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Com medo, brasileiros pensam em voltar

Heliana DeWeese
| Tempo de leitura: 7 min

A insegurança provocada pelos ataques terroristas está fazendo com que os imigrantes residentes na Flórida retornem ao Brasil.

(*) da Flórida, especial para o JC

As informações são desencontradas e as pessoas ainda parecem muito confusas, mas correm rumores na colônia brasileira na Flórida de que, amedrontados, muitos imigrantes estão voltando ao Brasil. O Consulado Brasileiro em Miami não pôde confirmar nada a respeito, mas admitiu que, nas últimas duas semanas aumentou o número de pedidos de revalidação de passaportes e registros de nascimentos.

Especula-se que muitos destes que retornaram já estavam indecisos entre regressar ao Brasil ou permanecer nos EUA. Os últimos acontecimentos precipitaram, a volta. Os que ainda não se decidiram, pelo menos estão deixando a documentação em ordem, prevendo uma saída emergencial do país.

A tragédia que abalou o mundo na manhã do dia 11 de setembro continua fazendo vítimas. É muito cedo para se falar em cicatrizes. As feridas ainda estão abertas e doem. As repercussões vão fazer eco por muito tempo. Os estragos físicos, ainda que levem tempo, vão ser reparados. Quanto ao trauma e os efeitos psicológicos não se pode dizer o mesmo. O mundo assistiu perplexo às explosões do World Trade Center, em Nova York e do Pentágono, em Washington, atingidos por aviões sequestrados por terroristas. As cenas dantescas só vistas em filmes não só chocaram, como também mostraram como somos e estamos vulneráveis diante da violência invisível e obcecada do terrorismo.

A nação mais poderosa do mundo teve medo. Quem não teria? Revolta, incerteza, impotência e tristeza se misturaram ao ar pesado que reinou impiedoso por dias entre os americanos e estrangeiros que residem nos Estados Unidos. Atingida diretamente, ou não, pela tragédia, a população se sentiu ultrajada em seus mais sagrados direitos: paz e liberdade. A indignação foi geral, independendo da localização. Norte, Sul, Leste e Oeste se uniram com a dor e um grande problema em comum: a segurança.

Como as demais comunidades estrangeiras nos EUA, a colônia brasileira foi igualmente afetada. Distantes de casa, os brasileiros assustados se perguntavam: e agora o que vai acontecer? A incerteza fêz brotar a especulação, que por sua vez levou a conclusões que culmiram com o medo de uma guerra mundial. Especialmente para os brasileiros, tidos como povo pacifista, com um passado histórico de poucas guerras, este tipo de violência é um prato indigesto ainda não provado. Do passado de repressão, ficaram as memórias de um outro tipo de violência. A que estamos expostos nas ruas no Brasil, embora ameaçadora na maioria dos casos pode ser identificada. É possível detectar ou pelo menos imaginar quem é o inimigo. A dificuldade de lidar com os atentados terroristas é a de lutar contra o invisível. O mais assustador é a frieza da determinação calculista e sem limites.

Sem falar da ousadia dos atos criteriosamente planejados. Os ataques custaram milhares de vidas. De um só golpe os terroristas mataram cidadãos, atingiram os dois mais fortes símbolos da sociedade norte-americana, a defesa e a economia, espalharam o medo, a insegurança e a incerteza do amanhã. É um tipo de violência que tem poder. O episódio provocou muitas dúvidas nos brasileiros residentes no Sul da Flórida, especialmente naqueles que imigraram para os EUA fugindo da violência do Brasil.

Frustração e efeito cascata

A maior preocupação com a segurança está entre os pais que temem por seus filhos mais do que por eles próprios. Vivendo em West Palm Beach, a paulistana Cecília Silva, 35 anos, é casada com um americano e mãe de duas meninas de 6 e 5 anos. O grande temor da brasileira é ter que viver sob suspense. Confessou que se sente muito confusa e que teme, também, pelos reflexos na qualidade de vida. Admitiu que, embora, esteja com medo de viajar de avião, não descarta a possibilidade de retornar ao Brasil se for preciso. Cecília, que já passou por situações de muito perigo em São Paulo, tem agora motivos de sobra para estar insegura aqui também. Contou que, por duas vezes, teve que ir buscar as filhas na escola fora do horário normal. A primeira vez foi por causa da ameaça de bomba e a segunda porque um assaltante de bancos armado se refugiou na escola. A incerteza de que elas estarão seguras, daqui para frente, é ainda maior, considerou. Para outros os ataques significaram a frustração de planos e da tão sonhada segurança que vieram buscar nos Estados Unidos.

