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Terra pode ter "clone" na Via Láctea

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Astrônomo da USP, Roberto da Costa, explica que é possível existir um planeta parecido com a Terra na nossa galáxia.

Olhar para o céu e observar os astros sempre fascinou e continua fascinando os homens, dos antigos estudiosos chineses e egípcios aos modernos cientistas da atualidade. Muito se descobriu, principalmente nos últimos séculos, sobre a origem das estrelas, dos planetas e do próprio Universo, mas muitas dúvidas ainda existem e devem continuar existindo até que a tecnologia permita uma observação mais detalhada do espaço.

O físico e astrônomo gaúcho Roberto DellAglio Dias da Costa, professor do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), trabalha nessa observação do espaço há 14 anos e é um especialista no assunto. Na entrevista a seguir, ele dá, praticamente, uma aula e esclarece questões sobre astronomia que despertam a curiosidade daquelas pessoas que algum dia já pararam para observar a beleza de um céu estrelado, inclusive sobre a possibilidade de existir um planeta parecido com a Terra, uma espécie de clone, na Via Láctea.

Jornal da Cidade - O big bang é realmente a origem do Universo?Roberto DellAglio Dias da Costa - Essa é, atualmente, a teoria mais aceita em todo o mundo. A única teoria alternativa, chamada de teoria do estado estacionário , que é uma formulação dos anos 40 e 50, está fora de moda. Existem vários argumentos muito fortes a favor do big bang que não podem ser explicados pela outra teoria. Um dos argumentos fortes a favor da teoria do big bang, que não pode ser explicado por nenhuma outra teoria é o fato de que o Universo está se expandindo. A distância média entre as galáxias está aumentando com o tempo. Essa é uma descoberta dos anos 20 feita pelo astrônomo Hubble, aquele que dá nome ao telescópio.

JC - O big bang foi uma grande explosão?Costa - Sim, mas não uma explosão no sentido químico, como uma granada que explode e espalha pedaços por uma certa área. Foi uma expansão súbita da massa, do espaço, do próprio Universo, que expandiu a partir de um instante inicial que deve ter sido entre 13 e 15 bilhões de anos atrás. Existe uma faixa de erro grande nessa idade ainda. O que teria gerado essa expansão, até agora, é uma questão sem resposta. A área da astronomia que estuda o Universo em larga escala e a evolução do Universo é a cosmologia e existe em cosmologia uma série de questões sem respostas. Uma delas é essa, que é clássica, o que desencadeou o big bang?.

JC - Onde estava essa matéria que expandiu?Costa - Em todo o Universo. O Universo todo se expandiu e com ele o espaço também. Não há sentido perguntar em que ponto do Universo foi o big bang, ele aconteceu no espaço todo ao mesmo tempo. Só que todo esse volume, que era muito pequeno, se expandiu e formou o Universo todo. Outra coisa que não tem sentido é perguntar sobre a localização da matéria. O Universo é onde a gente está.

JC - O Universo é infinito?Costa - É infinito sim, o que não se pode afirmar com certeza é se o Universo vai continuar se expandindo para sempre ou se em algum momento vai começar um movimento de contração. Para se saber isso é preciso estudar a densidade, a quantidade de matéria por unidade de volume do Universo. Isso ainda está em aberto.

JC - Quantas galáxias existem no Universo?Costa - Existem algumas projeções sobre esse número que surgiram depois da instalação do telescópio espacial. Em 97 ou 98, chegaram a esse número partindo de uma imagem de uma região qualquer do espaço. O resultado encontrado foi projetado para o resto do céu inteiro. Atualmente, se estima que o número total de galáxias no Universo seja comparável ao número de estrelas da nossa galáxia, ou seja, alguma coisa entre 100 e 200 bilhões.

JC - Dentro da nossa galáxia, a Via Láctea, quantos sistemas planetários existem?Costa - A partir dos anos 90 se começou a investigar a existência de planetas em torno de outras estrelas. Vários foram encontrados e hoje sabe-se que eles são mais comuns do que se imaginava antes. Existem 66 estrelas identificadas na nossa galáxia, em torno das quais existem planetas.

JC - Se o Universo surgiu de uma expansão única, essas estrelas todas têm aproximadamente a mesma idade ou não? Costa - O Universo tem, aproximadamente, de 13 a 15 bilhões de anos mas as idades das estrelas variam muito. O Sol tem em torno de 4,5 bilhões de anos de idade, essa determinação é muito segura porque é baseada em dados geológicos. Outras estrelas têm a sua idade medida pela sua luminosidade. Quanto mais luminosa é a estrela, menos tempo ela vive.

