É na relação direta com a mulher que o homem tem se mostrado mais confuso com seus valores e posicionamentos. Razões não faltam, por exemplo a falta de popularidade da tradicional figura do machão, que já não é mais tão aceita quanto antes, ao mesmo tempo em que ainda existe a dificuldade em assumir uma postura mais sensível. As diferenças se estendem ao principal campo de batalha nessa guerra dos sexos, a cama, onde o homem ainda carrega o peso da necessidade cultural de ser um atleta sexual e, simultaneamente, de proporcionar prazer à parceira, uma preocupação que quase não tinha antes.
A crise de identidade masculina tem causado muitos estragos nos relacionamentos, homem-mulher. Segundo aponta o psiquiatra Luiz Cuschnir em seu livro Masculino/Feminina, o homem costuma fugir de um contato mais íntimo com a mulher porque acha que se se entregar, vai estar perdendo seu poder, por exemplo. O medo de perder a identidade masculina impede o homem de viver e experimentar em profundidade os sentimentos e emoções da relação afetiva, escreve, esse bloqueio torna-o mais exposto ao tédio, traição e separações. Ou seja, a ruína do relacionamento a dois. O problema é que isso acontece ao mesmo tempo em que o homem se dá conta de que não quer ser o dono da bola o tempo todo, que quer expressar suas fraquezas, seus medos, suas inseguranças sem que isso faça dele um fraco aos olhos de todos. É uma armadilha.
Para Luiz Cuschnir, o homem em crise deve entender que entrar em contato com as próprias emoções e colocá-las para fora não significa se feminilizar ou ser fraco. O homem precisa aprender a pensar nos seus valores mais verdadeiros hoje, e não baseando-se nos valores de gerações que o antecederam.
O problema no relacionamento com a mulher só pode ser solucionado depois que ele redefinir o seu próprio papel. Isso não é uma tarefa fácil porque a mulher ainda não aprendeu a traduzir a linguagem emocional desse homem que está aprendendo agora a se expressar, a colocar para fora o que sente. Isso significa que ela também cobra dele uma postura de super-homem que ele não tem (ou não quer ter). De acordo com o psiquiatra, geralmente, quando o homem se abre, a mulher se assusta e minimiza o problema, como se ele não entendesse nada do que estivesse falando, ou então faz o papel de protetora, sem entender que na fase adulta, o que ele precisa é de uma amante, uma companheira e não uma mãe.
Entre os lençóis
Na cama, a crise não é menor porque o homem ainda se sente na obrigação de nunca falhar e se mostrar um grande amante. Eles também trazem a responsabilidade de saberem tudo sobre sexo e como proporcionar prazer para a parceira que agora despertou para a sexualidade e não tem somente a função reprodutora, mas quer prazer pessoal e busca isso no homem.
Para a psicóloga Luciana Biem Neuber, é fundamental que tanto homens quanto mulheres descubram uma nova maneira de viver sua sexualidade, a medida em que o assunto ainda carrega tabus de um passado reprimido. Segundo ela, o primeiro passo para esse entendimento é a compreensão das diferenças orgânicas e psicológicas ocorridas durante uma relação sexual entre o homem e a mulher e para isso cada um necessita conhecer seu próprio corpo e também o do outro. O segundo passo para a psicóloga, é compreender que tanto homens quanto mulheres diferem do grau de necessidade de sexo na relação e, por isso precisam de respeito e diálogo para que possam encontrar um denominador comum. É preciso ainda considerar que existe sexo com vínculo amoroso, mas também aquele apenas por satisfação carnal e que os homens são capazes de viver o romantismo da mesma forma que as mulheres o prazer carnal. O terceiro passo é ser honesto consigo mesmo tendo clareza do tipo de relação que você deseja, buscando satisfação mútua. A qualidade de vida sexual só será alcançada se homens e mulheres buscarem o aprendizado da sexualidade, explica Luciana Biem.
Entrando em acordo
Na opinião da psicóloga, o mundo masculino necessita ser ouvido pelo feminino, que atualmente colocou-se numa posição exigente demais, disputando o comando e caindo no mesmo tipo de relação do passado no qual a disputa pelo poder prevalecia. As mulheres devem lutar por seus direitos mas sem deixar de lado a magia da feminilidade, o encanto do olhar sedutor, a doçura, a meiguice, a sensualidade, a emotividade e principalmente seu colo acolhedor, destaca Luciana Biem.
Ao mesmo tempo, o homem necessita enfrentar a mudança, repensando no seu papel atual, dividindo e não disputando com a mulher o mercado de trabalho, as obrigações familiares como participação ativa na vida dos filhos, do lar, do lazer, da sexualidade, construindo uma relação baseada na flexibilidade e não na autoridade, destaca.
A picoterapeuta profª drª Marilene Krom propõe algumas considerações para reflexão dos casais em crise:
O poder só existe na relação quando um domina e o outro aceita a dominação. O Importante entre os sexos é a cooperação e não a competição. Cada relacionamento é único, cada casal é um casal, como cada pessoa é uma pessoa. O outro não é responsável pela nossa felicidade, nós o somos assim como pela nossa mudança e melhoria. As pessoas são diferentes, ninguém é melhor ou pior. Esta visão permite a riqueza nos relacionamentos. As pessoas só se modificam se querem e nunca porque nós queremos O diálogo baseado na verdade e na compreensão das necessidades do outro sempre foi e é a base segura para a resolução de situações difíceis. A nossa verdade é apenas a aproximação de uma verdade maior. O outro pode ver a realidade de outra forma, pois existem várias construções da realidade. As crises são sempre uma oportunidade valiosa para sinalizar que algo não vai bem e que pode ser melhorado desde que haja investimento das pessoas para esta melhoria.
Sinto uma pressão muito grande dentro de casa porque quero dividir funções com a minha esposa, mas não quero que ela me veja como uma pessoa que não é capaz de fazer as coisasS.F., 28 anos, comerciante, casado
O homem ainda tem a obrigação de ser o bom de cama, o especialista em sexo, mesmo que não seja... É por isso que quando broxa, é uma tragédia, quando não deveria ser. O homem tem medo que a mulher ache que ele é impotente ou que não dá conta do recado... Às vezes ele pode estar apenas cansado, não querer transar. Isso é comum para a mulher - não tem aquela historinha da dor de cabeça? Mas o homem não tem esse direito Luiz Fernando O. Castro, 26 anos, estudante universitário, solteiro, com namorada
O homem pressiona o próprio homem, mas a mulher também não ajuda. Hoje existe essa coisa de dizer que não se deve mais ser machão, que as mulheres querem o homem sensível, mas, na prática, elas só vão atrás dos bad boys, dos caras que elas sabem que não prestam... Não dá para saber o que elas queremPaulo Sérgio Alves de Moura, 24 anos, estudante universitário, solteiro, sem namorada
Não sei se existe amizade entre homens e mulheres. Não sei se dá para confiar e falar o que se sente... Acho que nem entre amigos isso acontece. As pessoas não estão muito interessadas nos problemas dos outros em geralJosé Antônio Pugliese, 38 anos, divorciado, sem namorada