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Bola nos pés e boas notas na escola

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Programa social em Piratininga troca boas notas na escola por uma vaga nas equipes de futebol da cidade.

Piratininga - Conhecido como a Pátria de Chuteiras, o Brasil come e respira futebol. É certo que nem todos os brasileiros apreciam esse esporte, mas não tem como negar que ele é, de longe, o mais praticado e amado entre crianças, jovens, adultos e até mesmo os mais experientes. Particularmente entre as crianças, o fascínio pela bola é tão óbvio que a Prefeitura de Piratininga resolveu criar um programa social que usa a prática do futebol como um estímulo para melhorar o rendimento escolar e até social dos pequeninos.

Há quatro meses em atividade, o programa batizado como Bom de Bola Bom na Escola oferece uma vaga nas equipes infantil e juvenil da cidade para os alunos que freqüentam assiduamente a escola e apresenta bom comportamento, tanto dentro da sala de aula como em casa.

A idéia (da escola de futebol) é boa, mas o mais importante é a formação do cidadão, opinou o treinador José Roberto Ramos, 54 anos, o Safirinha. Nascido e criado em Piratininga, ele esteve um tempo fora da cidade e quando voltou, há poucos anos, ficou impressionado com o que viu.

Quando voltei, percebi que a coisa estava descambando para uma violência muito grande entre os garotos de 17 e 20 anos. Alguns deles estavam envolvidos até com drogas, contou Safirinha, que dirige escolas de futebol infantil há 17 anos. Ele trabalhou em São José dos Campos por 12 anos e por mais cinco em Rio Claro. O ferramenteiro, que tornou-se técnico de escolinhas de futebol, garante que a intenção do programa não é revelar jovens promessas para o futebol profissional. Nós não somos empresários. O objetivo (do programa) tem mais a ver com o social.

Para o prefeito Odail Falqueiro (PFL), 51 anos, além de investir no aprimoramento do lado social da criança, o programa tem como mérito o incentivo à prática de esportes. Segundo ele, mesmo tendo começado há apenas quatro meses, a escolinha de futebol já estaria colhendo resultados positivos fora de campo. Tem pai que já me procurou para dizer que o filho melhorou o comportamento dentro de casa.

Apesar de ter ouvido falar de programas semelhantes, em outras cidades, Odail disse que não tomou nenhum como modelo. Criamos a escolinha do nosso modo, afirmou. Quando questionado a respeito dos custos que a Prefeitura teria com a escolinha, o prefeito esboçou um sorriso para dizer que é quase zero.

O custo é irrisório frente ao benefício (do programa), garantiu. De acordo com o prefeito o gasto fica apenas com transporte e lanche dos alunos - quando a equipe joga em outra cidade - e com o material esportivo. As despesas do treinador, segundo Odail, são custeadas por duas empresas da cidade.

Critérios

Para participar da escolinha de futebol Bom de Bola Bom na Escola é preciso ter entre 7 e 16 anos e estar matriculado em alguma escola.

Atualmente, a escolinha conta com 125 alunos, que estão divididos em quatro categorias: de 7 a 10 anos, de 11 a 12, de 13 a 14 e de 15 a 16. Os treinos são realizados de manhã e à tarde duas vezes por semana (sempre às quartas e sextas-feiras), durante cerca de 1h30.

Odail mostra-se tão satisfeito com seu programa que já está pensando em ampliá-lo. Ele adiantou que pretende abrir espaço para outro tipo de esporte. Não sei ainda qual (modalidade), porque tem que ter receptividade. Não adianta abrir vaga para um esporte que não tem procura.

Mesmo com os limites de idades pré-estabelecidos, treinador Safirinha admite que é difícil recusar o pedido das mães que chegam trazendo o filho pelo braço e pedem para que o garoto seja incluído na equipe. Eu boto ele prá correr (dentro de campo).

Safirinha acha que o trabalho ficou um pouco prejudicado por ter começado no meio do ano. Ele argumenta que até conquistar a confiança dos alunos vai um certo tempo. Como a partir do próximo ano, ele terá os alunos desde o início das aulas, Safirinha acredita que os resultados serão mais positivos, em comparação com esse ano.

Segundo o treinador, o acompanhamento escolar será feito por ele e por Altino Alves, o Marolo, do setor de Esportes. E se algum aluno desistir da escola? Se isso acontecer, nós vamos conversar com ele para saber o que está se passando. Vamos trabalhar para recuperar essa criança. A conversa está acima da repressão, declarou Safirinha.

Acompanhamento ainda é parcial

Piratininga - O acompanhamento escolar é um dos pontos principais do programa Bom de Bola Bom na Escola em atividade há quatro meses, em Piratininga. Mas ele não vem sendo feito em todas as escolas, pelo menos por enquanto.

Esse é o caso da escola de ensino fundamental Profª. Jacira Mota Mendes. De acordo com a diretora Maria do Carmo Soares Mendes, 67 anos, apesar de aprovar a iniciativa da Prefeitura, ninguém tinha ido à escola até a última quarta-feira para saber sobre o desempenho dos alunos.

Acho a iniciativa louvável, mas não está havendo acompanhamento do rendimento escolar, revelou a diretora, lembrando que em sua escola os bons de bola são terríveis.

Entretanto, na escola Profº. Eduardo Velho Filho o acompanhamento parece estar funcionando. Em conversa com a reportagem, a vice-diretora Jussara Maria Paganini Ferreira garantiu que recebeu uma relação com o nome dos alunos que freqüentam a escolinha para acompanhamento do rendimento escolar de cada um.

Escolinha satisfaz pai de alunos

O motorista Odilon Luiz Pereira, 53 anos, está satisfeito com a participação dos dois filhos na escolinha de futebol mantida pela Prefeitura de Piratininga. Na opinião dele, é uma boa que os filhos gastem energia praticando esporte. O pai entende que enquanto os filhos correm atrás da bola, não ficam pensando besteiras nas ruas.

Pereira tem dois filhos, Murilo, 13 anos, e Bruno, 10 anos. Ambos, segundo ele, são apaixonados por futebol. A comida deles é o campo.

Se dependerem do rendimento escolar para permanecer na escolinha, os dois podem ficar tranqüilos. Segundo informou o pai, tanto Murilo quanto Bruno têm tido boas notas. Eles sempre foram bem na escola, revelou.

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