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Terrorismo bacteriológico não é onipotente

(*) Rafael L. Bardají
| Tempo de leitura: 3 min

A linha que separa a prudência do pânico torna-se muito tênue quando se fala de armas bacteriológicas. É natural, pois não apenas se trata de armas silenciosas e praticamente invisíveis, como há anos sabemos que, diante de uma guerra com vírus e bactérias, são poucas as defesas úteis. E mais. Depois dos ataques de 11 de setembro e suas conseqüências catastróficas, estendeu-se a visão de que, a partir de agora, tudo é possível para o mundo do terror, que as sociedades democráticas e avançadas são tão abertas quanto vulneráveis e que estão expostas a ataques terroristas com armas de destruição em massa e conseqüências incalculáveis em perdas humanas.

Porém, isso não é certo. A experiência das últimas décadas destaca que os grupos terroristas, por mais sofisticados que sejam, encontram grandes dificuldades, na maioria das vezes insuperáveis, para dotarem-se de armas químicas e bacteriológicas. Embora nos últimos anos diversos relatórios oficiais e particulares alertassem sobre a possibilidade de uma agressão terrorista com armas de destruição maciça, a verdade é que houve apenas dois casos constatados de uso de sistemas bacteriológicos e químicos.

O primeiro nos Estados Unidos, em 1984, onde a seita dos Rajneeshees provocou uma epidemia de salmonelose que afetou cerca de mil pessoas; o segundo, no Japão, em 1995, quando a seita Aum Shinrikyo cometeu atentado com gás sarin no metrô de Tóquio, causando a morte de 12 pessoas e enfermidades consideráveis em cerca de mais uma centena. No papel, as armas bacteriológicas são temíveis pelo grau de vítimas mortais que podem causar. Segundo estimativas oficiais norte-americanas da Fema (a agência federal para as emergências civis), que comparam as conseqüências causadas por diferentes tipos de armas, o mesmo número de baixas por quilômetro quadrado podem ser produzidos por 1.600 quilos de bombas de fragmentação, 160 quilos de gás mostarda, 40 quilos de gás nervoso, 2,5 quilos de material radioativo numa arma rudimentar de fissão nuclear, 40 gramas de toxina causadora do butolismo, ou 4 gramas de esporos de antraz. Nesse sentido, parece evidente a atração que estes dois últimos agentes podem ter para mentes terroristas.

A história mostra, entretanto, que para os grupos terroristas é muito complexo obter essas substâncias. A maior dificuldade começa com a produção desses agentes. Não basta iniciar o cultivo com uma parte de alguma bactéria, mas deve-se contar com um potencial letal muito alto. Consegui-la com estas características da natureza é muito complicado e, de fato, nos laboratórios onde se pesquisam elementos bacteriológicos e vírus como armas de guerra, a maioria desses agentes são modificados geneticamente para aumentar sua virulência, ganhar estabilidade e favorecer sua produção. E mais: o cultivo dos agentes letais também apresenta problemas e exige pessoal altamente qualificado em microbiologia.

A seita Aum Shinrikyo tinha trabalhando em seus laboratórios químicos 80 licenciados universitários e mais 20 em seus projetos bacteriológicos, o que não impediu que as novas tentativas de ataques biológicos falhassem uma após outra e que de 20 agressões químicas apenas duas tivessem um certo êxito. No caso dos Rajneeshees do Oregon, seus recursos humanos limitavam-se a um médico e pessoal de enfermaria e laboratório e, ainda assim, sua idéia de estender a febre tifóide teve que se transformar, ao longo de mais de um ano de testes, em algo mais fácil e menos grave: um ataque de salmonelose (Salmonella enterica em lugar de Salmonella typhi).

(*) O autor, Rafael L. Bardají, é fundador do Grupo de Estudos Estratégicos - GEES - e assessor-executivo do ministro da Defesa da Espanha.

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