O que nos assusta na tragédia do dia 11 de setembro, além da forma como muitas pessoas perderam suas vidas, é o fato de que os autores não eram simplesmente terroristas, mas principalmente homens extremamente religiosos. Com toda a certeza, para o seu grupo islâmico estes homens são verdadeiros santos, mártires que deram sua própria vida por amor e fidelidade a seu Deus.
As cenas de destruição do World Trade Center mostram-nos como o terror pode ser provocado por convicções religiosas e confronta-nos com uma perigosa tendência no mundo da fé: o fundamentalismo.
Fundamentalismo era o nome dado a um movimento protestante norte-americano extremamente conservador fundado no início do século passado.
Os princípios básicos dos fundamentalistas eram o patriotismo, a economia liberal e uma tendência forte contra o ecumenismo das igrejas. Um dos seus maiores representantes chamava-se Carl McIntire fundador da American Council of Churches.
Com o passar do tempo, a expressão ganhou um sentido mais amplo. Hoje, fundamentalismo constitui-se em uma tendência que possui como características básicas: o entendimento literal de um texto sagrado, de suas mensagens e de suas normas de comportamento. Fundamentalistas são, por exemplo, os cristãos que afirmam que Deus criou o mundo em seis dias, como relata o livro do Gênesis.
A segunda característica do fundamentalismo é a sua resistência a admitir que a religião é um fenômeno de caráter privado. O fundamentalista possui a forte tendência de querer dominar a esfera pública com suas convicções religiosas.
Uma forma extremada desta iniciativa é a chamada teocracia, ou seja, um governo que representa o poder de Deus sobre os homens. Neste sistema normas reveladas por Deus tornam-se leis civis, como aconteceu, por exemplo, na fase inicial da república islâmica do Irã no governo de Khomeini e hoje acontece no Afeganistão com o Taliban.
Ao contrário do que muitos podem pensar, o fundamentalismo não é um fenômeno somente presente no mundo Islâmico, mas sim uma doença que pode contagiar qualquer manifestação religiosa. Na verdade, o fundamentalismo surge quando fiéis de uma determinada religião declaram-se possuidores da verdade e desejam impor a mesma ao mundo. Desta postura desenvolve-se normalmente a intolerância frente a outras convicções e cria-se uma ditadura da fé que pode ser vivida em todos os níveis chegando a romper as fronteiras entre religião e política.
O cristão que hoje fica indignado com o fundamentalismo islâmico precisa olhar um pouco para sua própria história. Apesar de no Cristianismo a divisão entre religião e política possuir raízes religiosas (Devolvei a César o que é de César, e o que é de Deus, a Deus - Mt. 22, 21), durante séculos, a íntima relação entre Igreja e Estado constituiu-se em norma e não em exceção.
Papas tiveram a pretensão de governar a Terra, monarcas fizeram do Cristianismo uma religião estatal e um instrumento de consolidação de seu poder. A liberdade religiosa sempre foi uma dificuldade para a Igreja Católica em seus quase dois mil anos de existência. Papas como Gregório XVI, Pio VI ou Pio IX voltaram-se com veemência contra liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade política e naturalmente liberdade religiosa. Nós cristãos carregamos o peso de um passado de dominação religiosa: as Inquisições (católicas e protestantes), as perseguições e mortes dos hereges, as guerras religiosas, as cruzadas, o colonialismo feito com a cruz e a espada, o silêncio frente ao holocausto judeu.
Na verdade somente em 1963 a Igreja Católica aceitou oficialmente a liberdade religiosa com a encíclica Pacem in Terris do papa João XXIII e em 1965, no Concílio Vaticano II, com a declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae.
Apesar do pedido de perdão do Papa João Paulo II. e do avanço do diálogo entre as igrejas cristãs neste começo de Milênio, nós cristãos estamos ainda no início de uma vida de fé em um mundo pluralista e tendências fundamentalistas continuam presentes em nossa realidade.
Muitas igrejas cristãs julgam-se ainda possuidoras exclusivas da salvação, a Bíblia é muitas vezes lida sem o discernimento entre revelação de Deus e mentalidade da época, mentalidade esta marcada pelo exclusivismo e pela luta de poder. No âmbito da fé, a sociedade pluralista vacila entre fundamentalismo e sincretismo.
Para evitar estas duas tentações é necessário informação e formação, o contato pessoal entre os membros das diversas comunidades religiosas, o entendimento de que religião não é poder político, mas sim uma força ética que deve ajudar para o bem estar e a felicidade de todos e, finalmente, o empenho de viver o critério básico de salvação: o respeito e a solidariedade à pessoa humana independente de sua cultura, religião ou raça (Mt. 25, 31-46). Pluralidade que não se reduz à unidade é confusão; unidade que não depende de pluralidade é tirania (Blaise Pascal).
Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com
(*) Especial para o JC Cultura