de um mês, ela perdeu o terceiro filho. Tomando remédios muito fortes, Marta não consegue falar e foi sua mãe, Rosa Fátima Garcia de Oliveira, que contou o drama que abala a família. Ela perdeu dois filhos gêmeos há um tempo atrás e agora estava no quarto mês de gestação. O bebê morreu e ela está inconformada. Ela sente batedeira no coração, pensa que vai morrer e não quer ficar mais na casa dela. É um sofrimento, reconhece a mãe.