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Estruturas não seriam 100% eficazes

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 7 min

Locais que sofrem modificações na geografia natural tendem a se tornar alvos de intempéries. O ideal é que as expansões urbanas atuais levem em conta os efeitos futuros

Por mais grandiosa e completa que seja uma obra de contenção de águas pluviais, sua eficácia não é 100% garantida. A afirmação é do coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, segundo quem a força da natureza nunca será contida pelo homem. Brito diz isso quando insistentemente questionado sobre as condições atuais de Bauru para o enfrentamento do período das águas, que começa agora e se intensifica nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro.

Os engenheiros projetam a obra para suportar um volume xis de água e podem ser bem sucedidos durante 10, 20, 30 anos, até o dia que vem uma tromba dágua e leva tudo. No meu entender, o que vem sendo feito em termos de recuperação e contenção na cidade é suficiente para as chuvas que costumam cair. Em comparação com o ano passado, Bauru está hoje bem melhor preparada para enfrentar a estação, o que não garante que estará l00% livre dos estragos. Aqui pode não acontecer nada, mas uma nova erosão pode se abrir num outro ponto distante da cidade. É lógico que temos que avançar muito no sistema de prevenção, como a implantação de galerias, obras que regularizam o escoamento da chuva, mas não podemos esquecer o fator imprevisibilidade, considerou.

Imprevisibilidade em termos, é bom frisar. Em sua grande maioria, os locais que hoje sofrem com os temporais (inclua-se aqui também os furacões, terremotos e erupções vulcânicas) foram vítimas de modificações substanciosas ao longo dos anos em função de ações humanas, ou seja, é bem possível prever a ocorrência de calamidades a médio e longo prazos. Os pontos críticos de Bauru podem servir de exemplos dessa conjetura ambiental.

A vazão violenta da bacia do córrego Água do Sobrado, que invariavelmente atinge a avenida Alfredo Maia, parque ferroviário e redondezas, por exemplo, tem relação direta com a impermeabilização do solo da região. Sem pedir licença, o homem tomou para si a área de várzea, construindo nas margens e, conseqüentemente, acabando com a absorção natural do solo. A mudança urbana, no entanto, não é capaz de impedir que as chuvas sejam intensas nesses pontos. A várzea é o canal de inundação natural do rio. Quando urbanizamos esses locais, corremos riscos, porque dia menos dia o rio desce tomando tudo aquilo que lhe pertence. Aqui em Bauru, uma cidade de vales e cheia de córregos e ribeirões, podemos esperar calamidades em vários pontos, principalmente nos que ficam nos fundos de vale, como a Nuno de Assis e a Nações Unidas. Podemos gastar milhões em obras que nunca teremos proteção totalmente garantida, asseverou Brito. Isso, entretanto, não exime o poder público da responsabilidade de construir e aprimorar cada vez mais os sistemas de contenção de vazões.

Não bastasse a carência de uma estrutura mínima de obras, Bauru ainda enfrenta ações paralelas que agravam ainda mais os problemas em dias de chuvas fortes. Uma delas é o despejo indiscriminado de entulho nas cabeceiras e margens dos cursos dágua. Nesses locais, é possível se ver de tudo: de sofás e cadeiras velhas a animais mortos - até ninhadas vivas às vezes são lançadas nas águas. Se a sujeira não existisse, o volume das enchentes seria consideravelmente menor, tendo em vista que muitas passagens de água ficam obstruídas.

Outro fator de aparência quase insignificante, mas que faz muita diferença, é o costume cada dia mais comum da população impermeabilizar os quintais. Se, ao invés de cimentar todo o espaço, os moradores deixassem pequenas áreas com grama, o volume da chuva nos cursos dágua seria bem menor. Problema também se tem em alguns bairros, particularmente na Vila Quaggio, onde centenas de casas foram construídas abaixo do nível da rua. Há casos que o desnível chega a três metros, o que fatalmente amplia os riscos de inundação.

