O ataque de 11 de setembro contra o World Trade Center e o Pentágono deu ao mundo uma nova lição de política de segurança. Para começar, demonstrou inesperadamente que eram corretas as idéias promovidas durante anos pelo movimento pacifista e as limitações da segurança baseada no poder militar. Quase tão dramática e espetacular como a queda dos edifícios, e, em conseqüência, da economia e do mercado acionário, foi a depreciação dos investimentos de US$ 1 bilhão das superpotências em armas, forças e bases militares, internos e no exterior.
O dia 11 de setembro deixou bem claro que esse guarda-chuva protetor não serve em absoluto para evitar que sejam seqüestrados aviões comerciais para serem transformados em armas de destruição maciça. Embora nenhum grupo tenha assumido a responsabilidade pelos ataques, nem feito nenhuma demanda, o presidente George W. Bush foi rápido em culpar o Afeganistão.
A decisão do dia 12 de setembro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de considerar o ato terrorista como um ataque a todos os Estados-membros, o que permite o exercício do dever comum de defesa, obviamente está subordinada à supremacia da Carta da ONU e do Conselho de Segurança. As duas resoluções aprovadas pelo Conselho, respectivamente nos dias 11 e 28 de setembro, convocam todos os Estados a unirem-se na luta comum contra o terrorismo.
O problema é que os dirigentes dos Estados Unidos e da Otan têm amplos antecedentes quanto a interpretar segundo suas próprias conveniências as resoluções da ONU e, nesta oportunidade, imediatamente afirmaram que o uso da força em defesa própria havia sido autorizado pelo Conselho de Segurança. Isto abre a possibilidade de numerosas situações de perspectivas funestas, particularmente se considerarmos a experiência do Iraque. Como a resolução original contra o Iraque não contemplou uma data limite, ficou impossível, inclusive depois de dez anos, pôr fim às sanções e aos bombardeios. Agora, é urgente que todos os membros do Conselho de Segurança deixem claro que todo uso de força militar necessita de uma nova resolução do Conselho de Segurança, com a expressa exclusão de armas nucleares e o estabelecimento de um curto período-limite que necessitaria ser renovado pelo Conselho de Segurança a cada uma ou duas semanas.
A perspectiva dos Estados Unidos vendo a si mesmos como dono de um amplo mandato para usar a força, escolher os meios e dispor de tempo ilimitado para combater um inimigo não-especificado através de todas as fronteiras é, por certo, uma receita arrepiante para a instalação de um Estado policial global. Estarão as atrocidades do dia 11 de setembro anunciando uma nova fase na globalização econômica, na qual todas as pessoas, pobres e ricos, se dão conta de que vivemos em um único mundo no qual as massas despossuídas insistirão em receber um tratamento justo?
Depois de Seattle, Washington, Praga, Gotemburgo e Gênova, a raiva contra a ordem econômica mundial teve seu ponto mais alto no ataque de 11 de setembro. Pessoas que sofrem tanto e que estão tão desesperadas a ponto de escolher o suicídio não podem ser combatidas com mais força. Elas necessitam de esperança. Depois de profunda reflexão, os Estados Unidos e o presidente Bush deveriam dar-se conta de que a única guerra contra o terrorismo que pode vencer é a guerra à pobreza, à desigualdade e à falta de direitos humanos e dignidade humana.
(*) O autor, Fredrik S. Heffermehl, é norueguês, advogado e dirigente do International Peace Bureau.