Especialmente para os que vieram para cá tentando fugir da violência no Brasil paira a dúvida. E agora, volto para casa? perguntou incerta a promotora de vendas Mara Regina, enquanto reabastecia as prateleiras da Central do Brasil. Ex-proprietária de um restaurante em São Paulo, ela foi assaltada várias vezes. Numa delas, os assaltantes mataram um cliente e o seu ajudante. Desgostosa, vendeu tudo e veio em busca da oportunidade de refazer a vida nos EUA que agora parece em risco. Não sei se volto ou se digo para meu marido vir para cá, divagou.

As agências de viagem brasileiras na Flórida são um bom termômetro e informam que não têm registrado movimento incomum para esta época do ano. A Discover Brazil têm recebido muitos pedidos de reserva de passagens para o Brasil, tendo em vista as festas de fim de ano como é de praxe. Mas, está também vendendo muitas passagens para brasileiros que disseram ir dar um tempo no Brasil até a situação se definir por aqui como descreveu uma agente de viagens. O comportamento foi confirmado por Tony Rodrigues, proprietário da Brazilian Wave Tours. Segundo ele, os ataques influenciaram principalmente os brasileiros que já tinham dúvidas sobre morar nos EUA. Muitos deles acabaram optando pelo retorno à terrinha comprando passagem só de ida. Ele acredita que muitos vão retornar aos EUA depois que a situação se normalizar e especulou que o número não é significativo e não chega nem a1% da colônia. Não bastando o trauma e a insegurança, muitos estão com medo de ficar sem o emprego. A situação nos EUA definitivamente mudou. Com a economia abalada, muitas companhias, especialmente as diretamente ligadas ao turismo estão dispensando funcionários. Como era de se esperar, o efeito cascata refletiu imediatamente nas agências de viagens e hotéis. Desencorajados de viajar muitos turistas estão cancelando as reservas ou adiando para uma época ainda não definida.

A turma da resistência

Por outro lado, há os que mesmo sob a ameaça de uma guerra iminente continuam o cotidiano normalmente e voltar ao Brasil não faz parte de seus planos. A carioca aposentada Marta Fagundes mora em Coconut Creek, há 10 anos, e trabalha num retiro de idosos. Ela não se considera em risco e não se sente mais insegura aqui depois dos ataques do que se sentia no Brasil. Embora consciente da seriedade do momento, Marta acha que o governo está tomando as medidas necessárias e entrar em pânico não ajuda em nada. A situação é mesmo muito preocupante, não nego, mas voltar ao Brasil não vai me dar mais segurança. Deixei o Brasil por causa da violência e não vou me intimidar e fugir uma vez mais, sintetizou. Outros comungam a mesma opinião. Há até os que querem lutar ao lado dos norte-americanos, embora sejam ilegais no país, portanto, preferiram não se identificar. Um deles, muito jovem, demonstrando estar satisfeito com a vida que leva por aqui há 2 anos, justificou que as oportunidades que encontrou na Flórida não as teve no Brasil. O pizzaiolo Orlando Paiva, com o filho de quatro meses no colo, fazia compras tranquilo no Supermercado Brasileiro e não demonstrou a menor insegurança. Disse que se sente protegido aqui e que não pretende retornar ao Brasil, apesar da opinião contrária da esposa. Ela, sim, quer voltar por causa do pequeno filho. Para o valadarense Jaime Caetano, de 32 anos, os EUA é o lugar mais seguro do mundo. Como gerente de uma das lojas Central do Brasil em Pompano Beach ele está em constante contato com a comunidade brasileira e garantiu que os que voltaram ao Brasil apenas apressaram uma decisão que já estava pendente.

Apesar de aparentar-se seguro, o brasileiro fez no entanto uma ressalva. Disse temer a ameaça anunciada pelos terroristas de uma guerra química e biológica. Desta sim eu tenho medo, admitiu.

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