JC - Esses outros sistemas planetários que existem na Via Láctea têm a mesma idade que o nosso sistema solar?Costa - É possível saber a idade desses sistemas pela luminosidade das estrelas sobre as quais os planetas giram. A idade dos planetas é, mais ou menos, a mesma das estrelas porque tudo se cria ao mesmo tempo. As estrelas da Via Láctea estão todas próximas do nosso Sol em termos de idade.

JC - É possível que existam sistemas parecidos com o nosso?Costa - Não. Até agora todos os planetas identificados não são semelhantes à Terra, são mais mais parecidos com Júpiter, são planetas que chamamos de gigantes gasosos. No nosso sistema solar existem duas famílias de planetas completamente diferentes: os planetas de tipo terrestre, que estão mais perto do Sol, que são Mercúrio, Vênus, Terra e Marte; e os planetas nuvianos, que são Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Plutão está muito longe e é um caso à parte. Os planetas terrestres têm uma crosta dura e uma atmosfera; já os planetas como Júpiter são muito maiores, compostos de material gasoso, hidrogênio e hélio, essencialmente, e são muito maiores e mais massivos, por isso podem ser mais facilmente detectados. Por isso todos os outros planetas extra-solares, ou seja, planetas fora do nosso sistema solar, são planetas do tipo gigante gasoso, não são como a Terra. Isso não quer dizer que os planetas do tipo terrestre não existem, é que os gasosos são mais fáceis de serem vistos. JC - Então é possível que exista, mesmo na Via Láctea, um planeta parecido com o nosso, um clone da Terra?Costa - Essa questão não é nem técnica, é filosófica. A minha impressão é que as condições que levaram à origem da vida na Terra não podem ser únicas já que a composição química do Sol não muda muito em relação às estrelas da vizinhança solar e a aparência física do Sol também não muda muito em termos de temperatura e luminosidade. Existem muitas estrelas parecidas com o Sol, existe até uma área da Astronomia que estuda as gêmeas solares, que são as estrelas parecidas com o Sol. Então, provavelmente as condições que geraram a vida na Terra existem em algum lugar da nossa galáxia, é uma questão de procurar. O problema é que a procura é muito difícil. Os especialistas em exobiologia, que é a procura da vida fora da Terra, colocam a seguinte questão: existe vida na Terra vista de fora? Isso é curioso porque será que uma nave em torno de Júpiter poderia olhar para a Terra e encontrar provas de vida? Isso é muito, muito difícil, muito sutil. Alguém em Júpiter usando os equipamentos que temos na Terra hoje não poderia dizer que há vida aqui. O que se distingüe é uma pequena assimetria na razão entre as abundâncias químicas de ozônio e oxigênio causadas pela fotossíntese. Isso é um traço muito tênue de que existe vida na Terra, mais isso de maneira nenhuma seria detectado mesmo da estrela mais próxima do Sol que existe. A procura é muito difícil.

JC - Quando se diz vida fora da Terra se quer dizer vida microscópica, bactérias, ou uma civilização organizada?Costa - O mais comum seria encontrar vida microscópica, unicelular, como bactérias, fungos. Falar de vida é complicado porque a gente tem um único caso para falar que é o da Terra, não existe nenhuma estatística de um ponto só. No caso da Terra, as coisas foram assim: o planeta tem cerca de 4,5 bilhões de anos. Durante o primeiro bilhão não havia vida, apenas transformações e evoluções químicas. A vida surgiu há cerca de 3,5 bilhões de anos. O surgimento de vida inteligente, ou seja, dos primeiros homenídios, é um milésimo desse tempo, eles surgiram há 3,5, 4 milhões de anos. Ou seja, o tempo de vida inteligente é muito menor do que o tempo de vida total. E da vida inteligente para a civilização é outro passo. Na Terra ela existe há 10 mil anos se a gente for muito otimista e considerar as primeiras cidades organizadas. E a tecnologia dentro dessa sociedade civilizada, se a gente for considerar tecnologia como a capacidade de comunicação por rádio, ela tem só um século. Então, estatisticamente, é muito mais fácil encontrar uma bactéria do que uma nave espacial fora da Terra.

JC - Já foram divulgadas informações sobre a existência de canais em Marte que poderiam ter sido rios no passado. Há a possibilidade de vida microscópica lá?Costa - Essa é uma questão que ainda não está resolvida. O que existe em Marte são traços de erosão. Quer dizer, é uma prova de que já existiu água em estado líquido na superfície. Agora se existem traços de vida, como fósseis de seres unicelulares, por exemplo, isso ainda está para ser respondido.

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