Novo diretor do Cadeião, delegado Roberval Fabbro, também está montando regulamento interno para os detentos.
No último dia 11, a Cadeia Pública de Bauru, o Cadeião, registrou a maior fuga de sua história: 89 dos 161 presos que abrigava ganharam a rua. Oito dias depois, a Polícia Civil designou um delegado exclusivo para o Cadeião. Homem de confiança da administração, Roberval Fabbro, 34 anos, está com um abacaxi em mãos. Precisa administrar a falta de funcionários, controlar a população carcerária e ainda manter os presos calmos neste final de ano, período mais crítico nos presídios.
Jovem e dinâmico, o delegado que já tem oito anos de experiência e que estava respondendo pela Delegacia de Itapuí, chegou disposto a colocar ordem na cadeia. Na primeira semana tomou decisões consideradas polêmicas, como limitar as visitas e fazer um regulamento interno. Veja na íntegra a entrevista com o delegado.
JC - Assumir a Cadeia Pública de Bauru, logo depois da fuga de 89 presos, foi um prêmio ou castigo? Fabbro: Foi um prêmio. Foi o reconhecimento do meu trabalho. Eu acredito que eles precisavam de uma pessoa de confiança, que pudesse melhorar a situação. Foi um prêmio também porque minha família é daqui de Bauru e, assumindo a cadeia, posso ficar perto deles. Foi uma conjugação de interesses meu, e da administração.
JC: Em que condições o senhor saiu de Itapuí para assumir a cadeia? Fabbro: Eu fui convidado, portanto poderia ter recusado. Saí de Itapuí porque encarei a missão como um desafio.
JC: Quais são os seus planos imediatos para melhorar a situação? Fabbro: Estou engatinhando. Tomei conhecimento da situação e estou fazendo um levantamento de tudo para poder fazer modificações. Pretendo fazer mudanças na segurança e no desempenho dos funcionários em relação ao serviço.
JC - No item segurança, o que o senhor pretende fazer? Fabbro: Não há muito o que fazer em relação à segurança naquilo que diz respeito à parte física. O prédio tem mais de 50 anos e deixa muito a desejar. Já passou por várias reformas. Estou pretendendo fazer um muro mais alto, mas estamos sem recursos. Vou lutar por isso. A direção anterior já tinha providenciado telhas para resolver o problema de infiltração. A troca vai ser feita.
JC: O que o senhor pretende mudar em relação aos funcionários? Fabbro: Estou melhorando a escala, modificando para que sempre tenha um funcionário auxiliando o carcereiro.
JC: A cadeia tem déficit de funcionários? Fabbro: Temos 11 carcereiros lotados aqui. Um é readaptado, isso quer dizer que ele não pode exercer a sua função. Ele pode fazer outra coisa, mas não pode exercer a função de carcereiro. Um está afastado depois da fuga dos 89. Três estão de licença médica. Uma mulher está no cartório central e uma está de licença prêmio. Tem um (cercereiro) que foi para São Paulo fazer alguns exames e nós não sabemos se ele vai entrar de licença ou não.
JC: O que se pode fazer com tão poucos carcereiros? Fabbro: Tenho que administrar as dificuldades. A falta de funcionários é o problema mais difícil. Hoje (terça-feira) tive que colocar a carcereira que trabalha no cartório para fazer o serviço durante o dia. Na verdade, estou com cinco carcereiros, sendo que duas são mulheres e eu não posso colocá-las para cuidar de 160 presos. Tivemos que trazer carcereiro de uma cidade vizinha para trabalhar à noite. Eu estou solicitando para a administração me arrumar mais carcereiros.
JC: Há concursos previstos para preencher vagas de carcereiros? Fabbro: Não há concurso previsto porque eles falam em desativação da cadeia, em virtude do Centro de Detenção Provisória (CDP). Mas a cadeia só vai ser desativada quando o CDP estiver funcionando porque não tem outro lugar para colocar os presos.
