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A ilha: chance ou fuga

(*)Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

A vida agitada e marcada pelo estresse de Chuck Noland sofre uma mudança radical através de um acidente de avião. Como único sobrevivente, Chuck consegue chegar a uma ilha deserta.

Na situação de náufrago, o workaholic entra, à princípio, em um estado de desorientação. Sem contato com a civilização, com o relógio quebrado e sem seu celular, Chuck perde aquilo que para ele era a medida de todas as coisas: o controle sobre o tempo. Na ilha não há motivo algum para apressar-se: a pontualidade torna-se algo totalmente supérfluo.

Quem parece determinar todo o desenvolvimento das coisas, até mesmo a chance de sobrevivência do náufrago, é a natureza. Chuck, filho de uma sociedade de consumo extremamente marcada pela evolução tecnológica e pela concorrência, torna-se o descobridor e conquistador de um mundo até então completamente desconhecido: ele próprio.

Ao lutar por sua sobrevivência e ter somente a si próprio como única companhia, Chuck descobre o seu próprio fundamento. A ilha e a situação de desaparecido ganham um caráter de escola da vida.

Sem os grandes planos, compromissos e preocupações com as dívidas e a conta bancária, Chuck é forçado a transformar-se em uma outra pessoa e a redefinir o sentido da vida.

A ilha torna-se um lugar de re-educação no sentido mais radical da palavra.

Finalmente, quando o náufrago consegue retornar à civilização, inicia-se uma nova relação com o mundo, pois seus valores, critérios éticos e a compreensão sobre a vida já não são mais os mesmos. Em uma das últimas cenas do filme Náufrago (Cast Away), Chuck encontra-se, no meio do deserto, em um cruzamento de estradas. Aquele que era há alguns anos um escravo do tempo e do trabalho é um homem livre e seu caminho encontra-se aberto. Náufrago apresenta-nos uma das metáforas mais antigas da humanidade e um dos símbolos de nosso inconsciente coletivo: a ilha.

Para os celtas ela constituía-se no mundo dos mortos (Avalon). O próprio rei Arthur, segundo a Vita Merlini deveria ser ocultado na ilha Pomorum. Na literatura da Idade Média junta-se a concepção da antigüidade, da ilha como mundo das almas, com a idéia judaico-cristã do paraíso, insula amoena ou locus amoenus (lugar do prazer), onde os heróis poderiam viver fora do cotidiano imortalizando assim sua aparência.

A ilha sempre foi vista como lugar de solidão e recolhimento onde o ser humano pode vivenciar um encontro com o seu próprio eu. Sem dúvida alguma, nós, muitas vezes, sentimo-nos como uma ilha, em isolamento e incompreensão.

Hermann Hesse retrata este estado de solidão do ser humano ao escrever que as almas são como flores. Cada flor está enraizada em um determinado lugar no jardim e nenhuma consegue ir ao encontro da outra. Se isso acontecesse elas teriam que deixar suas raízes e justamente isso é o que elas não conseguem. As flores soltam seus perfumes e seu pólen porque anseiam pelo encontro, mas as flores não podem determinar se um pólen chega realmente ao destino desejado.

Quem determina seu destino é o vento. E este chega e vai como e para onde deseja. Cada ser humano possui sua individualidade e ninguém pode sentir como ele próprio seus sofrimentos, suas alegrias ou decepções. Apesar da companhia de outros que nos amam, quem tem que fazer a experiência de vida e morte somos nós mesmos.

A situação de ilha oferece-nos, porém, a chance de vivermos um encontro profundo com nosso eu. Uma ilha é sempre imaginada em forma circular tornando-se assim um símbolo da perfeição.

Somente procurando explorar e conhecer a minha própria ilha sou capaz de manter-me no caminho da perfeição e talvez construir pontes sólidas que unam minha ilha com outras. Somente através do conhecimento da minha natureza humana posso realmente conhecer e compreender os outros com quem convivo. Como diz um provérbio alemão: Deus nos dá as nozes. Mas não as quebra.

A ilha pode significar também uma possibilidade de fuga do mundo real.

Muitos constroem para si uma ilha e procuram viver no paraíso das aparências e do imaginário como interpreta Shakespeare em A Tempestade. Nos sonhos a ilha pode significar a pouca relação com a realidade, um verdadeiro símbolo de alienação. É assim que Truman Burbank relaciona-se com o lugar onde vive, a ilha de Seaheaven. Na vida de Truman tudo é perfeito, mas nada é autêntico.

A ilha não oferece para Truman nenhuma possibilidade de encontro com seu eu.Qualquer tentativa de questionamento sobre quem na verdade ele é e o que deseja fazer é rapidamente camuflada com uma farsa. Neste mundo niilista construído pelo filme O Show de Truman, o paraíso deixa de ser sonho e a realidade passa a ser desejo. Muitas vezes construímos nossa ilha, na qual selecionamos nossos relacionamentos, tornamos artificiais os comportamentos e vivemos em um teatro. Nos tornamos prisioneiros desta espécie de ilha quando sentimos medo de sermos autênticos e relutamos em compreender que não podemos nos tornar o que devemos ser se continuamos sendo o que somos (Max de Pree).

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

(*)Padre Beto Especial para o JC Cultura

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