Geral

Os novos burgos

(*) José Alex Rego Soares
| Tempo de leitura: 3 min

À medida em que a violência avança nos grandes centros urbanos, percebemos um fenômeno de reclusão das famílias, em especial de classe alta e média em condomínios fechados, em busca de maior proteção, criando uma situação semelhante aos velhos burgos da Idade Média, guardadas as devidas características de cada período. Na Idade Média, começavam a surgir cidades nas localidades em que duas estradas interpelavam-se, ou na desembocadura de um rio, ou ainda num desnível geográfico propício a sua instalação. Nestes pontos encontra-se geralmente uma igreja ou uma zona fortificada, o chamado burgo fortificação que propiciava proteção aos comerciantes em casos de ataques inimigos, comuns naqueles tempos.Mercadores e nômades se alojavam nestes burgos entre suas infinitas viagens, esperando as intempéries se acalmarem. Esta hospedagem fazia-se junto aos muros do burgo e com o decorrer do tempo aglutinavam cada vez mais mercadores. Criava-se então um frauburg, ou burgo extra muro, e com o escopo de garantir proteção a um ponto comercial acabavam por construir paliçadas para proteger, além do comércio, suas próprias vidas.Com a intensificação do comércio, os muros que cercavam estas cidades acabaram por ruir, jorrando para todos os pontos a febre do se comercializar, trocando com isso não só produtos, mas cultura e conhecimento, estreitando as relações entre homensde diversas regiões do Planeta o diferente não passa ser mais bizarro, uma lenda. Os homens de negócio começam a se constituir em uma nova elite social: a burguesia.A consolidação do modo de produção hegemonizado pelos burgueses e sua capacidade de propagação neste começo de século não garantiu a proteção e segurança individual e, conseqüentemente, do restante da sociedade. Agora, a distorção social que germina no seio da sociedade é fruto da incapacidade da elite dominante em resolver a questão social, levando-os a buscar mais um vez soluções segregacionistas que aparentemente são as soluções mais fáceis e eficiente, segundo seu ponto de vista. A buscar por abrigo atrás das novas fortificações, é a nova grande façanha dos burgueses contemporâneos.Neste sentido, a expansão dos condomínios fechados ou mesmo bairros, que não é nenhuma novidade, é fruto da insegurança que os perseguem desde a sua própria gênese de classe e, agora, se alastra pela classe média e média baixa - uma verdadeira febre. O isolamento imposto como nós estamos acompanhando leva a outra situação que não temos ainda como aferir. As leis e normas de conduta dos cidadãos numa sociedade tão desigual, pode criar um abismo maior ainda. As leis, os regulamentos, as condutas internas nos burgos contemporâneos podem ser ditadas conforme os seus interesses. A lei de fora não é a mesma de dentro.A própria relação de cidadania vai ser seriamente afetada, pois ao não pertencer ao conjunto da sociedade, os problemas do conjunto da sociedade não necessariamente pode afetar aqueles que estão isolados em seus feudos. Este sentido de proteção leva a uma relação de extrema tensão entre os homens que se organizam na sociedade geral e aqueles que se encontram protegidos pelos novos burgos. Temos neste contexto uma retração das relações sociais. Se alguns podem ter todo o conforto de um burgo, por que disponibilizar renda e condições dignas para o conjunto da sociedade?O gesto negativo, ou seja, a noção social dos homens é neste momento apresentado como a grande salvação da humanidade, colocando a questão da violência como um mero caso de segurança privada e não como um fenômeno da própria contradição de acumulação versus distribuição de riquezas, que vem desde os primeiros burgos. Sem resolver esta questão de distribuição de renda, de oportunidades iguais para todos não tem como minimizar essa situação. Não há muro que segure a violência social.

(*) José Alex Rego Soares é economista

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