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Dependência em um mundo em crise

(*) Marcos Cintra
| Tempo de leitura: 2 min

Fatores externos, como a crise argentina, o desaquecimento da economia mundial e as conseqüências dos ataques terroristas nos EUA, devem potencializar o desempenho negativo do país na área econômica. É possível até mesmo uma retração do PIB nacional. A falta de ações efetivas do governo para minimizar a extrema dependência externa do Brasil pode provocar neste momento de ebulição do cenário internacional uma grave crise econômica, que pode até se perpetuar nos próximos anos caso os conflitos internacionais se intensifiquem.

Lamentavelmente, o governo brasileiro não se dispôs a implementar ações concretas visando ajustar as contas externas do País, achando que as perspectivas de uma folgada entrada de investimentos do exterior poderia cobrir o rombo no balanço de pagamentos. Com a crise mundial o fluxo desses recursos tende a recuar, potencializando o déficit das contas externas. A recessão interna e a depreciação do real poderá melhorar o desempenho das exportações brasileiras. No entanto, com a possível retração econômica mundial isso pode ser parcialmente anulado. Por outro lado, como 60% do déficit corrente correspondem ao pagamento de juros da dívida externa, e esse item não se retrai em função da recessão e do real depreciado, a pressão sobre o balanço de pagamentos será significativa.

As autoridades econômicas podem até dizer que foram fatos imprevisíveis no cenário mundial que levaram a esse quadro. A verdade é que, há 7 anos, quando a estabilidade da moeda foi alcançada com o Plano Real, o governo optou em se acomodar e colher os dividendos políticos do feito. Não se implementou estratégias visando diminuir a vulnerabilidade externa do País.

O poder público nos últimos anos priorizou demasiadamente a geração de superávits primários para fazer frente a uma explosiva dívida mobiliária interna, que cresceu 900% em 7 anos, fruto, em grande parte, de erros na condução da política cambial durante os primeiros quatro anos do Real. É impressionante como o poder público federal capricha no acúmulo de erros sucessivos na condução da economia. O custo imposto às famílias e ao setor produtivo, por conta dessas falhas, vem se tornando insuportável.

Hoje o Brasil registra situações preocupantes: perspectivas de recessão; alta carga de tributos, fator limitante da capacidade competitiva da economia nacional e causador de injustiças sociais; alta taxa de desemprego e subemprego; dívidas, interna e externa, que somam mais de R$ 1 trilhão, equivalente a tudo que o País produz em um ano; e um elevado grau de dependência externa. Enfim, são problemas que demandam uma nova postura na condução da política econômica.

Como lição pelos erros passados, o governo precisa agir. Oportunidades surgem com as crises e o País precisa aproveitá-las, até mesmo para diminuir sua excessiva dependência em relação ao resto do mundo.

(*) O autor, Marcos Cintra, é doutor em Economia pela Universidade de Harvard - EUA -, professor-titular e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas, deputado federal pelo PFL-SP - e-mail: mcintra@marcoscintra.org

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