Os fatos ocorridos no dia 11 de setembro puseram em marcha uma dinâmica cujas conseqüências agora encontram-se além do controle de qualquer dos atores principais. O terror cavalga o torvelinho e desencadeia uma retórica inflamada e reações por parte de ambos os lados que reforçam os elementos mais extremistas em cada um deles. Dois impérios messiânicos competem pela fidelidade do público, com visões mutuamente excludentes e totalitárias. Ambos têm uma parte da verdade, mas nenhum dos dois possui a totalidade dela. E, ao reclamar para si a posse de toda a verdade, um e outro cometem erros fatais.
Os EUA, que historicamente sempre viram a si mesmos como uma nação com a missão sagrada de levar a luz a um mundo ignorante, enfrentam uma cultura muçulmana que também afirma ser a depositária da revelação divina em um mundo cheio de infiéis. Enquanto o Ocidente vê os fundamentalistas muçulmanos como os protagonistas de um salto atrás para a Idade Média, muitos muçulmanos consideram que os EUA são uma bárbara criatura infectada por um modernismo pagão, que ignora os êxitos históricos do mundo islâmico nos campos da ciência e da cultura, numa época em que os europeus ainda vivem na sordidez medieval.
No mundo atual, existem dois grandes sistemas de terror que emanam de duas fontes muito distintas. Há um terror praticado por grupos e indivíduos (em sua maioria, mas, não, inteiramente no Terceiro Mundo) com poucos recursos financeiros ou materiais, mas com uma fúria avassaladora e um impulso suicida em busca de vingança contra a tentadora e atormentadora influência do Ocidente. Porém, também existe o terror de luvas brancas praticado por conhecidos governos para ganhar ou manter o controle sobre os outros.
Esse tipo de terror é praticado não só por nações como o Irã ou a Coréia do Norte, mas, principalmente, pela única superpotência mundial, os EUA, através de políticas militares e econômicas coercitivas executadas, em sua maior parte, por governos substitutos no mundo em desenvolvimento, como Colômbia ou Afeganistão, este durante a guerra contra a União Soviética. Em troca de ajuda norte-americana pública ou encoberta, os governos substitutos proporcionam eficazes, ainda que freqüentemente brutais, instrumentos aos EUA para que estes possam alcançar seus objetivos seletos. Nenhuma das duas partes acredita que está empregando o terror contra a outra. Cada uma delas justifica sua violência qualificando-a de resposta razoável a agressões não-provocadas.
Mas, os infelizes civis que são suas vítimas principais sabem bem o que é o terror, pois são eles que o sofrem. Esse sistema é tão generalizado que mesmo os que o infligem vivem o temor do terror do outro. E eles se vêem levados por esse medo a injetar terror em suas próprias populações, seja como conseqüên-cia de seus próprios medos ou como estratégia deliberada de controle social. Com os gêmeos do terror, olhando-se colericamente um para o outro, em meio a uma terra de ninguém de cidadãos comuns, cabe à maioria da humanidade, que nada tem a ver com a disputa, embora seja sua principal vítima, dar um passo atrás nesse conflito e reunir-se no terreno comum que se encontra entre aqueles dois.
William Ury, diretor do Programa de Prevenção da Guerra da Universidade de Harvard, diz que em toda disputa não há apenas duas partes, e sim três. Em seu livro O terceiro lado descreve os indivíduos e os grupos que se afastam do conflito, não como neutros, mas como potenciais construtores de pontes entre as duas partes. Seu papel não é o de intermediários em busca de um compromisso, mas o de forjadores de uma síntese que satisfaça os interesses fundamentais de ambas as partes. Jimmy Carter e Kofi Annan são proeminentes exemplos, mas, o caráter de terceira parte não está reservado unicamente a mediadores com credenciais reconhecidas.
O movimento diplomático cidadão dos anos 80 fez com que ocidentais comuns visitassem a União Soviética e seus aliados e forjassem vínculos de confiança mútua que pareciam não existir diante das dinâmicas da política das superpotências. Mas, como a gota de água que dissolve o gelo, eles gradualmente dissolveram o ódio que havia alimentado esse conflito de meio-século e abriram um espaço dentro do qual os políticos podiam mover-se com segurança. Num ambiente de polarização em que os dirigentes declaram quem não está conosco está contra nós, ficar no terceiro lado requer coragem. Porque, devido à sua posição, os que se colocam no terceiro lado desafiam a dinâmica do eles ou nós através da qual os inimigos justificam seu poder.
Posto que a lealdade dos primeiros que se situam no terceiro lado é questionada, eles dependem em última instância dos demais para validar sua perspectiva e amenizar seu isolamento. Uma segunda onda de terceiristas pode, às vezes, virar decisivamente a opinião pública a seu favor. Num momento no qual nossos dirigentes se mostram desprovidos da sabedoria necessária para guiar-nos a outro lugar que não o abismo, estes terceiristas podem liderar a marcha para fazer com que a terra de ninguém existente entre os combatentes cegos pelo medo se converta em uma terra de todos, governada não por um poder hierárquico irresponsável, mas, por uma ética de tolerância e benefícios mútuos amplamente adotada pelas pessoas.
(*) Mark Sommer, escritor e colunista, dirige o Mainstream Media Project, iniciativa com sede nos EUA para levar novas vozes ao rádio.