Na opinião de Álvaro de Brito, além de dotar a cidade da estrutura necessária, a Administração Municipal também tem que voltar os olhos para o planejamento urbano. Toda e qualquer obra tem que ser concebida a partir de seus efeitos imediatos e futuros. Pensar em resolver estritamente o problema de hoje é um grande erro. Na época em que Bauru experimentou sua primeira grande expansão urbana, há 60 anos, ninguém previu que um dia o rio Bauru fosse receber 85% da água da chuva que caísse sobre a cidade. A falta de planejamento lá atrás é até compreensível, mas hoje dominamos técnicas e conhecimento que não permitem mais esse tipo de negligência, sublinhou o coordenador.

Vítimas da negligência

A erosão aberta na avenida Waldemar G. Ferreira já registrou formalmente três acidentes, um dos quais responsável pela morte duas irmãs que despencaram a bordo de um carro. Mais recentemente, um outro veículo caiu na erosão, mas não chegou a provocar ferimentos graves no motorista. Na semana passada, porém, o aposentado João de Moraes Filho, 61 anos, caiu no buraco quando tentava atravessar a pinguela de terra, que teria desmoronado parcialmente. Na queda, Moraes Filho teve fratura exposta no pulso, três costelas fraturadas e outras lesões generalizadas, sendo internado na UTI do Hospital Beneficência Portuguesa, onde passou por cirurgia. O caso foi registrado no 1.º Distrito Policial, que abriu inquérito para apurar as responsabilidades.

No entendimento da Comissão de Direitos Humanos da subseção-Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o município tem responsabilidade objetiva na morte ou eventuais seqüelas deixadas nas vítimas da erosão, uma vez que está ciente do problema e continua permitindo o risco aos transeuntes.

Na última semana, o 1.º Distrito Policial concluiu inquérito sobre as mortes do mototaxista Rodrigo Maciel dos Santos e da auxiliar de enfermagem Maria Anita Ribeiro Correia, levados pela enchente que cobriu a avenida Alfredo Maia. A Polícia entendeu que a Defesa Civil, por ter sido avisado da possibilidade da forte chuva, deveria ter tomado providências para a interdição do local; também não acatou o argumento de que a chuva foi atípica. O inquérito já foi remetido ao Ministério Público, que pode denunciar responsabilidades na esfera criminal.

Além do mototaxista, da auxiliar de enfermagem e das duas irmãs mortas na erosão da avenida Waldemar G. Ferreira, descobriu-se que a chuva do dia 8 de fevereiro fez outras duas vítimas fatais. Dois homens alcoólatras tidos como indigentes morreram afogados às margens do ribeirão Bauru. Segundo testemunhas que conheciam as vítimas de vista, ambos habitavam uma construção abandonada da rede ferroviária. Por se tratar de indigentes, o reconhecimento dos corpos e a confirmação da causa mortis demoraram, motivo que manteve o ocorrido fora da mídia.

Muita água deve cair

Para quem mora em Bauru, tempo fechado e escuro não é sinal apenas de chuva, mas de conseqüências imprevisíveis, como mortes e desabrigados. Por ser estar encrustada numa região de vale, com vários córregos e ribeirões, a cidade literalmente chama a chuva. Há quem diga que o município terá de enfrentar grandes tempestades entre 2002 e 2003, quando o ciclo dos sete anos estará terminando - cada fechamento desse período seria marcado por chuvas fortes. Mesmo para este ano, as previsões meteorológicas indicam grande volume de precipitações, a começar da primavera.

A chuva que caiu sobre a cidade em fevereiro deste ano foi vista como a mais intensa dos últimos tempos, registrando 132 milímetros em cerca de 40 minutos de chuva ininterrupta. Realmente foi forte e de certo modo até atípica, pois derramou quase que integralmente sobre as regiões sudoeste e sul da cidade, agravando processos erosivos nesses setores. O índice pluviométrico, no entanto, ficou bem abaixo se comparado a outros anos.

Em dezembro de 1998, a chuva levou o município ao estado de emergência, com precipitação de 70 milímetros num único dia. Na média, entretanto, janeiro de 1999 foi o mês que registrou o maior índice de precipitação dos últimos quatro anos, com 353 milímetros registrados.

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