JC: Com falta de funcionários, a segurança não fica comprometida? Fabbro: Eu tenho um carcereiro e um funcionário por turno para cuidar de 160 presos, em média. A Polícia Militar, esporadicamente, faz a segurança externa. Eles passam com a viatura e param por alguns minutos, mas não estão mantendo um homem fixo.
JC: A cadeia tem alarme? Fabbro: Nós não temos. Temos algumas câmeras que cobrem alguns pontos da cadeia. Elas estão funcionando e eu estou precisando melhorar este sistema. Queria mais uma câmera para instalar na área externa, para garantir a segurança, para fazer o controle da aproximação de veículos e de pessoas estranhas.
JC: Depois de tomar conhecimento da situação, qual será a sua primeira providência? Fabbro: Essa cadeia não tem regulamento. Vou implantar um que atribua a disciplina dos funcionários e os direitos e deveres dos presos. A partir do momento que se estabelece esse regulamento, então eu vou ter elementos para cobrar.
JC: O que o senhor pretende mudar na rotina dos presos. Fabbro: Hoje eu diminui meia hora do pátio dos presos. Eles estavam com três horas de pátio, isto significa que eles ficavam fora das celas por três horas. Eu considero exagerado esse tempo. Não adianta fazer uma mudança brusca. Vou fazer modificações gradativas.
JC: O senhor pretende diminuir o número de visitas de cada preso? Fabbro: Sim. Cada um deles vai ter direito a receber uma pessoa como visita. A visita dos filhos também será restrita. Cada preso poderá receber a visita de um filho a cada 15 dias, a partir da próxima semana.
JC: O senhor não acha que está sendo muito duro? Fabbro: Essa questão também é de segurança. São 160 presos. Se cada um deles receber duas visitas, são 320 pessoas dentro da cadeia.
JC: O número de visitas influencia na precisão da revista? Fabbro: Com um número maior de visitas, o funcionário faz a revista mais rápida. Eu quero uma revista mais minuciosa. Com um número menor de visitas é possível fazer uma revista mais rigorosa.
JC: O senhor desconfia que as visitas entram com objetos proibidos para os presos? Fabbro: Se entra alguma coisa estranha na cadeia, o meio que eles mais utilizam é a visita. Chega a absurdos de mulheres entrarem com entorpecente na vagina. Em São Paulo teve um caso de uma mulher que entrou com um aparelho celular na vagina.
JC: O senhor está pedindo a desativação do telefone público da cadeia? Fabbro: Estou pedindo a desativação do aparelho que fica no pátio interno. Ele servia, em tese, aos funcionários. Estou pedindo a desativação para evitar disse-que-disse.
JC: Como foi a recepção dos funcionários? Fabbro: O funcionário apóia toda mudança que venha para melhorar o ambiente de trabalho. Eu disse a eles que, em virtude dos últimos acontecimentos, eles ficaram malvistos porque a tendência é que a sociedade generalizar o comportamento de um para todos. Então, todos têm mal comportamento perante à sociedade.
JC: De que maneira o senhor pretende mudar a imagem dos funcionários da cadeia perante à população? Fabbro: Com trabalho, dedicação e com essa disciplina mais rígida que estamos implantando aqui, queremos mudar a imagem negativa criada para eles. Eu tenho intenção de fazer um convênio com uma das universidades para que os funcionários tenham acompanhamento psicológico. Trabalhar na cadeia é estressante e eles precisam de apoio.
JC: O prédio já foi vistoriado pela Vigilância Sanitária...Fabbro: O prédio já foi vistoriado pela Vigilância Sanitária e está com sérios problemas de esgoto. Foi considerado inadequado para acolher esse número de presos. Tem um laudo solicitando a interdição da cadeia. Tem que pedir a interdição e apresentar a solução. Como vai fechar a cadeia se não tem onde colocar os presos?
JC: O senhor acha que o Centro de Detenção Provisória pode solucionar o problema de superlotação da cadeia? Fabbro: Eu acho que é a solução. É um prédio construído para ser presídio, com capacidade para 500 presos.