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Aids: um 11 de setembro todo dia

(*) Paula Donovan
| Tempo de leitura: 3 min

Como se explica o desconcertante abismo que existe entre a tolerância zero para a injustiça do assassinato de milhares de pessoas no, dia 11 de setembro, e a total apatia diante da morte de 17 milhões de pessoas em razão da aids? Parece que sepultamos a ira ante a injustiça do HIV/aids junto com os que morreram até agora. O que realmente nos preocupa é a misogenia nos lares e nos parlamentos, a violência brutal, as violações impunes, o abandono, a traição, o deliberado descuido dos governos - ricos e pobres - e a sistemática e injuriosa exploração de mulheres e crianças em benefício de um maior bem-estar pessoal e controle dos homens. Cada um desses males sociais tolerados causa atrocidades.

Algumas vezes a injustiça está enterrada bem mais abaixo da superfície. A escavação requer a quase sempre mencionada (mas, raramente compreendida) análise dos gêneros. Para organizações como o Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento da Mulher (Unifem), a análise dos gêneros significa olhar por baixo da superfície, muito além dos números. Significa investigar para entender como as vidas que as mulheres levam são limitadas e distorcidas quando as sociedades dominadas pelos homens insistem em forçá-las a desempenhar papéis e a terem expectativas reservadas apenas para o sexo inferior.

A analise de gêneros estimulará todo tipo de ações decisivas, incluindo a separação de todos os dados por gênero sexual a fim de melhorar nossa compreensão não só a respeito dos infectados com HIV/aids, mas, também, sobre todos os demais que sofrem, os que recebem ajuda e os que não a têm. Devemos, ainda, saber onde são necessárias políticas para enfrentar a doença e onde se deve gastar o dinheiro para isso.

É possível que uma maior análise de gêneros não só nos leve a soluções úteis como também nos faça recordar um fato importante: que a luta contra o HIV/aids é uma luta contra a injustiça. Hoje em dia deveríamos voltar a dizer frases que perderam seu significado devido a uma interminável repetição, como, por exemplo, a desigualdade entre os sexos está na raiz da pandemia do HIV/aids, ou a dominação masculina finalmente converteu-se em uma pandemia mortífera. A realidade é que a luta contra o HIV/aids é uma luta contra a injustiça. E a indignação diante dessa injustiça, tão persistente como a opressão e o sofrimento das mulheres e tão tortuosa quanto o HIV/aids, é, por certo, justificada.

Podemos desmascarar a falta de sinceridade do compromisso global para enfrentar o HIV/aids e a desigualdade que sofrem as mulheres. Dadas as novas provas da capacidade mundial para unir-se contra algo indesejável e para encontrar os recursos para eliminá-lo, devemos canalizar nossa impaciência e construir um movimento social tão forte e comprometido quanto qualquer guerra contra o terrorismo. Deve ser um movimento que reavive o desejo de justiça, mas que meça o alcance de seus êxitos na quantidade de sobreviventes.

(*) A autora, Paula Donovan, é conselheira regional para a África sobre Gêneros e HIV/aids do Unifem, o Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento da Mulher.

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